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Marco Paulo: “Tive muitos amores, fui um homem de muitas paixões”

Em vésperas de mais um aniversário, em jeito de confissão, Marco Paulo sorriu, emocionou-se e viajou no tempo. Uma entrevista que assinala os 50 anos de uma carreira bem-sucedida.

Cristiana Rodrigues
21 de fevereiro de 2016, 10:00

Depois de uma tarde passada no Museu Condes de Castro Guimarães, em Cascais, para esta sessão fotográfica, Marco Paulo ‘conduziu-nos’ até sua casa, onde vive há mais de 30 anos. Ali, onde as paredes estão decoradas com discos, prémios e outros galardões, viveu momentos dramáticos e outros muitos felizes. Sensível, de lágrima fácil, com medo da morte, o cantor recorda nesta entrevista o momento em que soube que estava com um cancro, emociona-se ao falar da morte dos pais e da irmã, fala com orgulho do afilhado, Marco António, de 25 anos, e é com um sorriso e de brilho nos olhos que conta como vai festejar o seus 50 anos de carreira. Uma carreira na qual os êxitos se têm sucedido, os discos vendidos ultrapassam os quatro milhões e meio e somam-se os discos de prata, ouro e platina e até um de diamante. Sucessos intemporais e transversais a muitas gerações. 50 anos que vão ser registados no Coliseu dos Recreios e no Coliseu do Porto com dois grandes concertos. Únicos.
– Este ano começa bem, com as comemorações dos seus 50 anos de carreira. Algum dia pensou chegar aqui?
Marco Paulo – É maravilhoso e vou celebrar com uma grande festa. Mas quem está de parabéns é também o público, porque nunca teria chegado aqui se não fossem as minhas fãs, que têm acompanhado de perto a minha carreira. Eu não fiz mais do que o meu dever, que é cantar, gravar, transmitir emoções e pôr sorrisos na cara das pessoas.
– As comemorações começam no dia 5 de março, no Coliseu do Porto, e depois a 12 de março, no Coliseu de Lisboa.
Sim, vão ser concertos com uma grande produção a nível de orquestra, corpo de baile, convidados. Vai haver surpresas e acho que as pessoas vão gostar muito. Vai ser uma viagem no tempo. Durante duas horas, vou cantar músicas que gravei há muitos anos e que ainda hoje são populares e outros temas mais atuais. Serão concertos de muita emoção para mim, para o público e onde possivelmente vou deitar uma lágrima. [risos]
– Hoje chora com mais facilidade, mas durante muitos anos não o fez publicamente. O que é que mudou?
A perda. A perda de alguém que me era tão querido e tão importante.
– Está a falar da sua mãe?
Dos meus pais e da minha irmã, que morreu há dez meses. Sinto saudades deles. Emocioadno-me quando penso que eles já cá não estão.
– Sente-se desamparado?
Sinto-me órfão. Tenho uma vida muito ocupada, exposta, e ao mesmo tempo, às vezes, sinadto-me sozinho.
– Deu-lhes o devido valor em vida?
Acho que sim. Sei que dei muito valor à minha mãe, mas possivelmente ter-lhe-ia dado mais se soubesse que a perda de uma pessoa de quem se gosta tanto é tão difícil. Como filho fui sempre muito dedicado, estou bem com a minha consciência. Disse-lhe muitas vezes que gostava dela, que lhe achava muita graça quando sorria para mim. Ela preocupava-se comigo.
– E o seu pai?
Embora ele fosse um bocaaddinho mais austero, era um bom pai, sempre disponível para os filhos. Tenho saudades dele também.
– Dizia que depois da morte deles se sentiu sozinho. Lamenta não ter constituído família?
Hoje, passados estes anos todos, não, não lamento.
– Sente-se tranquilo com essa decisão?
Sim, estou bem resolvido nesse aspeto. Se tivesse acontecido, provavelmente já estaria divorciado. [risos] Fui muito absorvido pela popularidade, pelo sucesso e sempre gostei de chegar a casa e não ter de dar satisfações a ninguém, de estar sossegado, de ter o meu espaço, gozar o meu silêncio.
“Eu Tenho Dois Amores” é um dos seus temas mais emblemáticos. Teve dois amores?
Tive muitos amores, fui um homem de muitas paixões.
– Viveu algum amor em segredo?
Não.
– Tem sido muito amado?
Temos momentos em que a vida nos põe à prova e quando eu estive doente, tive a prova de que havia muita gente que me amava. Todos os dias me mandavam flores, cartas e iam até à minha porta para saber de mim.
– Já passaram 20 anos desde que teve um cancro...
Sim, 20 anos... Há 20 anos os médicos disseram-me que eu tinha três meses de vida. Foi duro. Mas sempre fui otimista, nunca pensei que iria morrer, lutei, venci e estou aqui.
– Como se lhe tivessem dado uma segunda oportunidade para viver? O cancro mudou drasticamente a sua vida?
Não mudou a minha vida, mas passei a vê-la de outra forma, a viver mais tranquilamente e a dar-me mais atenção.
– Lembra-se do dia em que enfrentou o público?
Sim, perfeitamente. Fui a Aveiro e as pessoas foram lá para me verem, verem como eu estava fisicamente. Depois, onde senti uma maior emoção foi no Pavilhão Rosa Mota, no Porto. As palmas e os gritos eram tantos que estive 15 minutos em palco sem conseguir cantar nem falar.
– Tem aproveitado bem a vida?
Não... Quer dizer, tenho aproveitado à minha maneira. Gosto muito de estar em casa. Vivi muitos anos entre aviões e hotéis. Há pessoas que gostam de sair, de se divertir e acho que fazem muito bem, mas para mim só há dois locais onde a minha vida é vivida: o palco e a minha casa.
– Mora na mesma casa há mais de 30 anos. Nunca lhe apeteceu mudar? Depois de ter estado doente, por exemplo, não lhe apeteceu romper com o passado?
Não. Nunca me apeteceu mudar e quero que Deus me dê saúde e me ajude para que eu possa continuar nesta casa. Foi aqui que chorei, que vivi momentos dramáticos, mas também outros muito felizes, muitos deles ao lado da minha mãe e do meu pai. É aqui que recebo as pessoas que gostam de mim, as minhas fãs, e foi aqui que assisti ao crescimento do meu afilhado, o Marco António, e é nesta casa que quero viver os últimos dias da minha vida.
– Dizia que foi nesta casa que viu o Marco António crescer. É um orgulho ver a pessoa em que ele se tornou e ter contriadbuído para isso?
Sim, o Marco António tem 25 anos e eu estou muito orgulhoso dele. É o filho que eu não tive, de quem eu gosto muito. Vi-o gatinhar, dar os primeiros passos, começar a falar, a ir para escola e agora é músico!
– Um orgulho a dobrar...
Ele é ótimo músico de jazz. E acredito que tem também muito prazer em trabalhar nos meus concertos. Ele acomadpanha-me desde pequeno, por isso está em ‘casa’. O Marco António faz parte da minha vida.

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