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Maria Elisa Domingues assegura: “Sou uma mulher bem resolvida”

A escritora conta como superou desilusões amorosas e contratempos profissionais, como encara as suas conquistas e como quer envelhecer.

Marta Mesquita
8 de agosto de 2015, 10:00

Quem analise o currículo de Maria Elisa Domingues, repleto de sucessos profissionais, ou veja as suas fotografias que foram publicadas nas revistas ao longo dos anos, nas quais aparecia sempre segura e elegante, poderá pensar que teve uma vida fácil. Apesar de o seu percurso profissional lhe ter trazido “muitos privilégios”, como admite, a verdade é que a jornalista e escritora enfrentou sempre grandes batalhas, muitas delas penosas, tanto no campo profissional como sentimental. Contudo, Maria Elisa nunca deixou que as dificuldades que atravessou na sua carreira lhe roubassem a ética, nem permitiu que os desgostos amorosos acabassem com a sua crença no amor.
Casada há três anos com o advo­gado norte-americano Sanford Hartman e sem mágoas em relação às suas escolhas, profissionais e amorosas, aos 65 anos Maria Elisa revela ser uma mulher “bem resolvida”, cuja prioridade é desfrutar em pleno desta nova fase da sua vida. Tendo como mote o seu mais recente livro, Confissões de uma Mulher Madura, a entrevista começa. Igual a si própria, a jornalista não defrauda as expectativas: continua a ser a mulher confiante que se via na televisão, sem medo de dizer aquilo que pensa.
– O subtítulo do seu livro é: Como Enfrentar a Idade sem Medo. O avançar dos anos não a assusta?
Maria Elisa – Enfrentar a idade sem medo é uma atitude que tem de ser bastante racionalizada e é uma luta constante. Não luto contra as rugas, mas sim contra uma certa angústia que a proximidade da morte nos traz. Faço um esforço para não pensar nisso com muita frequência, até porque não sou a pessoa mais otimista do mundo.
– Mas essa falta de otimismo pode conduzir, por vezes, a uma atitude de vitimização...
– Não me permito vitimizar-me, mas é uma disciplina.
– A verdade é que contrariar esse pessimismo pode ser difícil, uma vez que já passou por expe­riências duras, como a morte da sua mãe, a saída da RTP, a passagem pela Assembleia da República como deputada...
– Não tenho tido uma vida fácil. Tive uma vida com muitos privilégios, isso sim. E parece que tive de pagar por isso. O sucesso gera muitas invejas e isso traz muita dor. Na minha passagem pela Assembleia da República fui perseguida de uma forma notória e sem qualquer apoio do partido que me elegeu. Fui para lá com a ilusão de que podia ser útil ao meu país... Mas continuo a achar que o balanço da minha vida em termos profissionais é super positivo.
– Para alguém que trabalhou tantos anos em televisão e que foi pioneira em várias áreas [recorde-se que foi a primeira mulher a ocupar o cargo de diretora de programas], como encarou o ficar sem trabalho?
– Fui afastada da RTP aos 62 anos, antes de me poder reformar. É muito difícil uma pessoa deixar de ter horas para sair e para entrar em casa, para trabalhar, para descansar... De repente vemo-nos com tempo a mais e isso pode gerar muitos problemas psicológicos. Conheço várias pessoas que passaram por isso. Estou numa situação de pré-reforma, mas não me deixei afetar. Tenho sempre muitos planos e projetos na cabeça. Tenho ideias para programas de televisão, livros, programas de rádio... E isso ocupa-me imenso. Depois, tomei a decisão de fazer um doutoramento e isso também me estrutura, porque passei a ter outras obrigações. Arranjei novas rotinas. Temos de preencher o vazio que a falta de trabalho nos provoca.
– E quando se viveu de forma tão intensa experiências que deixa­ram mágoas, é fácil chegar a esta fase da vida sem arrependimentos? É uma mulher bem resolvida?
– Acho que sou uma mulher bem resolvida, mas isso não quer dizer que não tenha arrependimentos. Não tenho muitos, tenho alguns, mas sei que há coisas em que procedi mal e tenciono um dia pedir desculpa às pessoas a quem ainda não o fiz. Com 30 anos chefiava 600 pessoas. Quem é que não erra nestas circunstâncias? É quase impossível! Um dia, estava a fazer esta reflexão com uma amiga minha muito católica que me disse: “Mas quem é que pensa que é? Deus? Só Deus é que não se engana!” E ela tinha toda a razão.
– No seu caso, muitas expe­riências importantes aconteceram já numa idade madura: saiu da RTP, casou-se, perdeu a sua mãe e passou a dividir-se entre Portugal e São Francisco, nos EUA, onde vive o seu marido. Como é que conseguiu gerir tudo isto de forma harmoniosa?
– A saída da RTP, o meu casamento e a morte da minha mãe aconteceram em menos de dois meses. Uma é de natureza muito triste, outra muito feliz e a saída da RTP foi um contratempo. Demorei muito tempo a fazer o luto da minha mãe, se é que já está completamente feito. O desgosto de tê-la perdido era tão grande que não tive tempo de pensar muito na minha saída da RTP. E o facto de me ter casado, de ter um excelente companheiro e de me dividir entre dois continentes ajudou-me a rejuvenescer e a ter uma perspetiva de vida diferente.
– Talvez a felicidade conjugal atual venha compensar alguns dos desgostos amorosos pelos quais passou. Escreveu no seu livro: “Algumas das histórias de amor que vivi correram bastante mal. Magoei-me, sofri, ter-me-ia até prejudicado, do ponto de vista profissional.” O que procurava ou o que a atraía nestas relações?
– Não procurei estas relações, aconteceram. Por vezes somos atraídos por pessoas que, mesmo amando-nos, não nos fazem bem. E o facto de ser conhecida, de ter uma notoriedade própria, dificultou muito essas relações. Há pessoas com uma grande afirmação pessoal e que não aguentam uma afirmação semelhante da parte de uma mulher. E isso foi um dos meus maiores problemas. Aconteceu-me várias vezes. E também há pessoas que não foram tão bem sucedidas do ponto de vista profissional e que não aguentam uma pessoa com sucesso ao seu lado. Às vezes pensei que ganhava essas batalhas, mas nunca consegui mudar a cabeça de ninguém.
– Depois desses romances pouco felizes, foi preciso coragem para arriscar e viver uma história de amor à distância e que envolve culturas diferentes...
– Tenho um casamento pacífico e tranquilo. O meu marido é uma pessoa muito fácil. É quase impossível discutir com ele, está sempre aberto e disponível para todas as opções da nossa vida. Vimos de mundos muito diferentes e aprendemos imenso um com o outro.
– Disse que tem sempre projetos. Ainda há muitas coisas que queira fazer? Gostava de voltar à televisão?
– Fui sempre uma pessoa aberta. Não estou à espera de voltar à televisão, continuarei o meu percurso de vida normal, mas quem sabe se isso não poderá acontecer? Se a oportunidade surgir, ponderarei. Também já tenho mais dois livros pensados. E ainda tenho o meu doutoramento em Sociologia da Comunicação. Já fiz muita coisa, afirmei-me como jornalista e agora o que vier não quero que seja penoso. Sacrifiquei muito a minha vida pessoal e hoje já não estou disposta a isso. O que quero é ter serenidade e concluir coisas que ficaram por fazer porque estava muito absorvida pela profissão. A certa altura temos de arrumar a nossa vida.­

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