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Antónia e Manuel S. Fonseca: A ‘arte’ de se viver um amor para a vida inteira

Juntos há 38 anos, o fundador da Guerra & Paz Editores, S. A., e a responsável do Gabinete de Relações-Públicas da Cinemateca Portuguesa partilharam a sua história.

Marta Mesquita
10 de janeiro de 2016, 10:00

À primeira vista, há muitas diferenças entre Manuel S. Fonseca, de 62 anos, e a mulher, Maria Antónia: ele tem uma aparência discreta e clássica, enquanto ela se destaca pelo visual moderno e arrojado. Tal como aparentam, o fundador e proprietário da editora Guerra & Paz e a responsável do Gabinete de Relações-Públicas da Cinemateca Portuguesa são muito diferentes, tendo personalidades e até posições políticas distintas. Contudo, são também as suas semelhanças e cumplicidades que lhes permitiram construir um casamento feliz e sólido que já dura há 37 anos e do qual nasceu uma filha, Rita, agora com 25 anos.
Numa conversa a dois, ou melhor, a três, porque Fernando Pessoa também teve o seu protagonismo, Maria Antónia e Manuel S. Fonseca revelaram o que continua a uni-los passadas quase quatro décadas, contando ainda o papel determinante que as artes têm na sua história de amor.
– Já é raro encontrar casais que estejam juntos há tantos anos...
Manuel S. Fonseca
– Sim, parece que sim. Começámos a namorar muito novinhos, eu tinha 24 anos e a minha mulher 17. Passados poucos meses de nos conhecermos, fomos viver juntos, e já lá vão 38 anos. Partilhamos muitas coisas, mas também temos diferenças. Penso que duas pessoas muito parecidas podem criar um grande lago de monotonia. Claro que alguma coisa tem de haver em comum e, no nosso caso, o gosto que ambos temos pelos filmes e pelos livros aproximou-nos e reforçou a relação.
Antónia – Não há segredos. A relação faz-se no dia a dia. Até me faz confusão os casais que dizem que fazem coisas para avivar a relação… Acho que isso é uma treta, desculpem a expressão. Tudo se constrói no dia a dia. Somos muito diferentes um do outro, mas temos pontos em comum muito fortes. Temos ideias distintas em relação à política, o Manel é muito mais organizado do que eu, temos feitios diferentes… Damo-nos muito bem. O que se pode dizer quando se gosta de uma pessoa? Não há explicação....
– O vosso gosto pelas artes tem sido, então, uma base na vossa relação…
– A arte é mesmo o terceiro elemento da nossa relação. Tanto eu como o Manel ligamos muito ao aspeto estético inerente à arte. E isso é um pilar muito grande na nossa relação. Por exemplo, lemos um livro ou vemos um filme muito bom e dizemos logo ao outro que tem de ler ou de ver. A nossa relação está alicerçada nisso, mas também nas coisas mais comuns, como as rotinas. Ao contrário do que as pessoas dizem, a rotina é uma coisa boa, porque permite-nos saber onde temos os pés. É bom olharmos para a outra pessoa e sabermos o que está a pensar. E a rotina permite isso, o que é reconfortante. É muito bom conhecermos uma pessoa intimamente.
– O Manuel fez da sua paixão pelos livros a sua profissão ao criar a editora Guerra & Paz. É bom juntar prazer e negócios?
Manuel – Quando saí da SIC, em 2005 [onde trabalhou durante 13 anos, chegando a assumir a direção de programas], decidi criar a Guerra & Paz. A edição traz obrigações e já não tem apenas a dimensão da paixão da escrita. Somos obrigados a encarar aspetos logísticos que já não são do puro domínio da fruição. Como é evidente, essas componentes são fundamentais! Já os grandes pintores da Renascença tinham mecenas, por exemplo. É a dimensão realista, que não mata o prazer e a fruição mas refreia o domínio do prazer.
Antónia – O Manel fundou a editora numa altura de crise e tenho muito orgulho nisso, porque implica muita coragem. Gosto muito do lado combativo do Manel em relação à literatura, à edição e às artes. É o lado dele de que mais gosto. Fazem falta mais pessoas como o meu marido na área cultural.
– Mas, não obstante essas obrigações comerciais inerentes à edição, há obras que publica por puro prazer, como o livro Minha Mulher, a Solidão – Conselhos a Casadas, Malcasadas e Algumas Sol­teiras, que reúne textos de Fernando Pessoa e seus heterónimos.
Manuel – Sim. Este livro é o terceiro de uma série em que decidi trabalhar a figura de Fernando Pessoa de uma forma diferente daquela que normalmente outros editores têm feito. Pessoa tem alguns temas muito marcantes na sua obra, tais como a viagem, as drogas recreativas e, finalmente, as mulheres. Estes três temas são tão fascinantes que decidi explorar cada um deles em livro. Nesta terceira obra, Pessoa dá conselhos a mulheres sobre como podem viver a sua sexualidade ou até como enganar os seus maridos, que é uma coisa que não esperaríamos, de facto, de Fernando Pessoa. Curiosamente, parte das pesquisas e do trabalho que faço para estas obras acontece nas minhas férias de verão. Assim, vou de férias com a minha mulher e com Fernando Pessoa. [Risos.]
Antónia – É verdade, divido as férias com o Pessoa! Fiquei muito surpreendida com o autor que se revela neste livro, porque tinha uma ideia preconcebida de Fernando Pessoa. Quando o Manel me mostrava os textos deste livro, ficava completamente pasmada, porque um homem que não viveu aquilo que escreveu é alguém que tem de ter um mundo incrível dentro da cabeça. Ele não precisava de ter mulheres, de ter homens, para ter um mundo tão completo dentro da cabeça.
Manuel – Pessoa faz parte do imaginário dos portugueses. O grande problema das artes no nosso país é que são tão minoritárias que acabam por não fazer parte do imaginário das pessoas. E isso não acontece com Pessoa, que é visto e conhecido para além da estátua que está num café em Lisboa.

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