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Carlos Avilez: “Dei tudo pelo teatro e não estou arrependido”

O encenador celebra 50 anos de Teatro Experimental de Cascais – que assinala com “Macbeth” – e quase 60 de carreira.

Vanessa Bento
2 de janeiro de 2016, 12:00

Foi a vontade de ser ator que levou Carlos Avilez a escrever uma carta a Amélia Rey Colaço, onde lhe explicava esta paixão. Recebeu uma resposta da atriz no dia seguinte e três dias depois estava em cima de um palco. Contudo, o seu destino não passava pela representação. Amélia Rey Colaço percebeu-o logo e aconselhou-o a ser encenador. Apesar da dor inicial, Carlos Avilez está-lhe hoje grato pela orientação. Está ele e está o teatro em Portugal. Fundador do Teatro Experimental de Cascais, Carlos Avilez celebra 50 anos à frente desta companhia e prepara-se para completar 60 de carreira. Um percurso cheio de honestidade, que reflete a essência de um dos mais relevantes encenadores portugueses. Responsabilidade que não permite que lhe pese. Dono de uma humildade e de uma simpatia desarmantes, confessou-nos o seu eu mais íntimo numa conversa descontraída.
– Continua a honrar o epíteto que lhe deram, logo no início, de enfant terrible?
Carlos Avilez – Ai, continuo, o mais possível. A profissão de encenador e de artista de teatro envolve uma certa rebeldia e fiz sempre aquilo que sentia, a minha verdade, e mantenho essa coerência. Não tenho medo de arriscar e, se não o fizer, não há razão de existir. Sou polémico por natureza, mas não faço nada por isso. Ainda assim, sinto-me bem.
– Segue sempre o seu coração?
– Sim, sigo sempre o que sinto e o teatro implica isso. Comunico com as pessoas através do palco e sou uma pessoa de palco. Se me quiserem conhecer bem, vejam os meus espetáculos. Sou capaz de, na minha vida, não dizer por palavras o que sinto, mas no palco, sim.
– Consegue expor-se totalmente em cima de um palco?
– Totalmente e sem medos. Ao fim de 50 anos de companhia, continuo a arriscar. Como sempre houve muita gente a dizer mal, já estou habituado. Se estivesse habituado a só ouvir dizer bem de mim, ficaria aflito quando dissessem mal. Assim não faz mal.
– E sempre lidou bem com isso?
– Sim. Ao princípio não foi fácil, mas habituei-me e criei as minhas próprias defesas.
– É precisa uma boa dose de segurança, ou não?
– Não, apenas de sinceridade e de saber o que estou a fazer. O teatro é uma forma de verdade enorme e o palco é um espaço muito mágico. Muitas vezes, quando acabam os ensaios e os espetáculos, fico sozinho no palco. E sinto-me tão bem ali!
– O palco é a sua casa, a sua vida?
– É, de facto, a minha casa e a minha vida. Dei tudo por isto e não estou arrependido. Sacrifiquei muitas coisas, a vários níveis, mas não me arrependo. Tive uma grande sorte na profissão, mas raras vezes tive uma vida fácil. Lutei sempre pelos espetáculos que achei que devia fazer e não por aqueles que me era permitido fazer. Se não tivesse feito isso, não haveria Teatro Experimental de Cascais nem razão para comemorar 50 anos. E quando se comemoram 50 anos de TEC, comemoram-se todos aqueles que por aqui passaram e os que estão presentes.
– É muito especial comemorar esta data, não é?
– Muito especial. Nunca pensei que isto acontecesse, sabe? Não dei por estes 50 anos passarem... Aconteceu tanta coisa, fizemos tantos espetáculos, andámos por todo o lado, conhecemos tanta gente... Passaram 50 anos e eu não dei por isso. Não sei se para bem ou para mal, mas não dei por eles. Só penso numa coisa: o que ainda gostaria de fazer.
– E o que é que ainda gostaria de fazer?
– Ai, muita coisa, ainda falta fazer muita coisa. Vamos ver se tenho tempo, espero ter tempo. Pelo menos tenho compromissos para 2020 e sou um homem de palavra. [risos]
– O TEC tornou-se a sua família?
– Sim. O TEC e a Escola de Teatro. Te­nho familiares, mas não tenho familiares próximos... Nesse aspeto estou um bocado sozinho. Mas tenho grandes amigos, grandes colegas e pessoas espantosas que me acompanham. Nunca me sinto sozinho, nem pensar nisso. A solidão é quando estou no palco sozinho. Mas é uma solidão que não o é. Acaba por ser um preenchimento absoluto, sinto-me tão bem, tão calmo, que para mim não é estar sozinho.
– Mas não tem medo da solidão?
– Não... Continuo a trabalhar, no que gosto, e não sinto essa solidão. Tenho angústias, problemas, lutas, isso sim. Mas estou aqui pronto para lutar e tenho feito isso.
– Nunca se arrependeu de ter posto a profissão em primeiro lugar?
– Às vezes arrependo-me. Se calhar não dei a devida atenção a pessoas que já não estão cá porque tinha um espetáculo e isso traz-me problemas de consciência. Arrependo-me de não ter dado assistência a pessoas muito próximas e isso para mim é mágoa. Mas o espetáculo... O teatro é uma coisa que tem que se amar no seu todo. Esta é uma profissão que não aguenta pessoas que se preocupam com outro tipo de coisas fora do teatro, que não trabalham, que não respeitam as dificuldades enormes inerentes a ela... É preciso dar tudo por tudo e acreditar que vale a pena. E eu garanto que vale a pena.
– É uma profissão viciante?
– Completamente. Só me sinto bem no teatro. Com certeza que é um vício gravíssimo, daqueles que não têm cura, é obsessivo!
– Ainda se sente com força para acrescen­tar mais uns anos a este meio século de TEC e quase 60 de carreira?
– Sim, sim. Fisicamente já tenho mais limitações. Passaram muitos anos sobre mim, muitos problemas, muitas coisas, mas mantenho-me igual. A vontade de ser eu próprio nunca mudou. Há de haver um dia em que terei que parar, em que terei que sair...
– Teme esse dia?
– Temo não ter noção de que é altura de sair. Não me quero arrastar, mas não sei o que vai ser de mim sem teatro. Não tenho mais nada. Quando deixar de trabalhar vou ficar uma pessoa muito irritada, por isso, não posso ensinar os mais jovens. Porque eles precisam de alguém que acredita, que não se deixa incomodar com a vida. Sinceramente, não sei o que me vai acontecer quando esse dia chegar, a minha vida é o teatro, mas espero ainda aguentar muito tempo.
– Hoje sente-se grato por ter seguido o conselho da Amélia Rey Colaço?
– Foi o conselho mais extraordinário que me deram na vida. Quando ela me aconselhou que me tornasse encenador, eu chorei, porque queria ser ator, mas depois comecei a perceber que não era aquele o caminho. Sou um homem do teatro e é disto que eu gosto. E devo-lhe isso. Na altura, zanguei-me imenso, mas agora agradeço-lhe. Aliás, ela foi para mim uma pessoa extraordinária, por quem tenho uma admiração enorme.
– Olhando para trás, sente-se feliz com as escolhas que fez, com aquilo que é?
– Sim! Tenho saudades de pessoas que já não estão cá, tenho medo de perder pessoas de quem gosto muito, mas fora isso sou feliz. Estou na minha profissão, sou feliz!

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