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Cristiano Ronaldo: “Quando me retirar vou viver como um rei com a família e os amigos”

O craque não esconde o orgulho em tudo o que conquistou, mas mostra que tem um lado humano.

Matthew Syed/The Times/Atlântico Press
13 de dezembro de 2015, 12:00

Antigo tenista olímpico, Matthew Syed, de 45 anos, tornou-se jornalista e comentador desportivo. Vencedor de vários prémios de jornalismo, trabalhou na BBC e na Eurosport até 1999, ano em que entrou para o The Times. Recentemente, esteve em Madrid para entrevistar Cristiano Ronaldo, a propósito do documentário Ronaldo, o Filme, do realizador Anthony Wonke (que durante 14 meses acompanhou a par e passo o dia-a-dia
do jogador), e que teve uma exibição única na última segunda-feira, dia 9, em salas de cinema de todo o país. A CARAS tem o exclusivo para Portugal da entrevista de Syed, que é, acima de tudo, um relato da impressão com que o jornalista inglês ficou depois de conversar com Ronaldo. Aqui ficam alguns excertos do texto do The Times.
Cheguei a um hotel de Madrid com a expectativa de ir encontrar um homem de 30 anos num avançado estado de narcisismo. Como comentador profissional de futebol, há muito tempo que me familiarizei com a sua pose em campo; a forma como pode ser individualista a jogar; o modo como rasga a camisola depois de marcar um golo, se ajoelha de pernas abertas e peito inchado, parecendo, em minha opinião, um pouco ridículo.
Ronaldo provoca sentimentos fortes. É adorado, particularmente em Madrid, onde joga no mítico Real. E ainda assim, em quase todos os estádios do planeta onde joga, uma vasta parte da assistência pode vaiar cada toque seu na bola com uma intensidade quase visceral (...).
Poucos minutos depois de me encontrar com ele, porém, senti que a realidade é bas­tante diferente. É inteligente e sábio. Pergunto-lhe se nunca se sente incomodado com a sua reputação de ser arrogante e vaidoso. “Não sou a pessoa mais modesta do mundo, admito isso, não sou falso”, responde. “Mas em certos aspetos sou muito humilde. Gosto de aprender. Quero aprender com outros desportos, com os melhores atletas (...) E percebo que posso melhorar nisto e naquilo (...) Uma pessoa assim, é humilde, porque quer aprender.”
(...) Durante a nossa entrevista houve pouco do autoengrandecimento que espe­rávamos, exceto quando o fez em tom de brincadeira, com os olhos a cintilar de humor. “Sou o maior atleta do mundo”, disse a dada altura, com uma piscadela de olho. Claro está que é seguro de si e por vezes pro­vocador. E compreensivelmente orgulhoso da transformação que a sua vida sofreu em termos materiais (...).
É, também, capaz de genuína introspeção, de falar sobre as dificuldades que enfrentou na vida sem autopiedade, mas com a esperança de conseguir, um dia, digerir as imensas ironias de uma viagem desde a pobreza na ilha da Madeira ao seu atual estatuto de uma das mais celebridades mais “vendáveis” do mundo.
Fala daquele que ainda hoje considera o ponto de charneira da sua vida: o dia em que, aos 12 anos, deixou o lar paterno – uma casa com três divisões num bairro de habitação social nos subúrbios pobres do Funchal – para ir viver para Lisboa, depois de ter sido descoberto por olheiros do Sporting. “Foi um dos piores momento da minha vida. Chorava todos os dias. Não me imagino a deixar o meu filho, Cristianinho, ir viver sozinho para outra cidade aos 12 anos”, refere. “Não culpo os meus pais por me terem deixado ir, porque sei que eles estavam a tentar dar-me uma oportunidade. Mas foi duro. Sempre tinha vivido com os meus pais e irmãos e naquele momento fiquei por minha conta.”
Ronaldo revela ainda que em Lisboa era gozado pelos colegas de escola por causa do seu sotaque madeirense. “Um dia, de repente, disse para mim próprio: ‘O que é que estou aqui a fazer? Tenho saudades dos meus irmãos, da minha família... Fui falar com a direção do clube e disse: ‘Não aguento mais isto. Vou desistir. Vou voltar para casa.’ Responderam-me: ‘Mas tu tens 12 anos e um enorme potencial, Cristiano. Podes tornar-te jogador profissional.’ Essas pessoas deram-me força. Os meus colegas de equipa também. E os meus pais convenceram-me a ficar: ‘É só um mau momento. Tens de ser forte.’ Passei essa noite a chorar, mas ao fim de alguns dias comecei a sentir-me melhor. Mas nunca me esquecerei desses tempos difíceis.”
Ironicamente, a vida em casa de Ronaldo era tudo menos idílica. O seu pai, que o via jogar futebol em criança e o incentivou a ser futebolista, era alcoólico. “O meu pai era um bêbado. Eu sabia isso. Não era o pai que eu teria gostado de ter”, confessa. “Eu amava-o, claro, mas nunca tive com o meu pai uma conversa como a que estou a ter aqui consigo.” O seu rosto de rapazinho começa a mostrar um misto de emoções, como se estivesse dividido entre a zanga, o ressentimento e a pena pelas falhas desse homem que obviamente idolatrava, mas que nunca chegou realmente a conhecer.
Dinis Ronaldo, que era jardineiro, morreu vítima de uma doença de fígado em 2005, quando Ronaldo ainda estava no Manchester United. Nesta conversa, Cristiano disse-me, com os olhos húmidos: “Quando o meu pai estava a morrer, num hospital em Londres, eu disse a Alex Ferguson: ‘Mister, quero ir lá’. Era um momento crucial da época. Mas Ferguson disse-me: ‘O futebol não significa nada comparado com o teu pai. Se queres ir, vai.’ Nunca me esquecerei disso.” Uma vez mais, fica silencioso e sorri. E há calor e uma certa inocência nesse sorriso. Este é um lado de Ronaldo que eu não esperava: emocionalmente cândido e à procura de respostas que talvez nunca encontre.
Ainda assim, há nele a força férrea que se pode esperar de um rapaz trabalhador que venceu muitos obstáculos para chegar ao topo de uma feroz meritocracia. Quando lhe pergunto como é que se sente quando é vaiado por pessoas que não gostam dele, diz frontalmente: “Não me importo que as pessoas me odeiem (...) Vejo o lado positivo desse ódio Preciso do inimigo. Faz parte do trabalho. É uma motivação.”
No filme ficamos a conhecer a turbulência do seu crescimento. A luta do seu irmão contra a dependência de drogas. (...) A sua proximidade da família. Quando se mudou para Manchester, a mãe e o irmão foram viver com ele durante um ano. Atualmente, a mãe (que em tempos trabalhou como cozinheira para sustentar a família), janta regularmente em casa dele em Madrid.
As cenas mais interessantes desta biografia são, talvez, as gravadas em sua casa, ao lado do filho, Cristiano, de cinco anos. Vemo-los sentados lado a lado no sofá a ver televisão, à mesa do pequeno-almoço, a falar de coisas da vida de uma forma bastante comovente. Nunca revelou a identidade da mãe da crian­ça e, segundo se disse, terá pago uma soma avultada para ficar com a custódia total do filho. (...) Não quis falar do assunto, nem quando lhe sugeri que isso poderia pôr um fim aos rumores.
Dada a sua fortuna, perguntei-lhe como é que consegue não ‘estragar’ o filho. “É fácil ser ‘estragado’ quando se acorda numa cama fantástica, se come iogurte com fruta e se tem carros velozes na garagem”, concede. “Ontem, pediu-me ‘Posso ter um iPhone 6?’ Eu disse: ‘Não. Para que é que queres um telefone? A quem é que vais telefonar?’ ‘Quero telefonar-te a ti, papá.’ ‘Eu telefono à avó e ela passa-te o telefone’”, respondi-lhe. “Mas não conseguimos controlar tudo no que diz respeito a um filho. Eles têm de ter as suas próprias vidas. Uma das coisas que posso controlar é a sua educação. É o melhor presente que se pode dar a uma criança... Converso com ele. Explico-lhe as coisas. Dou-lhe conselhos. Dou-lhe valores. A partir daí, não posso controlar o que acontecerá. Ninguém pode... Desde muito novo que sonhava ser pai. E o Cristiano mudou muito a minha vida, a minha maneira de pensar. Ele apoia-me, está sempre a sorrir para mim.”
Pergunto-lhe como é a sua vida desde que terminou o namoro com a modelo Irina Shayk, no início deste ano, pois desde então não tem sido visto com uma companhia regular. “Faço uma vida muito disciplinada. Acordo às oito da manhã, pelas nove estou a fazer alongamentos nas máquinas. Treino arduamente. Depois vou ao ginásio fazer abdomi­nais e mais alongamentos. Depois faço uma massagem, almoço e durmo a sesta. E à tarde volto a treinar.”
E nunca faz uma extravagância? “Às vezes como e bebo algumas coisas erradas”, diz com um sorriso. “Bebo um copo de vinho de vez em quando e todos os domingos comemos hambúrgueres em casa e bebemos Coca-Cola. Esse equilíbrio é necessário.”
Há alguma coisa que o deixe nervoso? “Quando tenho que marcar um penalty fico nervoso. O meu coração acelera (...). Com a experiência, vamos melhorando. Faz parte do crescimento. A idade dá-nos sabedoria. Respirar fundo ajuda imenso. Quando estou nervoso, faço isso.”
Questiono-o ainda sobre o que quer fazer quando deixar o futebol. “O futebol é uma parte enorme da minha vida. A minha felicidade. É trabalho, mas não é trabalho, porque adoro! Por isso entrego-me a cem por cento o tempo todo. Mas não quer dizer que não seja feliz com outras coisas. Estar em casa, relaxar, conviver com os amigos, ir a um bar, tirar uns dias de férias, são as coisas que me dão mais prazer a seguir ao futebol (...) Daqui a quatro ou cinco anos retiro-me. E depois vou viver como um rei com a minha família e os meus amigos.”

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