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Sampaio da Nóvoa: “Portugal precisa de um novo patriotismo"

O candidato à Presidência da República revela motivações e convicções à escritora Rita Ferro.

Rita Ferro
19 de janeiro de 2016, 15:30

António Manuel Seixas Sam­paio da Nóvoa, 60 anos, casado, um filho, nascido em Valença do Minho, professor catedrático do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa e reitor honorário da mesma universidade. É um dos candidatos às eleições de 2016 para a Presidência da República. Foi reitor da Universidade de Lisboa, entre 2006 e 2013. Leccionou em diversas universidades estrangeiras e é autor de mais de 200 livros e artigos publicados em 12 países. As suas áreas de especialidade são a Educação e a História. Possui dois doutoramentos: em História pela Universidade de Paris IV – Sorbonne e em Educação pela Universidade de Genebra. Entre 1996 e 1999 foi consultor para a Educação da Casa Civil do Presidente da República, Jorge Sampaio. Foi agraciado com a grã-cruz da Ordem da Instrução Pública, a 4 de Outubro de 2005. É Doutor Honoris Causa pela Universidade do Algarve e pela Universidade de Brasília. O contacto directo deixa uma opinião unânime: trata-se de um homem tranquilo, amável, fino, culto sem acinte, com sentido de humor e, mais raro ainda, de uma naturalidade absoluta.
Rita Ferro – Em miúdo, com 12, 13 anos, o que queria ser quando fosse grande?
Sampaio da Nóvoa – Fute­bolista. Cheguei a jogar na Académica de Coimbra, como médio centro. Belos tempos... A Académica era o meu sonho de infância. Um “olheiro” foi ver-me jogar a Oeiras e fez-me o convite. E assim fui para Coimbra. Ganhava 1.200 escudos por mês.
– Há, em si, uma linha de conduta que pode caracterizá-lo?
– Nunca estive nas instituições para ocupar cargos. Procuro traçar objectivos ambiciosos e mobilizar as pessoas para os cumprir. Foi assim na universidade, tem sido sempre assim na minha vida. Quando saí de reitor deixei uma universidade mais forte, mais capaz e aberta ao mundo. Foi um sonho que se concretizou. Só se consegue agir bem quando sabemos para onde vamos.
– Sei do seu parentesco próximo com Alberto Sampaio, o grande amigo de Antero, e que ambos o terão encaminhado para a história e muito provavelmente para a política. Quem o estimulou para a literatura e para o romance?
– A família grande é uma referência central para mim. Na Quinta de Boamense, em Famalicão, onde viveu Alberto Sampaio, éramos mais de 40, entre primos e tios, habitando o mesmo espaço. Tudo nessa casa recorda a herança da Geração de 70, a amizade com Antero de Quental. E foi no escritório de Alberto Sampaio, em Boamense, que fiz muitas das minhas primeiras leituras na história e na cultura. Mas, no caso da literatura, da poesia e das artes, o tempo mais importante foi vivido em Coimbra. Tinha 16 anos. Foi também em Coimbra que me iniciei nas lutas estudantis e na vida política.
– Podia ter ficado a viver e a trabalhar no estrangeiro, mas regressou em virtude do nascimento de um filho. E não só: por ter aqui as suas raízes, por gostar de Portugal. Que destrinça faz entre patriotismo e nacionalismo?
– Costumo dizer que a minha mátria é Valença, terra da minha mãe. A minha pátria está em Famalicão e na Póvoa de Varzim, terras do meu pai. O patriotismo é o que nos abre e nos junta ao mundo, a partir de uma história, de uma língua, de uma cultura. O nacionalismo é o que nos fecha, dentro de nós, e nos afasta dos outros. Portugal precisa de um novo patriotismo, moderno e democrático, que traduza o orgulho dos portugueses na sua terra e seja fiel ao universalismo cosmopolita que representa o melhor da nossa história e da nossa cultura.
– Já confessou ser homem que decide em segundos...
– A decisão é rápida, mas a preparação é longa. Demoro muito a ponderar, mas, quando decido, está decidido. Temos de nos preparar bem para, na altura certa, sermos capazes de decidir bem. É assim em tudo. Como recorda Pasteur, “o acaso favorece sempre as mentes preparadas”.
– A sua candidatura à Pre­sidência cumpriu o preceito?
– Foi longamente amadurecida e rapidamente decidida.
– Terá sido, porventura, de­safiado a concorrer às presidenciais. Qual foi o factor precipitante, ou seja, o motivo pessoal que o levou a aceitar?
– Foi o sentido de responsabilidade. Responsabilidade por um país que me deu tudo, um país que tem todas as condições para ser mais justo, para cuidar melhor das pessoas, para ser mais desenvolvido. Há momentos na vida em que temos de dar tudo, para não nos arrependermos de ter ficado de fora, em silêncio ou num protesto inconsequente.
– É crente?
– Costumo dizer que sou agnóstico apesar de ter uma educação religiosa, católica. Mas hoje tenho muitas dúvidas e poucas certezas. Gosto de acreditar, como Jorge Luís Borges, que todas as coisas são possíveis, mesmo Deus, e que ser agnóstico pode facilitar a compreensão e o respeito pela diversidade de todas as crenças e comunidades religiosas. Mas também lhe digo que uma das personalidades que mais admiro é o Papa Francisco.
– Que posição tomou, na sua Universidade, sobre o Acordo Ortográfico de 1990?
– Liberdade. Respeitei a opção de cada pessoa e de cada Escola sobre o Acordo.
– E particularmente? Escreve em acordês ou em português? [risos]
– Escrevo como me ensinou o professor Laureano na escola primária de Caminha. Em português, portanto [risos].
– A propósito: alguma vez decidiu contra si em prol do bem comum?
– Assumi funções como reitor num tempo de grandes dificuldades económicas. Renunciei a todo o tipo de regalias relacionadas com o cargo, desde ajudas de custo, motorista e várias outras. O meu pai é juiz e uma das marcas principais que dele recebi, e que procuro honrar, é a independência, a isenção. Como reitor, por exemplo, não tomava decisões sobre a minha própria Faculdade.
– Sei que a vida social o não entusiasma e que prefere estar so­zinho com os seus livros. Mas se só vivesse entre livros alguma outra dimensão lhe faltaria. Ou não?
– Não são os livros que nos afastam das pessoas, pelo contrário. Através deles, adquirimos uma consciência mais nítida de vidas e de mundos que, de outro modo, nos teriam ficado desconhecidos. Tive momentos de enorme felicidade fechado em bibliotecas a ler livros, mas acredite que nos últimos meses de campanha tenho aprendido muito mais do que em anos e anos de leituras.
– Ah, afinal sempre me dá razão [risos]. Outro assunto: se for eleito, esperá-lo-á um sem-fim de solicitações e convites oficiais e sociais. Já se mentalizou?
– Estou preparadíssimo. Foi assim na Universidade e será assim, ainda mais, na Presidência da República. Aproveitarei cada uma destas ocasiões para falar das causas por que me bato e para projectar a imagem de Portugal no mundo.
– José Gil fala no “medo de existir” como um traço identitário dos portugueses. Que outro medo nos acrescentaria?
– O medo de arriscar, o medo de tomar posições, o medo de ser livre. Mas tudo isso cabe no “medo de existir”. Precisamos de nos libertar de muitas amarras. Precisamos de apoiar a livre ini­ciativa das pessoas, das instituições e das empresas.
– Como reage a sua mulher à possibilidade de vir a ser pri­meira-dama?
– O cargo de Presidente da República é unipessoal. Casámos há 41 anos, em 1974, e pautamos a nossa relação por uma grande confiança e respeito mútuos. A minha mulher não pretende abdicar da sua vida profissional, à qual sempre se dedicou por inteiro. É uma decisão que respeito incondicionalmente.
– Aos 60 – novíssimo! – que balanço faz da sua vida?
– Neste momento, estou sem tempo para balanços. Mas posso dizer que a vida me abriu possibilidades muito para além do que eu poderia ter imaginado. Só posso estar grato por tudo o que a vida me tem dado.
Nota: por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico.

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