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Maria de Belém Roseira: "Só não é criticado quem não existe"

Nesta conversa, a candidata a Belém revela, sobretudo, o seu lado de mulher convicta.

Rita Ferro
25 de outubro de 2015, 16:00

Nota: por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico.
Licenciada em Direito pela Universidade de Coimbra em 1972, advogada e jurista, Maria de Belém Roseira, de 66 anos – casada com José Manuel Pina, de quem tem uma filha, Helena, um enteado e um neto (filho do enteado) –, cedo se apaixonou pelos assuntos sociais. Em mais de três décadas de actividade política, desempenhou cargos relevantes, como os de ministra da Saúde e para a Igualdade e deputada em várias legislaturas. Enquanto presidente da Comissão Parlamentar de Saúde, dinamizou iniciativas relevantes como as leis da Paridade e a da Procriação Medicamente Assistida. Foi, ainda, presidente da Assembleia Mundial de Saúde, convocada anualmente pela Organização Mundial de Saúde, e promotora activa do voluntariado social em órgãos de direcção de múltiplas instituições com carácter não lu­crativo. Ex-presidente do Partido Socialista, desempenha funções como membro do Conselho Geral da Universidade de Coimbra e da Assembleia de Representan­tes de prestigiadas instituições académicas. Foi condecorada, em 2006, com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo, pelo Presidente da República Jorge Sampaio. Recebeu-me na York House, às Janelas Verdes, em Lisboa. A sua naturalidade e força tranquila tornaram a conversa fácil e pertinentes as perguntas que fizemos, não à candidata às próximas Presidenciais, mas à mulher.
– Onde assentam as suas es­peranças para Portugal?
Maria de Belém Roseira – Nas enormes e imbatíveis qualidades dos portugueses. Na força da sua História, na grandeza da sua cultura e na respeitabilidade que conquistaram pelo mundo fora.
– Quem foram as personalidades nacionais que mais a influenciaram na vida política?
– As da minha circunstância, naturalmente, como Maria de Lourdes Pintasilgo, Jorge Sá Borges, Maldonado Gonelha, Manuel Alegre e muitas outras com as quais tive o privilégio de conviver de perto e com as quais muito aprendi. Também estabeleci relações de amizade e de admiração com muitas pessoas que conheci na vida pública e no exercício da acção política mesmo não se identificando comigo ideologicamente.
– E alguém em que se reveja no plano internacional?
– Gandhi, Mandela, Muhammad Yunus, Amartya Sen ou Gro Brundtland são personalidades incontornáveis para mim, demonstraram que não há um caminho para a paz, mas que a paz é o caminho, e que não há desenvolvimento sem paz e sem respeito pelos direitos humanos e pelo ambiente. O Papa Francisco dá-nos lições nesse sentido de cada vez que fala!
– Como concilia a actividade profissional com a vida privada?
– Com muita compreensão da família mais chegada, com ajudas preciosas e com muitas falhas da minha parte!
– Uma inconfidência: é difícil para o seu marido repartir a mulher com tanta solicitação?
– Acho que não. É um homem moderno, que respeita em absoluto as minhas opções de vida e faz tudo para me facilitar o caminho. Está presente, mesmo quando ausente.
– Tem tempo para uma vida social?
– Não muito, tem que ficar sempre para segundo ou terceiro plano. A agenda pública tem sido tão intensa que não há muito tempo para o que dá prazer.
– Tem muitos inimigos ou nem sequer dá por isso? Sei que a pergunta é capciosa... [risos]
– Tenho inimigos, com toda a certeza. Muitos não serão, mas os que tenho são meus inimigos a sério.
– Como reage às críticas?
– Tento ver se se justificam e se consigo aprender com elas. Muitas são positivas e ajudam-me imenso. Outras, nem tanto. Mas para quem está exposto como eu, ser criticada é muito normal. Só não é criticado quem não existe.
– E aos elogios?
– Agrade­ço-os. Alguns são exagerados, outros, porventura, são feitos em termos relativos. Somos sempre comparados com outros e, então, os elogios não são absolutos.
– O PS é menos radical do que foi no passado. Reconhece? Está a aproximar-se da direita ou é ela que se vai diluindo?
– O Partido Socialista português foi sempre defensor e construtor do Socialismo democrático com grandes afinidades com a social democracia nórdica. Por isso desempenhou um papel tão importante na conquista das liberdades e na defesa das liberdades conquistadas. Não consentiu na transformação do regime de uma ditadura de direita numa ditadura de esquerda. O país deve-lhe essa luta e ela não foi fácil. Contudo, há várias formas de entender e de conceber o socialismo democrático e, nesse sentido, o Partido Socialista sempre foi plural, sempre entendeu as diferenças de pontos de vista como uma riqueza e tem mesmo consagrada a possibilidade de correntes de opinião interna compatíveis com os objectivos do partido.
– Ainda faz sentido o binómio esquerda/direita?
– Faz todo o sentido, sobretudo na concepção do papel do Estado e na responsabilidade pública pelo chamado “Estado Social”.
– Pela forma como se apresentou nesta entrevista é correcto afirmar que não despreza as tendências da moda?
– Não as desprezo, mas também não me deixo manipular por elas. À medida que vamos avançando na idade, percebemos melhor o que nos fica bem e o que não nos favorece. E capitular perante ditames externos, sobre coisas que não são essenciais, não me parece que seja um exercício de inteligência. Penso que conta cada vez mais o sentirmo-nos bem connosco ou não, e isso é que deve ditar as nossas opções, não acha?
– Concordo em absoluto. Outro tema: entre tantas defini­ções de amor, existe alguma que se aproxime da sua?
– Há muitas definições de amor e algumas muito inspiradas, na verdade. Mas, para mim, amor é generosidade e doação, é um querer estar com, e é uma transcendência relativamente aos sentidos, sem esquecer que estes também têm o seu lugar. É, simultaneamente, uma libertação e uma dependência. Mas é fantástico! Não há nada melhor!
– O que escasseia hoje nas famílias que na sua não faltou?
– Carinho, amor, educação, respeito, equilíbrio e segurança.
– O que é para si a vida?
– É algo de inexplicável e incompreensível, de precioso e de muito vulnerável. É muito mais que mera biologia. Temos que cuidar de nós para podermos cuidar dos outros, porque as circuns­tâncias combinam-se de forma imprevisível. E há muitas vidas, e há, ainda, muitas mais vivências e porque é que elas são como são, é tudo imponderável!
– Quem é a Maria de Belém?
– Eu tenho uma visão de mim própria, mas, por certo, serei muito mais a pessoa que os outros vêem em mim. E, sobre isso, não posso pronunciar-me, evidentemente. Aos outros o seu juízo.

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