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Sofia Pinto Coelho conta a história de amor do seu avô Luís

Nos anos 60, o catedrático e diplomata teve a coragem de terminar um casamento de 25 anos para ir atrás de uma paixão.

Cristiana Rodrigues
19 de dezembro de 2015, 10:00

Cerca de 2500 cartas, muitas de amor, centenas de fotos de família e até filmes, um espólio sentimental incalculável. A história é verídica e o argumento irresistível. Resultado? Um documentário para a SIC, que tem estreia prevista para este mês, e um livro que acaba de nascer. A jornalista Sofia Pinto Coelho é a autora e o seu avô paterno, Luís Pinto Coelho – professor catedrático de Direito e, depois, embaixador em Madrid –, o protagonista. Há também a avó Piinha Almeirim, com a qual Luís viveu um casamento sereno e feliz durante 25 anos e com quem teve seis filhos. A outra co-protagonista é Kit, uma top-model norte-americana por quem o avô de Sofia se apaixonou em meados dos anos 60, quando tinha 52 anos. Por esta mulher 19 anos mais nova, o diplomata deixou para trás a mulher, a família, a pátria e Salazar. Partiu em busca da felicidade, contra tudo e todos. Um ato de coragem que não é totalmente desconhecido para Sofia, que virou a sua vida do avesso quando se apaixonou pelo advogado Ricardo Sá Fernandes, com quem partilha a vida há 15 anos e de quem tem um filho, Miguel, de 13 anos [as filhas mais velhas, Rita, de 20, e Joana, de 18, são fruto da sua união com o jornalista José Alberto Carvalho].
Mas não é da sua história de amor que Sofia vai falar e sim da do avô. Porque embora não tenha uma única foto com ele, nem se lembre de alguma vez ter estado a sós com ele, conhece-o agora melhor do que talvez muitos dos que com ele privaram.
O Meu Avô Luís é, sobretudo, um livro sobre um grande amor. E é nisso que nos vamos debruçar. Não era muito comum na época as pessoas romperem com o passado, deixarem o conforto e a estabilidade da família para irem atrás de outra paixão...
Sofia Pinto Coelho –
E é esse o lado com que me identifico mais, porque é um ato de coragem. Pode ser visto como uma mal­feitoria, mas não deve ter sido fácil fazê-lo. E o fascínio por uma espécie de terra desconhecida, um Éden, um espaço de felicidade, acho que todos temos dentro de nós...
– Como é que o seu avô conheceu a Kit?
A Kit tinha-se mudado de Nova Iorque para Madrid, onde viviam a mãe e o padrasto dela, que era adido militar na Embaixada dos EUA e se tornara amigo do meu avô. Num dos cocktails diplomáticos a que iam habitualmente, foi apresentada ao meu avô.
– E depois passaram a encontrar-se às escondidas e foi assim durante algum tempo. Acha que terá sido fácil para o seu avô assumir que estava apaixonado e que teria de escolher entre a Kit e a mulher?
Foi imensamente sofrido. O meu avô ficou “rachado ao meio” entre a paixão que sentia e uma dor imensa por saber que ia causar muito sofrimento à família que ele tanto amava.
– A si, se lhe acontecesse apaixonar-se por outra pessoa, largaria tudo em busca da felicidade?
Bem, já me aconteceu isso...
– E nessa altura custou-lhe deixar tudo e partir?
Eu estava tão apaixonada que nem pensei nisso. Estou muito feliz com a escolha que fiz e ainda hoje o meu marido é o sol da minha vida!
– A história do seu avô é um retrato da vida real. Afinal, não é só nos contos de fadas que se vivem amores avassaladores...
Não diria avassalador, porque no fundo este foi um amor sofrido, com alguma solidão, e a solidão é um sentimento muito penoso.
– Acha que algum dia o seu avô se terá arrependido de ter acabado com 25 anos de casamento para viver aquela paixão?
Acho que essa ilação cabe aos leitores e aos espectadores do filme.
– E a sua avó? Conseguiu voltar a ser feliz?
– Isso não sei...
– Para escrever o livro, marcou um en­contro com a Kit. Já a conhecia?
Sim, já tinha estado com ela em família, quando ela e o meu avô vinham a Lisboa.
– E na altura o que é que achou dela? Era uma mulher muito bonita...
Eu deveria ter uns 18 anos e nessa idade não se olha para os outros, olhamos apenas para nós próprios...
– E agora, como foi o vosso reencontro?
Telefonei-lhe muito a medo, disse-lhe que tinha tido acesso a uma série de coisas sobre a vida do meu avô e expliquei-lhe qual a minha intenção. Ela achou logo uma ótima ideia e a maior prova de confiança foi entregar-me as cartas de amor que o meu avô lhe escrevia.
– Ficou admirada com a reação dela?
Fiquei atarantada, espantada! Mesmo aos meus tios, quando lhes perguntei se imaginavam o pai a escrever cartas de amor, reponderam que não!
– A Kit voltou a apaixonar-se?
Não. Mas é muito cómica, porque tem 84 anos e parece uma adolescente e adora ser convidada para festas, irrita-se imenso por haver tantas viúvas e acha que as mulheres deviam casar-se com homens mais novos [risos].
– E terá sofrido com a morte do seu avô?
No fim, aquilo já era muito desen­contrado...
– Ficou com perguntas sem resposta?
Sim, algumas que gostaria de lhe ter perguntado a ele. Isto foi apenas apanhar uns cacos e tentar compor o puzzle. Gostava que ele me pudesse dizer se gostou da sua biografia...
– À medida que foi lendo as cartas, os diários, foi-se emocionando, certamente, até porque não conhecia bem o seu avô...
Não conhecia nada o meu avô! O que mais me fez aflição foi senti-lo sofrer. Depois, a leitura das cartas foi a parte mais agradável. Perceber que ele escrevia maravilhosamente bem, com um vocabulário muito rico, uma fraseologia que não nos deixa parar. Escrevia com graça e humor, fazia uma descrição de pormenores de forma interessante, e tudo isto me levou a perceber que não era um chato [Risos].
– Depois de, através deste espólio, ter conhecido o seu avô, diz que herdou dele o peso da responsabilidade...
O que é uma herança tramada...
– Em que é que isso se traduz? An­siedade?
Sou brutalmente ansiosa, incapaz de deixar um trabalho a meio, de falhar um compromisso...
– Tira-lhe anos de vida?
É uma cruz, parece que estou sempre em falta! Deito-me e acordo com regras e quando há alguma coisa que foge ao que planeei fico completamente desnorteada.
– Acha que herdou mais alguma coisa dele?
Precisava de ter convivido mais com ele para perceber isso, mas talvez a afabilidade, o gostar dos outros. Não odeio ninguém e acho que ninguém me odeia [risos].
– No livro diz que nenhum dos filhos apontou um defeito ao seu avô. Como neta, agora, consegue reconhecer-lhe algum?
Procurei, procurei, procurei e, embora tenha tentado, não encontrei. Se calhar, também fiquei apaixonada por ele...

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