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José Fonseca e Costa morre aos 82 anos e deixa filme inacabado

O realizador morreu no Hospital de Santa Maria no dia 1 de novembro, na sequência de uma leucemia. Divorciado, tinha dois filhos, Ana Lúcia e João Pedro, e três netos, José Pedro, Francisco e Júlia.

Ana Paula Homem
14 de novembro de 2015, 18:00

Se entre os anos 30 e 60 o cinema português esteve – como a maior parte da nossa produção cultural – fortemente condicionado pelo Estado Novo, e os filmes que saíam dos estúdios da Tóbis eram verdadeiras obras de propaganda pró-regime, com o politicamente correto a ser garantido pela supervisão apertada do Secretariado Nacional de Informação (SNI), a partir dos anos 60, influenciado pela Nouvelle Vague francesa, um grupo de jovens cineastas assumidamente antirregime começa a fazer outro género de filmes. Já não comédias, épicos ou, mais raramente, tragédias de louvor ao espírito ‘português suave’, mas sim obras de cariz vanguardista e interventivo, muitos deles baseados em romances de autores neorrealistas, onde se exploram temáticas densas, humanistas, filosóficas e estéticas a anos-luz de distância das dos seus antecessores. José Fonseca e Costa será, a par de Fernando Lopes, Paulo Rocha, António da Cunha Telles, Alfredo Tropa ou César Monteiro, um dos nomes mais importantes desse novo movimento que passará a ser conhecido por Cinema Novo Português.
José Maria Carvalheiro da Fonseca e Costa nasceu em Caála, na província angolana do Huambo, a 27 de junho de 1933, e morreu no último domingo, dia 1 de novembro, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, vítima de pneumonia, na sequência de uma leucemia. Apesar de já estar doente há algum tempo, o realizador ainda tentou concretizar um projeto que muito o entusiasmava, Axilas, filme baseado num conto de Ruben Fon­seca. Não chegou a terminá-lo, mas, segundo o produtor Paulo Branco, deixou prontos cerca de três quartos e indicações para a sua finalização.
Fonseca e Costa estudou Direito na Universidade de Lisboa de 1951 a 1955, mas a vontade de fazer cinema impôs-se, levando-o a abandonar o curso. Começou por fazer crítica de filmes nas revistas Imagem e Seara Nova e traduzir alguns livros de teoria cinematográfica e, em 58, candidatou-se a um lugar de assistente de realização na recém-criada RTP. Apesar do primeiro lugar obtido no concurso para essa vaga, foi rejeitado por interferência da PIDE, precisamente pela sua ligação ao grupo da Seara Nova.
A polícia política estaria, também, por detrás da recusa de atribuição de uma bolsa de estudo que pediu ao Fundo do Cinema Nacional, para frequentar um curso no estrangeiro. Decidido a não deixar morrer o seu sonho na praia, em 1961 partiu por sua conta e risco para Itália, onde conseguiu entrar pela ‘porta grande’, ou seja, fazendo um estágio com Michelangelo Antonioni, durante as gravações de O Eclipse.
De volta a Portugal em 1964, ganha a vida a realizar e produzir inúmeros filmes publicitários e documentais, entre eles dois de especial relevo: A Metafísica dos Chocolates, de 65, sobre a fábrica de chocolates Regina, e The Pearl of the Atlantic, de 66, documen­tário sobre a ilha da Madeira para o mercado americano.
Em 1970 dirige, finalmente, a sua primeira longa-metragem de ficção, a partir de um texto seu, O Recado, com Maria Cabral e José Viana nos protagonistas. O filme estreia em 71 no Festival de San Remo e obtém uma menção honrosa. Um impacto que dá origem à organização, em Nice, da primeira Semana do Cinema Novo Português no estrangeiro.
Será, porém, em 1981, com Kilas, o Mau da Fita, onde dirige com mão de mestre Lia Gama e Mário Viegas (Fonseca e Costa soube como poucos apreciar a genialidade avant-garde de Viegas, transformando-o num dos seus atores fétiche), que adquire estatuto de realizador de culto, mas, em simultâneo, capaz de encher salas de cinema como poucos outros.
Sem Sombra de Pecado, de 82, em que junta à dupla anterior a espanhola Victoria Abril, A Balada da Praia dos Cães, de 85, adaptação do romance homónimo de José Cardoso Pires onde se destacam Raul Solnado e Carmen Dolores (que em 88 volta a dirigir em A Mulher do Próximo), Os Cornos de Cronos e Cinco Dias, Cinco Noites, adaptação do romance de Manuel Tiago (pseudónimo de Álvaro Cunhal) que em 1996 recebeu o Globo de Ouro de Melhor Filme, são outros dos títulos que se destacam da filmografia de Fonseca e Costa. Atriz consagrada, Cucha Carvalheiro, sua irmã, 15 anos mais nova, também participou em vários dos seus filmes.

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