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Simone de Oliveira: "Sempre fui um bocadinho à frente do meu tempo"

A celebrar 58 anos de carreira, a cantora assegura que continua a sentir-se feliz e realizada em cima do palco.

Marta Mesquita
5 de dezembro de 2015, 10:00

Chama-se Simone de Oliveira e, aos 77 anos, continua a “cantar cantigas”. Com quase seis décadas de carreira, a artista assegura que ainda não está preparada para “viver sem salvas de palmas”, não pensando, para já, em abandonar os palcos. Aliás, os dois concertos que deu recentemente no São Luiz Teatro Municipal e a condecoração que recebeu do Presidente Aníbal Cavaco Silva, no passado dia 8, são prova da sua vitalidade artística.
Apesar de a sua longa carreira ser sempre assunto de conversa, neste encontro que marcámos com a cantora quisemos perceber quem é a Simone de todos os dias, a mulher que é mãe de dois filhos, avó de quatro netos, a amiga que não dispensa a companhia dos que lhe são queridos, mas que também precisa, quando o coração assim o dita, de momentos de silêncio e solidão.
– Depois de 58 anos dedicados à música, ainda fica nervosa quando sobe ao palco?
Simone de Oliveira
– [Risos] Quanto mais canto e represento, mais nervos tenho. Ao longo destes anos tenho procurado ser assertiva, correta, igual a mim própria, correspondendo sempre às expectativas do público.
– Ainda sente que tem algo a provar?
– Só quero que o público fique feliz. Quando canto, tento sempre subir mais um degrau. Há uma entrega absoluta ao que faço. Também tenho tido a humildade de agradecer cada aplauso. Há uns anos, comecei a pensar que tenho de aprender a viver sem salvas de palmas. Conheci duas pessoas que sofreram muito com esse processo, o Ary dos Santos e a Amália. Tenho recebido aplausos ao longo destes anos e alguns olhares que valem tanto como as palmas. Tenho um público de todas as idades e penso que isso se deve à minha maneira de ser.
– O que a mantém jovem?
– Gosto de lidar com pessoas novas. Sou muito aberta ao diálogo. Sempre fui um bocadinho à frente do meu tempo e se isso me trouxe muitas coisas boas, também me deu alguns dissabores e criou-me algumas barreiras, que tentei ultrapassar. E ao fazê-lo fui conseguindo dar voz a quem não o podia fazer. Sou de saltar muros, não gosto que me apertem. Gosto de ser livre. Tive a sorte de ter um pai e uma mãe que me aceitaram com os meus enormes defeitos. Muito do que sou devo aos meus pais, que foram abertos a tudo o que fiz, como ter filhos sem ser casada, por exemplo. Ter tido aquelas duas pessoas na minha vida foi dos meus maiores tesouros. Espero que estejam a olhar por nós. Tenho um sentido de eternidade um bocado complicado. Se pudesse ser alguma coisa, seria espírita.
– Em dezembro faz 20 anos que o seu marido, Varela Silva, morreu e também já não tem os seus pais. Passados tantos anos as saudades ainda doem?
– Os que já partiram continuam muito presentes na minha vida! Contudo, digo sempre que o meu tempo é agora. Não vivo no passado. Guardo as minhas memórias, mas não lamento o que já passou. Se assim fosse seria uma pessoa mais triste e eu não sou infeliz nem quero sê-lo. Penso que alguma da resistência que tenho tido em relação às coisas más vem do que amo viver. Amo estar em cima de um palco, diverte-me fazer novelas... O que me faz feliz é gostar de tantas coisas e de tantos colegas. Adoro ver os meus pares a fazerem bem o seu trabalho. Não tenho nenhuma dor de cotovelo.
– Nunca sentiu inveja de ninguém?
– Nunca tive inveja de nada! Um dos meus grandes sonhos era ter uma casa em que pudesse ver o mar. Na minha casa tenho uma janela em que vejo a piscina do condomínio em frente [risos]! Bom, já vejo um bocadinho de água!
– Não é, portanto, uma pessoa que ligue aos bens materiais...
– Gosto de algumas coisas... Adoro carros, por exemplo. Tive vários, sempre comprados em segunda mão. Nunca vivi acima das minhas possibilidades.
– Atualmente, o que a faz feliz? Os pal­cos, as palmas...
– Não só. Isso é uma parte... O que me preenche é estar com os amigos, comer uma sardinha, ver o mar... Gosto de olhar nos olhos das pessoas. Gosto de quem sou e não quero ser outra coisa. Nunca quis ser outra pessoa. Fico grata e orgulhosa com o que as pessoas dizem sobre mim, mas só fico vaidosa por alguns momentos, nada mais do que isso.
– E é fácil não deixar que a vaidade lhe insufle o ego?
– É! Caso contrário nem me aturaria a mim própria [risos]! Era um inferno! Dizem que tenho este ar ‘empiriquitado’, mas não é verdade. Não faço mal a uma mosca. Sou o mais cordata possível e não tenho ideia de ter tido uma briga com um colega.
– Disse que se está a preparar para conseguir viver sem palmas. Como é que alguém com quase seis décadas de carreira imagina a vida sem o público?
– Tento rodear-me das coisas de que gosto, como os discos e os livros. Gosto muito de bordar e de ver espetáculos em DVD. Tento encontrar outras coisas que me realizem. Mas confesso que não me vejo sem nada para fazer. Não me imagino a ficar em casa a carpir mágoas, tal como não sou de beijos e abraços.
– Mas é uma mulher de afetos...
– Sim, sou, mas odeio ‘nhonhós’. Sou mãe e avó, estou lá, abraço, mas não sou de andar a fazer festinhas. Nunca andei de braço dado com o Varela, andava de mão dada. Como não digo “o meu marido”. As pessoas têm um nome e gosto de dizê-lo, lavado e aberto.
– Mas já pensa no final da sua carreira?
– Não penso nisso. Vou continuar a cantar até a vida me deixar. Neste momento, está aprazado fazer um monólogo sobre mim e que me foi proposto pelo Paulo Sousa Costa. Vamos ver... Estamos em conversações. Também vou fazer um pequeno papel num filme e já tenho espetáculos marcados.
– É uma mulher solitária? Gosta de estar consigo própria?
– Vivo só há 20 anos, mas não sou solitária, até porque tenho filhos e netos. De vez em quando tenho momentos de solidão, o que faz parte. Só quero ser eu própria. Naturalmente, gostava de ser melhor, mas, honestamente, não acho que seja má pessoa. Tenho defeitos, digo tudo o que penso. Quando se trata de injustiças, não me controlo e acabo por perder a razão.
– Não perdeu a rebeldia com a idade...
– Não, não perdi a rebeldia e só peço para não me atarem. Um dos meus netos pinta bem e queria dar-me um quadro. É uma paisagem alentejana, imensa, de perder de vista. E o meu neto perguntou à minha filha: “Ó mãe, o que é a avó?” E a minha filha respondeu: “A liberdade.”

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