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David Bowie morre de cancro aos 69 anos, mas deixa um disco de despedida

Bowie e Iman casaram-se em 1992 e foram pais de uma rapariga, Alexandria, a 15 de agosto de 2000. Dias depois, a CARAS publicou em exclusivo para Portugal uma entrevista feita em casa do cantor.

Ana Paula Homem
21 de janeiro de 2016, 17:30

A notícia da morte de David Bowie na noite do passado domingo, dia 10 de janeiro, em Nova Iorque, foi um verdadeiro murro nos olhos para os milhões de fãs que o cantor britânico tinha em todo o mundo. Primeiro, porque se desconhecia que Bowie lutava há 18 meses contra um cancro de fígado. Depois, porque será quase unânime a ideia de que o cantor britânico era uma daquelas raras pessoas que não deviam morrer, pelo simples facto de ter nascido abençoado pela genialidade. E são tão poucos aqueles a quem isso acontece...
David Bowie (nome artístico de David Robert Jones, nascido em Brixton, a sul de Londres, a 8 de janeiro de 1947, numa família de classe média) não foi apenas o cantor, compositor, músico multi-instrumentista e produtor de discos revolucionário que ao longo de quase 50 anos de carreira viajou por estilos tão distintos como o glam rock, a pop, a soul, o funk, a eletrónica ou o jazz experimental. Foi isso tudo e ainda ator, bailarino, pintor, poeta. Em suma, um esteta multifacetado e perfeccionista que usou o estilo e a imagem como suportes fundamentais da sua música: os seus concertos foram desde cedo “enroupados” por produções de enorme aparato e os seus video-clips tinham argumento e qualidade fotográfica, eram sempre tecnicamente vanguardistas e visualmente sofisticados, mais próximos do cinema de autor do que da mera promoção comercial.
Além disso, à criatividade e ao talento com que constantemente se reinventou Bowie soube juntar um forte sentido de marketing. Porque tinha consciência de que a sua beleza ariana era quase feminina, em “trabalho” fazia-a sobressair frequentemente com intensa maquilhagem e nunca se empenhou em desfazer a aura de androginia que se lhe colou à pele. Pelo contrário, alimentou-a, aceitando, por exemplo, papéis cinematográficos sexualmente ambíguos. Mais ainda, em 1972, apesar de ser casado com Angie Barnett, mãe do seu filho Duncan (nascido em 1971, é hoje o realizador Duncan Jones), numa entrevista ao jornal de música britânico Melody Maker, afirmou ser homossexual. Em 1976, à Playboy, disse ser bissexual. Em 1983, já divorciado de Angie, assegurou à Rolling Stone que a declaração de bissexualidade tinha sido o maior erro que cometera na vida, pois foi sempre heterossexual. Em 1992 casou-se com a top model somali-americana Iman, com quem teve uma filha, Alexandria Zahara Jones, nascida em agosto de 2000, e com a qual permaneceu até morrer. Mas em 2002, à Blender, comentou que a declaração de bissexualidade só tinha sido um erro em relação aos EUA, pois, por ser um país tão puritano, isso o tinha prejudicado.
A questão da sexualidade, que ficará sempre sem resposta, contribuiu para adensar o véu de mistério com que Bowie gostava de se envolver. E não apenas por questões de marketing. Na verdade, a sua mente era um labirinto no qual se perdeu várias vezes. A criação de alteregos, como o cantor extraterrestre Ziggy Stardust (que lhe valeu uma ascensão meteórica, em 1972, mas do qual, ao fim de pouco tempo, começou a ter dificuldade em se dissociar, acabando por o “matar” antes que ele o sufocasse), foi um bom exemplo de uma personalidade com tendência para a mitificação, a paranoia e desdobramentos quase no limite da esquizofrenia (um medo que o terá perseguido de facto, pois tinha um irmão esquizofrénico).
Empolgadas por consumos de cocaína tão excessivos que nos anos 70 lhe obliteravam longos momentos da memória e quase o mataram várias vezes por overdose, estas características de personalidade conduziram-no a um imaginário sombrio e bizarro –
são recorrentes temáticas como o vampirismo, os extraterrestres, a iminência do fim do mundo – e politicamente incorreto: proferiu comentários profascistas e foi até preso na fronteira entre a URSS e a Polónia com parafernália nazi, comportamentos que mais tarde atribuiria ao efeito das drogas.
Nos últimos anos, porém, tudo parecia ter mudado na vida do cantor – que a hits como Heroes, Let’s Dance, China Girl, Where Are We Now, Absolute Beginners ou Ashes to Ashes somou temas de culto como The Bewlay Brothers, Stay, Station to Station ou Teenage Wildlife. À medida que se ia tornando mais velho, o cantor foi adotando um estilo mais sóbrio em palco, o seu visual tornou-se menos andrógino e a sua vida mais “certinha”. Tudo indica que por detrás dessa reviravolta terão estado o facto de ter deixado as drogas e a sua nova família. Até a filha nascer, Bowie chegava a gravar um disco por ano, depois, chegou a estar dez anos sem entrar em estúdio. Já doente, em 2015 gravou o seu último álbum, Blackstar. No videoclip do tema homónimo aparece vendado e deitado numa cama de hospital, visivelmente debilitado. O disco foi lançado a 8 de janeiro, dia do seu 69.º aniversário, dois dias antes da sua morte.

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