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Cláudia Piloto: “É uma sorte ter filhas maravilhosas”

A especialista em tratamento de imagem falou sobre o seu projeto e contou como a sua nova vida profissional influenciou a familiar.

Andreia Cardinali
19 de dezembro de 2015, 14:00

Desde que deixou o seu espaço no Estoril, há dois anos, e passou a dedicar todo o seu tempo ao projeto que criou, o Pure Life Concept, que Cláudia Piloto, de 40 anos, se tornou outra mulher. É que a especialista em tratamento de imagem tem a possibilidade de todos os dias mudar a vida de alguém através de um serviço de tratamento e aconselhamento criado para as mulheres que sofrem de falta de cabelo em consequência de um tratamento oncológico ou de uma doença dermatológica. A seu lado em cada passo, Cláudia tem contado com o apoio do marido, Francisco Vaz Guedes, de 47 anos, e das filhas, Carolina, de 16 anos, Francisca, de 15 (do primeiro casamento), Carlota, de seis, e Constança, de quatro, que também se tornaram pessoas diferentes com este projeto.
– Este projeto não é novo, mas tornou-se único...
Cláudia Piloto – Sim, come­cei a trabalhar com doentes oncológicos no meu espaço, no Estoril, e na altura isto aconteceu porque me foi pedido para trabalhar com uma grande amiga. Outras foram surgindo e tor­nou-se uma paixão. Trato do lado criativo da prótese e depois o lado humano é indescritível. É um trabalho altamente terapêutico para as mulheres, mas para mim também. Entretanto, enquanto ainda fazia este trabalho no meu espaço, comecei a fazê-lo também na Cuf Infante Santo, onde fui passando a maior parte do tempo. Então, larguei o meu espaço, achei que deixou de fazer sentido e devia dedicar-me inteiramente ao hospital. Agora vamos abrir uma nova clínica, já que comecei a tratar também pessoas que não são doentes, que têm somente necessidades terapêuticas, como queda do cabelo, e dessa forma escusam de se tratar no hospital, apesar de o espaço ser independente e com uma porta virada para a rua.
– Acredito que esta nova vi­da a tenha feito descobrir uma nova Cláudia...
– Completamente. Antes, eu transformava as pessoas, mas não cuidava delas. Aqui, eu cuido e para mim é fantástico vê-las bonitas e com um aspeto saudável. Sinto que mudei imenso e para melhor. Alterei imensa coisa na minha vida. Às vezes perguntam-me se não trouxe um peso à minha vida, pois estou sempre com pessoas doentes, mas a verdade é que não. Passei a entender que na realidade não temos mesmo noção do que são problemas... Antigamente, para mim era tudo uma chatice, hoje em dia, trabalho sozinha e estou muito mais feliz. A simplicidade e qualidade de trabalho que tenho acrescenta imenso à minha vida. Dou muito mais de mim agora. Tenho aprendido imenso.
– Essa forma de viver não é também um exemplo para as suas filhas?
– Total­men­te. Elas mudaram completamente a forma como viam o meu trabalho, a mais velha, que não ligava nada ao que eu fazia, já diz que quer seguir o meu caminho. Na altura em que eu tinha um SPA gigante com 500m² em cima do mar ela não ligava nenhuma e nem queria saber do meu trabalho para nada. Hoje es­tá fascinada e faz-me imensas perguntas. Elas agora perce­bem que eu trabalho por paixão.
– Isso tornou-as menos fúteis, o que seria natural na idade das mais velhas...
– Sem dúvida. Elas não têm futilidade absolutamente nenhuma.
– Como é que lida com os dias menos bons inerentes a este trabalho?
– Gosto muito de ser feliz e claro que há dias que chego mais cansada a casa, mas nunca com o peso dos outros. Nasci para ser feliz e tenho passado por al­guns momentos de infelicidade para chegar onde quero, mas acho que isso faz parte do caminho, do meu crescimento como ser humano. Agora já consigo relativizar e preocupar-me apenas com o que é importante. Já consigo estar presente no momento em que estou a trabalhar e nos momentos em que estou em casa, em família.
– Isso quer dizer que agora tem mais tempo para a família?
– Muito mais... E trabalho muito mais. A nossa vida mudou muito, conseguimos estar muito mais tempo juntos e com qualidade. A organização faz toda a diferença. A única parte que ainda não consigo gerir muito bem é a social... Mas porque também não consigo estar em todos os meios, nem com todas as pessoas. Custa-me ir para um jantar com 50 pessoas porque sinto que não estou ali a fazer nada...
– E como é ser mãe de meninas em idades tão diferentes?
– Estes quatro anos foram uma loucura. Foi este projeto novo, a Constança, que nasceu sem ser programada... Foi uma bênção. Hoje olho para ela e a vida não fazia sentido de outra forma. De facto, é muito difícil. Elas precisam todas de muita atenção e acho que efetivamente houve uma altura em que não dava nem para um lado, nem para o outro. Agora é que sinto que, de facto, já me consigo organizar para dar para todas. Tenho a sorte de ter filhas maravilhosas. Procuro ser uma mãe espetacular, mas sei que não sou a melhor, até porque isso não é natural, não existe. Tento dar-lhes o melhor e é um trabalho diário, mas não me condeno em nada, porque também sou uma pessoa e também erro. Faz parte. Aliás, elas têm perfeita noção dos meus erros. Nós somos muito cúmplices e eu sou a primeira a dizer-lhes que também falho e que isso é humano. Uma família tem de se aceitar com as suas qualidades e defeitos. Temos é de conversar e elas conversam muito comigo.
– Há um crescimento mútuo?
– Exatamente. Porque aquela ideia de os pais mostrarem aos filhos que não têm defeitos, sa­bendo eles, no seu íntimo, quais são, sem nunca se conversar sobre isso, acaba por ficar recalcado nas crianças. Há coisas que devemos reservar e preservar, mas devemos partilhar as nossas fragilidades. A única coisa que exijo às minhas filhas é que sejam felizes e que encarem a vida com um sorriso. Não as deixo desistir de nada e digo-lhes sempre que não têm de acertar à primeira. Nem as deixo com a sensação de derrota, jamais lhes digo que falharam. Às vezes agradecem pela minha insistência e isso é muito bom. Mas isso não tem a ver comigo, tem a ver com elas. Há pais que acham que os filhos são o reflexo deles e não percebem que os miúdos não estão felizes. Para mim, isso não é educação e é tudo o que eu não quero para elas.

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