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Marisa Matias: “Já visitei muitas vezes o inferno”

Rita Ferro entrevista a candidata à Presidência da República apoiada pelo Bloco de Esquerda e conclui que Marisa Matias é bonita, inteligente e corajosa.

Rita Ferro
20 de janeiro de 2016, 15:30

Marisa Matias nasceu em Coimbra a 20 de Fevereiro de 1976. É casada, mas feroz a defender a sua vida privada. Licenciou-se, mestrou-se e doutorou-se em Sociologia na Faculdade de Economia da Uni­versidade de Coimbra. É vice-pre­sidente do Partido da Esquerda Europeia desde 2010, deputada do Parlamento Europeu desde 2009 (reeleita em 2014) e presidente da Delegação do Parlamento Europeu para as Relações com os Países do Maxereque (Líbano, Jordânia, Síria e Egipto). No âmbito do seu mandato, foi responsável por tantas vitórias sociais importantes que seis páginas não chegariam para as inventariar. Entre elas, a “estratégia europeia de combate ao Alzheimer e outras demências”, e co-autora da primeira definição de “linhas políticas estratégicas de combate à epidemia da diabetes”.
Além do Parlamento Europeu, é vice-presidente da Associação Europeia de Alzheimer e Mem­bro do Conselho Consultivo da SERES. Marisa é bonita, inteligente, corajosa. Gosta-se dela à primeira vista. E à segunda também, temo eu.
– Angela Merkel foi consi­derada “Personalidade do Ano” pela revista norte-americana Time. Como reage à distinção?
Maria Matias – Angela Merkel marcou definitivamente o ano, goste-se dela ou não. Eu não partilho as visões políticas de Merkel, nem gosto da lógica de premiar a mão pesada.
– Este é um ano de alegria para as mulheres emancipadas. Pela primeira vez na história da democracia portuguesa, duas das candidatas à Presidência da República são mulheres. Diz-se que não há sexos, há pessoas. Ainda assim, consegue sentir algum orgulho, e responsabili­dade, pelo precedente aberto?
– Sim, orgulho e responsabilidade. Uma democracia entra na idade adulta quando começa a ser normal a igualdade entre homens e mulheres. Ainda estamos longe, muito longe, disso. Já tivemos como candidata a maravilhosa Maria de Lourdes Pintasilgo. Em 41 anos de democracia é muito pouco. Nada mais normal numa socie­dade em que metade da população é composta por mulheres. As pessoas contam definitivamente, mas o sexo ainda determina as oportunidades ou a falta delas.
– O seu périplo mensal de viagens é alucinante: Bruxelas-Estrasburgo-Bruxelas-Lisboa-Estrasburgo-Cairo, etc. Onde descobre tempo e espaço para tratar de si, ir ao cabeleireiro, comprar roupa, estar com amigos e assistir a espetáculos?
– Não tenho muito tempo e espaço para tratar de mim. Vou-me cuidando. Tento ganhar quase todo o tempo que resta para estar com quem gosto. Roupa vou comprando quando é preciso, mas o cabelo fica para os intervalos. Em Coimbra, em Lisboa ou em Bruxelas, quando preciso já sei onde ir. Nos outros sítios organizo-me para encontrar tempo. A maior parte das vezes trato eu dele, mas não é a mesma coisa [risos]. Vivo muito bem com isso.
– Além do seu marido e restante família, onde encontra o seu equilíbrio pessoal?
– Nos amigos, sempre nos amigos, nos livros, nos filmes, na música, a ver o mar e, algumas vezes, no silêncio. Nos dias mais difíceis e complicados de trabalho, encontro a paz a chegar a casa, pôr música, pôr vinho num copo e cozinhar.
– Adquiriu notoriedade desde muito nova. Foi bom, ou pode um dia vir a revelar-se negativo?
– No exercício de cargos públicos, a notoriedade tem de andar sempre de mão dada com a responsabilidade. Tem de ser pelo que fazemos. Isso é válido para o bom e para o mau.
– Viu a série de televisão Borgen? Reviu-se no persona­gem da primeira-ministra dinamarquesa? Temeu por si?
– Nunca vi a série. Tenho uma lista enorme de séries para ver quando houver tempo para isso. Esta é uma delas...
– Todo o ser humano sofre de inseguranças. A política pode curá-las ou agravá-las? Ou fazê-las desaparecer, o que não deixa de ser sinistro...
– A política tende a reforçá-las, queremos não falhar, fazer tudo o que podemos para melhorar a vida das pessoas. Pergunto-me muitas vezes os caminhos mais adequados para lá chegar. Estudo as propostas. A insegurança não é em si um problema. É mais o que fazemos com ela. Ir em frente e correr riscos é a solução e não ficar presa a ela, porque são as vidas de muitas pessoas que estão em causa.
– Em que momento começou a interessar-se pela política, e qual a razão?
– De ouvir falar, desde muito pequenina nas conversas com um amigo, vizinho dos meus avós, o Sr. Álvaro Febra, o ‘comunista’ da aldeia. Conversava muito com ele, ouvia as histórias sobre a miséria, os sonhos, a clandestinidade. Lembro-me de não me conformar com injustiças desde muito nova. A parte mais activa começou nos movimentos estudantis e nos movimentos sociais. Não foi pelos partidos que comecei. Fui educada para não ter vergonha do que era e para ter asas, para ter voz. Talvez a minha mãe tenha sido muito influente nisso. Via nas filhas o que a vida poderia ser e que ela nunca pôde fazer. Por ser mulher a viver numa aldeia durante a ditadura, por ter começado a trabalhar em idade em que devia estar no banco da escola e só ter podido usar calças depois de casada.
– Consegue vislumbrar alguém interessante à direita? Não se arranjam um ou dois nomes? [risos]
– Consigo [risos]. Tenho amigos de direita e estou habituada a trabalhar com pessoas de direita para chegar a compromissos. Até arranjava mais do que dois, mas aproveito para destacar duas pessoas que conheci no Parlamento Europeu e que, apesar das nossas visões diferentes do mundo, merecem o meu maior res­peito e amizade: Carlos Coe­lho e Maria da Graça Car­valho.
– O juízo que faz de si mesma pode não ser muito fiável, mas, ainda assim, os portugueses precisam de a conhecer um pouco melhor para decidir se votam, ou não, em si. Quem é a Marisa Matias? Quer tentar uma síntese?
– Ai... Tento, claro que tento. Mulher que tem orgulho em ser mulher. Trabalhadora e empenhada. Às vezes não sei parar, mas avisam-me. Gosto do cheiro da terra molhada e de ir ver o mar, de mergulhar nele se possível. Gosto muito de viver. Um amigo dizia que eu “comia a vida às dentadas”. Na infância e juventude habituei-me a viver com pouco e a aproveitar cada detalhe da vida. Sou muito pouco amedrontada. O que eu tenho mesmo medo é de perder pessoas. Os outros medos enfrento-os. Por isso mesmo, já visitei muitas vezes o inferno e já cheguei a pensar que se pode morrer de tristeza. Sou intransigente em relação às injustiças e à pobreza. Gosto de falar (há quem diga que muito), gosto de conversar com quem pensa de maneira diferente da minha. Como toda a gente, já perdi muitas vezes, mas nunca baixei os braços. Já ganhei muitas vezes, mas tenho sempre o botão do sentido crítico ligado. Gosto muito de estar com quem gosto.
– Qual a sua divisa?
– A minha divisa é a última estrofe de um poema da Adélia Prado, “só melhoro quando chove”. O poema começa assim: “Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso / com trovoadas e clarões, exactamente como chove agora”. A primeira vez que ouvi este poema foi há muitos anos, pela boca da Sofia Lobo, nunca mais o abandonei, nem aos outros da Adélia Prado.
– E o que quer para os portugueses?
– Que vivam melhor e sejam felizes. Que sejam muito felizes!
Nota: por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico.

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