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Rita Ferro confidencia: “Esforço-me diariamente para não sentir tanto”

A escritora recebeu a CARAS na sua casa, no Estoril, dando a conhecer parte do seu universo emocional. Numa conversa intimista, Rita revelou a mulher que é hoje.

Marta Mesquita
23 de janeiro de 2016, 14:00

Rita Ferro é assim: desconcertante, complexa, senhora de si mesma, forte mas também vulnerável, capaz de ganhar o dia com uma pequena alegria, mas deixando ao mesmo tempo que uma tristeza ou uma memória menos feliz lhe roube, num instante, o sorriso. Rita é tudo isto e muito mais, como se revela no segundo volume do seu Diário, Só se Morre uma Vez. Ao longo destas páginas, a escritora conta-se na primeira pessoa, recordando episódios do seu passado, refletindo sobre o seu presente, desejando o seu futuro. As suas ansiedades, medos e esperanças são apresentadas com a genuinidade de uma mulher de 60 anos que se aceita tal como é, sem subterfúgios.
Numa conversa sem tabus, na qual a escritora trocou o habitual lugar de entrevistadora pelo de entrevistada, Rita revelou-se no papel de protagonista e folheou as páginas da sua vida, que agora pode ser lida num só fôlego.
– Volta a ser a ‘protagonista’ de mais um livro. É um lugar na escrita que a deixa confortável?
Rita Ferro – Volto a ser protagonista de mais um livro, sim, mas como não sê-lo num diário? [Risos] De um plano egoísta, os meus diários servem de planisfério de uma vida intensa e acidentada. São bons, porque me permitem recrutar a memória de um modo muito mais ágil e disciplinado do que à custa da simples evocação mental. Se não escrevesse, tudo o que me acontece estaria a vogar caoticamente no meu espírito, sem a escrita talvez não conseguisse fazer uma avaliação crítica e objetiva da minha vida. E sim, sinto-me muito bem neste registo, nem sei como comecei tão tarde, penso que foi sempre o medo de que a minha vida não fosse suficientemente original para partilhar. Hoje já sei que a minha vida é suficientemente original, mas, mais importante do que isso, que o que realmente interessa é a originalidade com que a vemos ou vivemos.
– Começa este segundo volume do seu Diário escrevendo: “Insatisfação permanente, esvaziamento de sentido de vida, preguiça de continuar.” Aos 60, a vida já não é tão apelativa?
– Quando me começo a convencer de que a vida já não é tão apelativa há sempre uma reviravolta que o desmente. Foi sempre assim. Mas, atenção, está a falar com uma típica ciclotímica: os meus humores alteram-se da manhã para a tarde, os meus conceitos estão em atualização contínua. Contudo, há uma consistência por trás de tudo isto que me estrutura, uma unidade qualquer que não identifico muito bem, mas que me impede de descarrilar. E uma alegria que irrompe mesmo nos piores cenários.
– Escreve também: “Se isto é a velhice, não a quero.” O que lhe custa mais no passar dos anos?
– A incerteza. A de não saber a forma como partirei e o tempo que levarei a morrer, a de não saber se terei ou não reforma, a de não saber se estarei sozinha ou mal acompanhada, a de não saber se terei coragem de viver a velhice até ao fim se esta se arrastar. Para mim, os heróis são os velhos e pouco se fala da sua bravura. No outro dia li um artigo bem escrito que me surpreendeu e me deu uma certa esperança: o período de maior infelicidade não é, ao contrário do que se pensa e do que eu mesma pensava, nem a adolescência nem a velhice. Parece que é no período entre os 30 e os 45 anos, quando a pressão da vida é maior e as pessoas precisam de se afirmar para singrarem. Bom, desse tempo já me escapei. Mas deixou-me de rastos, devo dizer.
– É uma mulher de ‘pazes feitas’ com o passado?
– Absolutamente. Até das in­gratidões me esqueço. Primeiro, quando me humilham, ofendem ou desapontam, faço um estardalhaço, berro, esperneio, ofendo de volta, torno-me um bicho, uma homicida em potência. Mas depois esqueço-me, arrumo as coisas negras num cofre cuja chave deito fora, viro a página, prossigo sem ressentimentos.
– Escreveu: “Adeus para sempre à vertigem em que sempre vivi.” A tranquilidade de uma vida menos preenchida ajuda-a a desfrutar de outras realidades que antes lhe passavam ao lado?
– Não exatamente. Uma men­te preocupada e inquieta arranja sempre maneira de não desfrutar do que pode. É o meu pior defeito, se tivesse que eleger um. Esforço-me diariamente para não sentir tanto.
– Perdeu bastante peso. A imagem ainda tem muita importância?
– Ganhei peso porque deixei de fumar, perdi porque estava disforme, já ganhei algum entretanto. Não tenho nem peso nem temperatura constantes.[risos]Se a imagem tem importância? Sim, para os outros. Daí toda esta patética submissão.
– Diz que a sua divisa é “Antes pior que igual.” Durante a sua vida tem sido várias mulheres ou a sua essência continua a mesma?
– Tenho ortónimo e heteróni­mos, como qualquer pessoa. Mas de vez em quando baralho-os e já não sei quem sou. Mas penso que vivo predo­minantemente entre dois contrastes vincados: um animal gregário, liderante, forte, popular, integrado, trocista e solar, e uma mulher sofredora, frágil e carente, em risco iminente de derrocada. Ambos inteiramente genuínos, juro.
– Neste Diário aborda a relação que tem com os seus filhos. Que mãe é hoje?
– A que pude ser. Imperfeita, por vezes histérica. Mas também mater apaixonada. Cometi muitos erros, gritei-lhes, desgastei muito a minha relação com ninharias, como quartos desarrumados e pratos sujos debaixo da cama. Mas fui sempre meiga com eles, no sentido mais físico do termo, e se alguma vez lhes faltei, não me apercebi. Espero que me perdoem e compreendam as circunstâncias que tive de atravessar e que só eles conhecem. O mal está feito, mas o bem também.
– O que gostava que os seus netos aprendessem consigo?
– A loucura. Ninguém sobrevive mentalmente sem ela neste mundo cão.
– Casou e ‘descasou’ três vezes e neste livro chega a admitir: “Quero tudo o que queria aos 30, mas a dobrar.” Ainda não perdeu a ideia de encontrar alguém especial?
– Encontrei há meses alguém especial, espero não estragar tudo com o meu feitio intempestivo. De resto, é mesmo isso: uma mulher madura não é uma mulher em saldo. É talvez mais exigente do que em nova. Como os homens, aliás. Ama-se até morrer e mesmo para além da morte.
– O que uma mulher de 60 anos quer?
– No meu caso? Não ter de trabalhar. Escrever é um atolar constante num pântano de agonias. Já quis Ve­neza [o primeiro volume do seu Diário tem como título Veneza Pode Esperar], agora quero Bahamas.

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