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Marcelo Rebelo de Sousa: “Sei bem como o poder é relativo, passageiro e contingente”

Rita Ferro conversa com o candidato à Presidência da República que as sondagens apontam como favorito.

Rita Ferro
21 de janeiro de 2016, 15:30

O que se pergunta a alguém que já respondeu a tudo, mesmo ao que não lhe perguntaram, e que já perguntou tudo, mesmo o que ninguém vivo poderia responder-lhe? Apesar do CV copioso e de ser, ou já ter sido, professor catedrático, conselheiro de Estado, juriscon­sulto, secretário de Estado, ministro, deputado, político, jornalista, ensaísta, comentador da rádio e da TV, e ainda, desde 2012, Presidente da Fundação da Ca­sa de Bragança, com uma vida pública acessível a todos, é um ser humano mais misterioso do que parece, porque a exposição é sempre uma boa máscara. Os portugueses amam-no ou detestam-no, mas são unânimes a afirmar: “O homem é um prodígio!” Senhor de uma memória portentosa, nunca esqueceu um dado ou uma informação importantes, não leva cábulas para as reuniões ou para a televisão, e escreve, simultaneamente, com as duas mãos: uma, sobre uma matéria, a outra, sobre tema completamente diferente – alcançando com esta última, em vida, a categoria de mito. Contemporâneos da Faculdade contam que aprendia nos três primeiros meses a matéria do ano inteiro. Como se não bastasse, fala de tudo com inegável conhecimento: da geografia à literatura. Falamos, claro, de Marcelo Rebelo de Sousa – 67 anos, divorciado, dois filhos, excelente forma física – que, em Outubro de 2015, anunciou a sua candidatura à Presidência da República, e que nos recebeu em Cascais, entre a afectiva Praia da Conceição e o Hotel Albatroz, onde uma gaivota – ou era mesmo um albatroz? – quase lhe poisa num ombro. Bom presságio? Para as empresas de sondagens, para os amigos, para os inimigos, já ganhou. Mas ganhará ou será surpreendido? E ganhará à primeira volta, à segunda ou à terceira? Não haverá terceira volta? Isso é o que vamos ver.
– Além da presidência, que ganha se ganhar?
Marcelo Rebelo de Sousa –
Ganha Portugal em equilíbrio, em desdramatização, em unidade entre os portugueses.
– Que perde se ganhar?
– Não é bem perder. É deixar a vida que tenho e sobretudo a maior proximidade dos netos.
– Que ganha se perder?
– Continuo a ter a vida que tenho, e em especial os netos bem mais perto de mim.
– Nas duas primeiras perguntas escrevo “se ganhar”, pois há imponderáveis que ninguém prevê. Há uma parte de si ainda insegura?
– Não. Nem um segundo de hesitação ou dúvida.
– Depois desta autêntica revolução feminina do Bloco de Esquerda, com três mulheres preparadíssimas à cabeça, a política portuguesa nunca mais será a mesma?
– Haverá efeitos no sistema de partidos, ligados com o papel de jovens, mulheres e de certa área política. Mais do que isso se verá.
– Escreve em português ou em “acordês”? Porquê?
– Escrevo como sempre escrevi, sou velho para mudar.
– Teve um pai ministro, de quem pouco fala publicamente. Que lhe transmitiu Baltazar Rebelo de Sousa em matéria de política e de valores?
– Amor a Deus, ao próximo e a Portugal. Prioridade aos mais pobres e aposta na Comunidade de Língua Portuguesa. Além de honestidade e independência.
– Em termos intelectuais, nomeie três portugueses vivos a quem tira o chapéu?
– Entre muitos outros, Eduardo Lourenço, Agustina Bessa-Luís, Paula Rego e Júlio Pomar. São quatro em vez de três.
– Quer confiar-nos os três defeitos que tem tido mais dificuldade em debelar?
– Hipocondríaco, por vezes falta de pontualidade e propensão para o optimismo crónico.
– E as qualidades? As qualidades de que mais se orgulha?
– Alegria de viver, generosidade, curiosidade perante os outros e pela realidade em mudança.
– A mais bela e a mais difícil de alcançar é, do meu ponto de vista, a humildade. Presumo que as honrarias em que se verá mergulhado atrasem essa conquista...
– Já vi e vivi ou acompanhei de perto muitas situações de poder. Tenho a exacta noção de como é passageiro, relativo e contingente.
– É um português de cen­tro-direita. Qual a diferença entre centro-direita e direita, em Portugal? A sério. Há muita gente que ainda não percebeu...
– A direita clássica portuguesa é conservadora. O centro-direita é mais reformista.
– Candidatou-se porque, desta vez, deu a vitória como certa. Engano-me?
– Candidatei-me porque tenho o dever de consciência de o fazer por achar que o fugir à responsabilidade não serviria Portugal e ficaria com um remorso insuperável. Nada é certo em eleições, nem vitórias, nem derrotas.
– E se, por um bambúrrio, não ganhasse? Daria uma terceira volta na sua vida?
– Se não ganhar – o que espero, por Portugal, que não suceda – continuarei o caminho an­terior de consciência tranquila. Tinha feito o que devia. Os portugueses tinham preferido outra solução. É a democracia.
– Para terminar com humor: que palavras escolheria para o seu epitáfio?
– Gostava de não ter nada escrito no jazigo familiar, onde a haver alguém a merecer umas palavras eram os meus pais, que expressamente as recusaram.
Nota: por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico.

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