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Numa entrevista sincera e emotiva, Cláudio Ramos assume a sua homossexualidade

No dia em que foi transmitida a entrevista que deu a Daniel Oliveira no ‘Alta Definição’, da SIC, Cláudio Ramos viu o programa na companhia da filha, Leonor, de 11 anos, que, estando antecipadamente informada sobre o teor da conversa, foi fazendo perguntas, às quais o pai respondeu.

Cristiana Rodrigues
2 de dezembro de 2015, 23:45

A entrevista foi emotiva. Cheia de confissões e de coração aberto, sem filtros. No programa Alta Definição, da SIC, Cláudio Ramos, de 42 anos, não deixou nada por dizer a Daniel Oliveira. Assumiu a sua homossexualidade e recordou o dia em que a filha, Leonor, na altura com nove anos, o confrontou com perguntas sobre a sua orientação sexual: “Pai, eu vi na Internet… Eu sei que tu és homossexual e sei que não me dizes porque achas que eu vou deixar de gostar de ti.” Fez ainda um relato da infância dura que teve, ele e os sete irmãos: “Era muito preocupado com os meus irmãos. Tinha vontade de ganhar dinheiro para que eles não passassem fome. Na igreja, eles fazem uma coisa que é comida para os cães. Com pão duro e gordura de porco. E nós íamos buscar, convencendo as pessoas que era para dar aos nossos cães, mas era para nós comermos.” Pelo meio ainda revelou que com o pai biológico não tem qualquer ligação. A CARAS quis saber como é que foram os dias que se seguiram a esta exposição. E Cláudio Ramos respondeu.
– Depois desta entrevista, de ter partilhado a sua história, o que é que mudou?
Cláudio Ramos –
Na minha vida, nada. Senti um enorme carinho das pessoas que se manifestaram. Continuo o mesmo e igual.
– Sente-se aliviado?
Não! Aliviado não estou, porque eu não me sentia com nenhum peso por nunca ter falado publicamente do assunto. Não senti peso nem nunca senti obrigação de o fazer. Aconteceu! Agora não posso dizer que não me sinta muito grato pela reação das pessoas quando conheceram a minha história.
– Já tinha dado a entrevista em outubro. A sua filha sabia o teor da mesma?
Sabia de tudo. Sabia que eu ia dar a entrevista e no dia em que a dei soube em traços largos do que falei. No dia da emissão, vimos os dois juntos a entrevista e correu tudo lindamente. Fiz questão que a visse ao meu lado. Foi dando as suas opiniões... E tudo tranquilo! Se, porventura, não me sentisse confortável a dar a entrevista por causa da minha filha, não o teria feito.
– A mãe dela, a Susana, sabia também da entrevista?
Sabia. Todas as pessoas eventualmente ligadas à conversa sabiam da entrevista.
– Diz na entrevista que a Susana foi a única pessoa que acreditou em si. Não deve ter sido fácil para ela saber que era homossexual...
A Susana não gosta que se fale dela. Tem a sua vida organizada e feliz. O que posso dizer foi o que disse na conversa com o Daniel: na altura, quando ninguém acreditava em mim, ela sempre me ajudou! Depois, tive outras pessoas fundamentais na minha vida. Mas naquela fase foi ela, sim.
– Que relação tem com ela neste momento? É pacífica?
É ótima! É uma das minhas melhores amigas. Sendo a mãe da minha filha, não poderia ser de outra maneira.
– Porque é que se casou?
Casei-me porque na altura foi o que me apeteceu fazer. Casei-me com vontade que fosse para sempre.
– Já falou com a sua família depois disto? Qual foi o feedback?
Ótimo! A família direta viu no dia e no próprio dia se manifestou. É a minha história, que todos eles conhecem bem. Nada foi ali dito que não soubessem.
– Os seus irmãos admiram-no?
Eu admiro-os mais ainda. Porque eles são uns vencedores. Digo-lhes isto muitas vezes. Eu não sou diferente deles nem me quero transformar, com esta entrevista, num herói!
– A sua mãe sempre o apoiou?
A minha mãe é como todas as mães. Basicamente, quer a felicidade dos filhos. Todos!
– Acha que em Portugal as mentalidades ainda não estão preparadas para lidar com a homossexualidade?
Nunca me debrucei sobre isso, porque a minha condição sexual nunca foi bandeira nem pretexto para nada. Nem para o bom, nem para o mau, e assim espero que continue. Acho que a orientação sexual de uma pessoa não deve ser motivo de conversa nem de análise.
– Confessou também que passou fome e que teve uma infância dura. Em que é que isso se refletiu na tua vida?
Cresci mais depressa. Aprendi a dar valor às coisas. Darei seguramente uma melhor educação à minha filha depois de eu perceber o valor das coisas. Não tenho dúvidas disso! A minha história é mais comum do que se imagina. Eu não sou um herói, há milhões de pessoas a passar o que eu passei.
– Acha que com esta confissão magoou alguém?
Não! Não acho mesmo.
– Acha que o seu pai biológico também estará orgulhoso de si?
Não me preocupo nada com o que ele pensa. E muito menos se se orgulha de mim, que eu não me orgulho nem um pouco dele.
– Se ele o contactasse, virava-lhe as costas?
Não, porque sou muito bem educado. Mas era capaz de lhe dizer que chega com anos de atraso.
– É feliz?
Seria muito injusto dizer que não, com tudo o que tenho e consegui. Agora se me perguntar se quero mais? Claro que sim!

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