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João Gil: "A montanha é inspiradora, é uma grande injeção na veia criativa”

A comemorar 40 anos de carreira, o músico, nascido na Covilhã, falou da sua ligação à neve e, ao lado da mulher, Ana Mesquita, revela já ter composto uma peça de teatro enquanto descia uma montanha.

Cláudia Alegria
20 de fevereiro de 2016, 16:00

Há 40 anos que dedica a sua vida à música. Não gosta de lhe chamar carreira, mas a entrega com que compõe cada tema e escreve cada letra acaba por se traduzir num sem-número de sucessos. E o ano que agora começa promete novidades: concertos com os Trovante, a internacionalização da peça Ode Marítima, com Diogo Infante, e a apresentação, já em fevereiro, do Quinteto Lisboa, um projeto com os músicos José Peixoto e Fernando Júdice e as vozes de María Berasarte e Paulo de Carvalho, e “que reúne as ideias que me levaram a fazer a Ala dos Namorados e os Madredeus, para projetar a música urbana portuguesa”, revelou João Gil, durante uns dias inspiradores que passou em Andorra com a mulher, Ana Mesquita, de 49 anos, e o filho desta, Vicente, de 14 anos, a convite da Seat Snow Cup. Com uma prancha de snowboard na mão, João, de 60 anos, falou com a CARAS não sobre música, mas sobre a sua ligação à neve, ao desporto, à montanha e ao modo como esta o inspira.
– Nasceu na Covilhã. Foi a proximidade da Serra da Estrela que proporcionou a sua paixão pela neve e pelos desportos de inverno?
Sim, esta relação com a neve é muito uterina. Em miúdos, nos dias em que havia um nevão e não tínhamos escola íamos todos para uma ribanceira com pneus, sacos e caixas e descíamos por ali abaixo. Estamos a falar de quando eu tinha uns seis anos. Por isso, sempre que subo e desço as pistas é como se estivesse a voltar aos meus primórdios, à infância, que foi muito feliz.
– E quando é que começou a esquiar?
Já foi mais tarde, com 20 e tal anos, na Serra Nevada. Na Serra da Estrela não há condições, porque se pratica um forfait caríssimo para aquilo que se oferece. Temos pouca altitude, temperaturas que não são assim tão baixas, muitas tempestades e vento, pelo que a neve nem tem tempo para acamar, tem uma textura que não é nada de especial. Portanto, temos de ir mais para o centro da Europa, para os Alpes ou para os Pirenéus, para sentir esse prazer de pisar neve com qualidade.
– Mas é uma tábua de snowboard que tem hoje nos pés...
Quase não se ouvia falar de snowboard em Portugal e aprendemos com alguns campeões de Espanha que começavam a dar aulas e a formar escolas, como o Miguel Bonal. Depois, isto cria um vício tremendo, é uma droga saudável...
– Mas porquê trocar o esqui pelo snowboard?
Porque estou absolutamente convencido de que o esqui é muito mais duro fisicamente, as articulações sofrem muito. Com o snowboard poupo mais os joelhos e, além disso, com as botas de snowboard até consigo conduzir um carro, são confortáveis, são uma espécie de ténis reforçados. Há dois anos experimentei duas horas de carving, que é uma técnica de esqui que aprecio muito, e passadas duas horas caí para o lado de cansaço. Quando é bem feito, o esqui é, de facto, muito mais puxado fisicamente. Eu consigo fazer esqui, mas canso-me muito mais. É o dobro do esforço.
– Já sente a idade que tem?
Não... quer dizer, a elasti­cidade não é a mesma, mas quando as pessoas têm técnica, quando adquirem consciência do corpo, do seu potencial e do seu limite – e se dominarem bem o esqui –, doseiam o esforço de outra maneira. Não sentem tanto o peso da idade, porque a técnica compensa. E é engraçado, por­que quando ficamos mais velhos (devo ser a pessoa que aqui está mais velha a fazer snowboard), aprimoramos o estilo, tentamos fazer muito bem poucos quilómetros, há um avanço na qualidade. E não interessa se vamos a 260km/h, não é esse o objetivo. O objetivo é desfru­tar, fazer a montanha e tirar o máximo partido dela.
– Isso é o que acontece na sua vida? Não corre tanto, mas tenta desfrutar mais?
É isso mesmo. Tento correr mais em qualidade do que em quantidade. Mas tenho que reconhecer que a montanha, para mim, é uma grande injeção no músculo e na veia criativa.
– É inspiradora?
Muito.
– Já criou alguma coisa aqui?
Aqui não, mas uma vez já compus um tema em plena descida. E escrevi a letra ao mesmo tempo. Foi para uma peça de teatro com bastante sucesso, um monólogo do Diogo Infante, e o tema, que mais tarde gravei na Filarmónica do Gil, era o Minha América. Fala da consciência de uma pessoa destruída pela dependência da droga e que tem a capacidade de dizer ao mundo: ‘Olhem para mim como exemplo, mas olhem para mim como uma pessoa destruída.’ Eu, no esforço do snowboard, ia escrevendo e, quando cheguei ao hotel, liguei para o Diogo e cantarolei para ver se ele gostava. Isto tudo para dizer que se devem praticar desportos em que haja uma relação com a natureza, tomando consciência da grande humildade da nossa pequenez perante a magnitude da montanha. Acho que é uma lição de vida. Quando estou na montanha, sinto-me leve como se fosse um pássaro, livre e a voar, como se estivesse a contrariar a fatalidade de um dia termos que morrer. Quando estamos a descer uma pista, a pendente é que nos traz para baixo, e essa pendente é que nos mata.
– Lida bem com a ideia da morte?
Sim, é uma paz, não é uma resignação. É uma consciência daquilo que nós somos e essa consciência adquire-se quando somos confrontados com o mundo, com a natureza.
– É uma pessoa que gosta de estabilidade, de tranquilidade emocional. Encontrou-a ao lado da Ana?
É uma tranquilidade ativa! Eu e esta mulher que amo muito somos dois seres que se encontraram num estado de maturidade na vida, que é a coisa mais preciosa que se pode ter. Quando encontras uma pessoa com a tua atitude na vida, que também não deixa cair os braços, isso vale o esforço de uma vida. É uma felicidade enorme. Agradeço a Deus o facto de estar vivo só por ter encontrado esta mulher.
– Foi surpreendido com esse encontro?
Acho que eu e a Ana merecemos aquilo que damos um ao outro. Temos um comprimento de onda e uma velocidade de raciocínio tão semelhantes e rápidos que funcionamos telepati­camente, só pela respiração.

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