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Fernanda Serrano: “Morrer sem poder ver crescer os meus filhos foi o meu maior medo”

Acompanhámos a sua carreira como modelo e depois como atriz. Testemunhámos o seu casamento, partilhámos o nascimento dos seus quatro filhos e estivemos a seu lado quando revelou que tinha um cancro. 20 anos passados em revista.

Cristiana Rodrigues
18 de outubro de 2015, 16:00

São 20 anos de revista CARAS e os mesmos a acompanharmos os passos daquela que é uma das atrizes mais relevantes da sua geração: Fernanda Serrano, 41 anos. Uma mulher que foi criada numa família humilde, carregada de afetos e valores, que aos 14 anos, para alcançar a sua independência, se deixou seduzir pelo mundo da moda. Só anos mais tarde descobriu a grande paixão da sua vida: representar. Já lá vão duas décadas. Pelo meio, casou-se com o empresário Pedro Miguel Ramos, que lhe deu, como costuma dizer, “os quatro grandes amores da sua vida”: Santiago, de dez anos, Laura, de sete, Maria Luísa, de seis, e Caetana, de dois meses, que trouxe à sua vida “um novo e ainda maior sorriso.” E foi com esse sorriso, natural e espontâneo, que Fernanda Serrano se deixou fotografar na Comporta, onde, em jeito de balanço, recordou os momentos mais marcantes destes últimos 20 anos.
– Já foi capa da CARAS 38 vezes. Qual foi a que mais gostou?
Fernanda S
errano – Decididamente, as que mais gostei foram as que assinalaram o nascimento dos meus filhos. Momentos ultra felizes e marcantes na minha vida.
– Fez uma capa com o Santiago em bebé. Porque não quis repetir com as suas filhas?
Sobretudo, por uma questão de segurança. Confesso que no nascimento do primeiro filho estava tão anestesiada de felicidade que nem pensei em salvaguardar a identidade do bebé. Hoje, dez anos depois e a seguir a algumas situações delicadas da minha vida, aprendi a resguardar-me mais.
– O que é que mais tem mudado na sua vida ao longo destes 20 anos?
Muita coisa, boa e má. Deixei de pensar tanto em mim e no meu bem-estar, porque passei a ter outro foco, os meus filhos. Passei a ser menos tolerante com aqueles a quem não reconheço qualidades. Fiquei muito mais calma e valorizo cada vez mais a minha profissão e os que nela trabalham de forma séria e honesta.
– Nestes anos também se deparou com momentos menos felizes, como quando soube que tinha cancro. Tornou-se outra pessoa?
Por causa dessa fase delicada, passei a não desperdiçar o meu tempo com pessoas e situações que não merecem a minha atenção e dedico-me só ao que gosto, às pessoas que partilham comigo coisas boas e com quem tenho sempre algo a aprender. De resto, sou precisamente a mesma pessoa: mais cautelosa e ponderada, mas igualmente bem disposta.
– Há um antes e um depois do cancro?
Não diria tanto, mas que algo mudou, sim, e para melhor. Antes achava que tinha todo o tempo do mundo, depois percebi que não se deve perder um minuto que seja. A vida é demasiado valiosa para a desperdiçarmos.
– Mudaria alguma coisa no seu percurso?
Acho que não mudaria uma linha que fosse. Ter vivido como vivi, ter tomado as decisões que tomei, ter-me cruzado com as pessoas com quem me cruzei... Foi tudo isso que me fez chegar aqui, com a certeza de que está tudo certo e não me arrependo de nada. Não tenho ‘ses’ na minha vida. Fiz tudo tal como quis, como me apeteceu. Sem dúvidas.
– Como é que há 20 anos se via aos 40?
Aos 20, estava precisamente a iniciar o meu percurso como atriz, em Espanha, onde vivi pela primeira vez sozinha, durante um ano. Onde descobri que era isto que queria fazer o resto da minha vida. Depois, achava que iria ser mãe solteira, pois nunca esteve nos meus planos de miúda casar-me, apenas ser mãe... Como na minha família sempre fomos muitas mulheres, fortes e determinadas, nunca achei que precisaria de ter uma família tradicional para ser feliz. Sempre achei que gerir uma relação a dois me daria muito mais trabalho do que educar e criar filhos. Mas a verdade é que a vida se encarregou de me mostrar que o que por vezes achamos ser o melhor, efetivamente não é. Também devemos ter a sabedoria de nos deixarmos conduzir pela vida. Resolve-nos muita coisa e, sobretudo, ensina-nos!
– Há 11 anos testemunhámos o dia do seu casamento. Faz um balanço positivo?
Sim, caso contrário já não estaríamos a celebrar aniversários de casamento. Os casamentos não são processos sempre fáceis, temos de ter capacidade de reinvenção, de ajustamento, de tolerância. No entanto, também nos ensina a conhecermo-nos melhor, a sermos melhores pessoas, a não sermos egoístas. É quase uma terapia conjun­ta infindável. Tem tido saldo positivo, mas aos 97 anos poderemos falar de forma mais assertiva sobre este assunto...
– Acha que o vosso amor tem sido mais forte do que alguma vez imaginou?
Acho que temos de ser dois a querer o mesmo, a trabalhar para o mesmo lado, ter os mesmos objetivos e obviamente tem de existir muito amor. Os filhos fortalecem mui­to este laço, indiscutivelmente. Fazem-nos pensar de forma mais responsável.
– Criou recentemente o site Por Trás do Pano, onde partilha alguns instantes da sua vida mais privada e publicou fotos que envolvem alguma intimidade. Sentiu necessidade de o fazer?
Registei fotograficamente momentos tão únicos e irrepetíveis que quis partilhar um momento muito bonito e feliz. O que mostro é apenas e só a minha felicidade extrema e imagens de um bebé acabado de nascer num primeiro grito de vida, iguais a tantos outros bebés. Quero passar uma mensagem simples e boa: mesmo depois de uma fase muito cinzenta na nossa vida, ainda acontecem muitos finais felizes. Quem não entende, ou não é mãe ou não é mulher.
– Diz no site que é católica desde os 35 anos. Porquê nesta altura?
Porque a vida me mostrou este caminho. Ajudou-me muito ter um apoio desta natureza em determinada altura e senti que fazia todo o sentido dar-lhe continuidade. Não gosto de ter um discurso lamechas, por isso, normalmente nem falo muito disto. Tenho as minhas crenças, muita fé. E agradeço sempre muito mais do que peço. Só tenho razões para o fazer.
– Qual foi o maior medo que teve na vida?
Morrer sem ver crescer os meus filhos.
– E a maior alegria?
Estar a vê-los crescer. E, claro, voltar a ser mãe mais duas vezes, o que há sete anos pensava ser totalmente improvável. Estar ao lado dos meus amores, ter saúde e trabalhar na profissão que escolhi.
– O que é que a Caetana trouxe à sua vida?
Um novo e ainda maior sorriso. Nunca pensei ser mãe aos 40 e eis-me aqui. Tenho desfrutado tanto desta bebé! Não fazia ideia das saudades que tinha de ter um bebé.
– Onde se imagina daqui a 20 anos?
A viver no mesmo sítio, cheia de netos e ainda mais barulho pela casa fora. Com uma carreira – aí sim, já se poderá chamar carreira – de 40 anos de trabalhos bons, desafiantes, que me deixem vontade de fazer mais e melhor. E feliz, sobretudo isso, muito feliz.

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