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Anselmo Ralph: “Sempre tive todas as probabilidades contra mim”

O cantor, que vai lançar um álbum novo em 2016, confessa que já chegou a pensar que é “demasiado normal para ser estrela”. Anselmo Ralph garante que, quando o sucesso acabar, vai ser exatamente a mesma pessoa que é hoje e que se recusa a olhar de forma sobranceira para os outros.

Vanessa Bento
1 de janeiro de 2016, 14:00

Anselmo Ralph é um caso sério de sucesso em Portugal. Mas nem por isso se tornou uma vedeta. Humilde como poucos e com uma sensibilidade apurada, o cantor angolano agradece todos os dias o que a vida lhe tem oferecido. E nunca dá nada como garantido. Faz questão de colocar a sua verdade em tudo o que faz e é com a mesma verdade que assume que nem sempre as coisas foram fáceis para si. Com apenas cinco anos, foi-lhe diagnosticada miastenia grave, uma doença progressiva e sem cura definitiva, que causa fraqueza e fadiga anormal nos músculos voluntários. Vítima de bullying na escola, cresceu sem autoestima e com uma única vontade: ser tratado como uma pessoa igual às outras. As cicatrizes deste tempo ainda as tem e há muitas que vão demorar a sarar. Contudo, Anselmo Ralph nunca deixou que isso o tornasse amargo. Continua a transbordar amor e alegria por onde passa e é também essa a mensagem que pretende passar com a sua música.
Casado há quase dez anos com Madlice Castro, têm dois filhos, Alicia, de oito anos, e Jadson, de quatro, e garante que é por eles que faz o que faz. Conversámos no Páteo Alfacinha, em Lisboa.
– Sente-se agradecido por tudo o que tem conseguido?
Anselmo Ralph – Super agradecido. Se pudesse mostrar o que há dentro do meu coração em termos de gratidão, as pessoas iriam entender como me sinto quando piso um palco. Havia um promotor em Angola, quando lancei o meu segundo disco, que dizia que eu já estava em decadência. De facto, hoje é muito difícil ter uma carreira de muitos anos. E sempre achei que quando fizesse dez anos estaria já numa curva descendente. Mas isso não aconteceu, tem sido sempre a subir, por isso não tenho como não ficar grato.
– Mas a vida nem sempre foi assim tão doce para si...
– Pois é, houve alturas menos boas. Hoje entendo que esses momentos difíceis me prepararam para o que estou a viver. Se calhar, hoje acabo por ter mais os pés no chão por tudo o que passei, se calhar respeito mais os fãs e sou mais agradecido por saber que sempre tive todas as probabilidades contra mim. Quando começo a ficar ‘inchado’, Deus encarrega-se de me lembrar de onde vim. A verdade é que tudo isto vai acabar. E isso deixa-me tranquilo. Os artistas têm que saber que o sucesso tem um fim. O mais importante é passar do artista da moda, para o artista sólido e de prestígio. É para isso que trabalho.
– Normalmente, os artistas alimentam-se de aplausos. Consigo não é assim? Não o assusta essa ideia de que o sucesso vai acabar?
– Não. Alimento-me dos aplausos no sentido de deixar uma boa recordação. Quero olhar para trás com a perfeita noção de que aproveitei tudo muito bem. Curto cada fã, cada abraço, cada foto... A minha vida teve várias fases. Esta é a do sucesso e a de semear para o futuro. Mas há que chegar à fase de ser mais pai, homem de família, estar mais em casa, cuidar mais da minha família. Também quero curtir esta fase. Por isso, o fim do sucesso não me assusta.
– A família é um pilar fundamental na sua vida?
– Completamente. Muito do que conquistei e muito do que sou deve-se ao facto de ter sido pai, de ter casado cedo e de ter uma grande mulher ao meu lado, que me ajuda a ter os pés no chão e que me mostra que a prioridade não é aparecer bem na foto, mas sim a nossa família. O sucesso para mim nunca foi um objetivo, o que sempre quis foi mostrar a minha música. E a família deu-me este equilíbrio.
– Encontrou, portanto, na sua mulher a companheira ideal para a sua vida?
– Sim. Todos os dias tenho a certeza de que encontrei a pessoa ideal para mim.
– É o pai que achava que ia ser?
– Começo a ser agora, porque aos 26 anos, quando fui pai pela primeira vez, achava que era o pai ideal: mudava fraldas, dava de comer... Mas hoje sinto que sou mais ‘pai galinha’, dou muito mais atenção. Quando estou com eles, estou completamente com eles, sinto que sou melhor pai, que já vou sendo o pai que queria ser.
– Dá-lhe tranquilidade saber que a in­fância deles é muito diferente da sua?
– Sim, muita. Uma das coisas que mais me dão gozo é ver a qualidade de vida que eles têm. Tive um pai e uma mãe que sempre se esforçaram para nunca me faltar nada, mas os meus filhos são uns privilegiados. É por eles que faço o que faço.
– O que é que ainda lhe resta daquele menino que veio para Portugal aos cinco anos?
– Não sei, dizem que ainda sou muito inocente, acredito nas pessoas facilmente.
– Ou seja, nem uma infância difícil, pautada pelo bullying, mudou a sua essência?
– Essa é a parte que não entendo. Podia ter-me tornado mais amargo, mas não aconteceu. Talvez continue assim, a acreditar tanto nas pessoas, precisamente por tudo o que passei. Acabo por ver o sofrimento do outro, consigo pôr-me no seu lugar.
– O que é que mais o marcou nesse tempo?
– Devo dizer que muita coisa mudou na minha vida a partir do momento em que estabeleço uma relação com Deus. Foi sempre isso que me deu a autoestima que nunca tive. A minha relação com Deus é o motor de toda esta motivação. Isto foi uma bênção caída do céu. Não tenho dúvidas de que foi esta minha crença que me fez sobreviver até agora.
– Quando é que descobriu Deus?
– Há coisas que não posso dizer, se não acham que sou louco. [risos] Mas foi muito cedo, por volta dos dez anos. Falava com Deus no meu quarto. Muitas vezes, chegava da escola, depois de ter sido vítima de bullying, e conversava e queixava-me a Ele, era a única pessoa com quem falava. A minha família não é muito religiosa, por isso não sei de onde é que isto veio. Mas deu-me bastante força para a vida.
– Acredito que essa fé tenha sido basilar na forma como lidou, sobretudo em criança, com a sua doença.
– Foi super importante. Não conseguia falar com a minha família, sempre achei que estava isolado, mas sempre quis ser tratado como uma pessoa normal. O meu principal objetivo era que eles não sofressem com tudo isto. Só depois de me casar é que me fui abrindo com a minha mulher e há muitas coisas que ainda guardo, das quais não consigo falar.
– Ainda há muitas cicatrizes por sarar?
– Ainda há, muitas. Mais cedo ou mais tarde vou ter que dizer, é importante as pessoas saberem exatamente de onde vim, para as motivar. Um dos meus sonhos é ter um lar em Angola para crianças com cuidados especiais, precisamente por causa do meu passado.
– E já aceitou a sua doença, já se sente em paz com isso?
– Sim, já aceitei e já consigo sentir-me em paz. A minha doença ajuda-me a não me deslumbrar, a não ser vaidoso em excesso.
– Ultimamente saíram notícias que apontavam para uma possível cegueira, mas a sua doença nada tem a ver com a visão, correto?
– Exatamente! O meu problema não tem nada a ver com visão. Aliás, nem uso óculos graduados. Tenho um problema muscular, mas estou bem. Nunca estive melhor.

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