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Carlos Quintas abre as portas de sua casa e apresenta o filho

Com 40 anos de carreira, o ator dá pela primeira vez uma entrevista ao lado do filho, o escritor Miguel Quintas Martins.

Andreia Cardinali
22 de novembro de 2015, 12:00

Ator há mais de 40 anos, Carlos Quintas, de 64 anos, sempre preservou o seu lado familiar e nunca tinha dado uma entrevista na companhia do filho, Miguel Quintas Martins, de 39 anos, que sempre viveu com a mãe, Ana Seixas. Agora que este tem o seu percurso profissional definido – acaba de lançar o seu primeiro livro, O Suserano –, o ator considerou que já fazia sentido falar sobre a relação entre ambos.
– Carlos, esta é, de certa forma, a apresentação do seu filho...
Carlos Quintas –
Nunca trouxe o meu filho para a ribalta, nunca ninguém me fotografou com ele. Sempre preservei a minha vida familiar. Os meus amigos e colegas conheciam-no, ele ia comigo ao tea­tro, mas nunca o expus ao público. Esta é a primeira vez que isso acontece e também se deve ao momento profissional importante que ele vive. Achei que estava na altura de darmos a cara em público. Não vejo que lhe esteja a prestar nenhuma ajuda, porque o livro dele já vende há algum tempo. Ele não precisa da minha ajuda como escritor.
– Miguel, como surgiu a paixão pela escrita?
Miguel Q. Martins –
Nunca tive essa ambição, mas um dia decidi tentar e quando cheguei a meio do livro percebi que devia terminá-lo. Vi que realmente tinha descoberto algo que amava fazer. Guardei o livro na gaveta e há um ano e um dia contei ao meu pai o que tinha feito. Pedi-lhe para o ler, ele sugeriu registá-lo e enviá-lo para uma editora, e assim fiz. Felizmente as coisas estão a correr lindamente, está a vender bem e estou muito satisfeito. O meu avô também escrevia, talvez esteja nos genes... [Risos.]
– Esse gosto terá sido passado pelo seu pai, através do contacto com as artes que lhe proporcionou?
Certa­men­te. Ia com o meu pai para o teatro e é normal que sempre tenha tido uma paixão pela arte da escrita, embora a representação nunca me tenha despertado a atenção. A escrita, hoje, já é uma paixão e espero que perdure, até porque já estou a escrever o terceiro livro. O segundo está guardado. [Risos.]
– Carlos, como é que reagiu quando o Miguel lhe disse que tinha escrito um livro?
Carlos –
Fiquei expectante, mas já estou habituado às mudanças na vida do Miguel. [Risos.] Quando li o livro, fiquei perplexo por nunca me ter dado conta, estes anos todos, de que ele seria capaz de escrever assim. Acho que ele teve uma grande coragem e conseguiu aprofundar todo o tema do livro de uma forma muito subtil e simultaneamente muito clara e acessível a qualquer pessoa. Ele pediu-me para escrever o prefácio e senti-me muito honrado, porque fiquei mesmo satisfeito com aquilo que ele tinha feito. Há um orgulho muito grande, e não é só como pai, é como admirador de uma obra que é a dele.
– Tirando as semelhanças físicas visíveis, também são parecidos em termos de personalidade?
Miguel –
Acho que somos demasiado parecidos. As pessoas assim costumam chocar, mas não é o caso. Provavelmente por causa da educação que tive, em que aprendi sempre a ouvir o lado bom e o mau. Claro que há discussões, mas são saudáveis. O meu pai é a pessoa que mais oiço no mundo e a quem recorro sempre.
Carlos – O diálogo sempre foi a base. Quando tinha de o corrigir, fazia-o, mas dialogando, nunca lhe pus um dedo em cima. Mas também não o deixávamos à vontade, tínhamos, sim, o cuidado de lhe explicar porque não podia fazer determinadas coisas. As crianças são muito inteligentes.
– Quando olha para o Miguel, revê-se nele?
Ele tem muito mais iniciativa do que eu. [Risos.]
– A vossa relação é demonstrativa de que, apesar das exigências da vida artística, conseguiu ser um pai presente...
Sim. O teatro não era o que é hoje, cheguei a trabalhar duas vezes por noite e só folgava à segunda-feira, e isso roubava o tempo que eu tinha para estar com ele. Mas conseguimos estar sempre juntos, porque tínhamos tempo organizado para isso.
Miguel – Quando o meu pai tinha teatro, jantávamos sempre juntos. Nunca senti que o meu pai, em alguma fase da minha vida, tenha estado ausente.
– Com tanta cumplicidade, é fácil lembrar quem é o pai e quem é o filho?
Carlos –
Não é necessário. Com o diálogo que sempre tivemos, criámos uma grande amizade.
Miguel – Até uma certa idade foi uma relação de pai e filho, mas depois passou a ser de irmãos.
– O Miguel foi pai muito cedo, aos 18 anos, e tem um filho, Bernardo, de 21 anos, que vive com a mãe. Esta educação e proximidade que tem com o seu pai também está a consegui-la com o seu filho?
Estou, felizmente. Não adianta dizermos ao nosso filho para não fazer isto ou aquilo, temos de lhe dar o exemplo. O meu pai dialogou muito comigo, mas sem os exemplos certos não conseguiríamos ter esta relação. E o mesmo se passa entre mim e o meu filho.

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