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Joaquim de Almeida ‘abre’ o coração: “Às vezes canso-me de tudo e pergunto-me se deveria continuar”

Joaquim de Almeida dispensa apresentações. É o ator português mais conhecido fora do país. Apaixonado pelo seu trabalho, garante que a exposição que a representação traz o faz, por vezes, questionar o seu caminho.

Andreia Cardinali
1 de agosto de 2015, 12:00

Aos 20 anos, Joaquim de Almeida mudou-se para os Estados Unidos com o objetivo de tentar uma carreira internacional. Hoje, 38 anos depois, é o ator português mais conhecido fora do país, tendo já trabalhado com diversas estrelas de Hollywood. Recentemente fez, por exemplo, um filme com Sandra Bullock, que será apresentado no outono. Para já, tem estado em Portugal a matar saudades dos amigos e em especial dos filhos, Lourenço, de 22 anos, e Ana, de 13, pois em junho passará uma temporada no México, a gravar a série Queen of The South. Há também a possibilidade de ter de se mudar para Vancouver, caso o episódio piloto da série Mix, da Warner, que protagonizará, seja aceite. Por cá, fará parte do primeiro episódio da próxima novela da TVI, Santa Bárbara. “Não poderia aceitar mais do que uns dias de gravação, já que tenho outros compromissos”, explicou.
– Ser o ator português mais conhecido lá fora traz-lhe alguma responsabilidade para com o nosso país?
Não. Sinto responsabilidade para comigo mesmo e para com o meu futuro. Já tenho 58 anos e agora já me oferecem papéis mais importantes. Mas claro que é muito bom saber que as pessoas cá ficam contentes pelo meu trajeto. A verdade é que sou muito abordado na rua, em especial pelos turistas.
– E como lida com o assédio dos fãs?
Sou sempre simpático, até porque no dia em que deixarmos de ser abordados, é sinal de que não estamos a trabalhar. Por outro lado, alguns são um pouco inconvenientes, mas respeito-os sempre. Digo sempre aos jovens atores que devem agradecer quando são abordados, pois é sinal de que são reconhecidos.
– O seu núcleo duro de amigos não tem atores. Porquê?
Não sei, não gosto de estar a falar da minha profissão o tempo inteiro. E quando estou a fazê-lo, falo com quem estou a trabalhar. Os atores estão sempre a falar do que fazem. E a mim não me apetece falar do que faço, torna-se monótono, sobretudo quando estamos a fazer uma série de televisão em que passamos 12 horas a gravar. Mas tenho muitos amigos do mundo do cinema... em geral dou-me melhor com realizadores do que com atores.
– Essa é também uma forma de man­ter o equilíbrio?
Não sei... Eu seria incapaz, por exemplo, de me casar com uma atriz: eu iria para um lado e ela para o outro, haveria competição entre os dois... Aliás, nota-se porque são raros os casais de atores que se mantêm juntos muitos anos.
– O que é que ainda lhe apetece fazer, agora que tem mais de 30 anos de carreira?
Gosto de ser surpreendido, que me mostrem coisas novas. Nunca tive nada que desejasse muito fazer. Tenho feito filmes em diversas línguas e às vezes penso em personagens que pudessem ser diferentes... Como um espião da Segunda Guerra Mundial. Gosto muito de história. Gostava de algo que desse para usar as diferentes línguas... Mas gosto que me ofereçam um guião e a personagem me conquiste.
– Um ator nunca pensa em reforma, mas gostaria de acabar a sua carreira cá ou lá fora?
A carreira não faço ideia onde terminarei, mas a partir de uma certa idade acho que farei aqui o meu poiso. De qualquer maneira, penso sempre em manter o meu apartamento na praia em Los Angeles... Não me vejo a passar o inverno aqui em Sintra. Se calhar passarei seis meses lá e cinco cá. De certa maneira já faço isso, mas com mais tempo lá e menos cá. Logo se vê. E a reforma de ator nos EUA é aos 65.
– Mas vê-se reformado?
Reformado não, mas a receber aquilo que eu descontei, sim [risos]. É que lá tenho direito a duas reformas, a do Sindicato de Atores, que é a boa, e a do Estado, que nem dá para viver.
– Como consegue manter os pés assentes na terra?
Eu não gosto de coisas públicas, não sou de festas. Nem nos Estados Unidos vou a lado algum. Mesmo a festivais de cinema só vou se tenho lá algum filme. Às vezes canso-me de tudo isto e pergunto-me se deveria continuar. Não me canso da profissão, nem dos papéis que represento, mas de tudo o que ser ator acarreta. De tudo o que se passa à volta... Não tem nada a ver comigo. A indústria do cinema pode ser sufocante.
– E o que falou mais alto nas alturas em que pensou desistir? Foi o dinheiro?
Ia fazer o quê?! De repente oferecem-nos um papel fantástico e ficamos novamente inebriados. No ano passado fiz imensos projetos bons, este ano também começou bem e isso dá-me vontade de continuar. Cheguei a ter quatro ou cinco filmes por ano. Quando estamos sem fazer nada ficamos com um vazio, mas se as coisas fluem, dá mais vontade. – Mudando de assunto: o seu filho Lourenço está em Glasgow a estudar Economia e Teatro. Quer seguir o seu caminho?
Pois, parece que sim. Em setembro vai para Nova Iorque. Vamos ver...
– Isso preocupa-o, deixa-o orgulhoso?
Não sei se me traz orgulho, para já preocupa-me [risos]. Ele fez uma peça de teatro na escola que foi escolhida para ir ao Festival de Edimburgo, por isso, é um bom começo.
– Mas pede-lhe conselhos?
Não. Somos muito amigos e falamos todos os dias, mas nunca o vi fazer nada. Estou à espera. Já tentei explicar-lhe quais as dificuldades desta carreira e não deu certo, ele não ficou muito contente. Ficou até muito triste por achar que não o estava a apoiar, por isso agora dou-lhe todo o meu apoio, mas vamos ver... Disse-lhe que o apoiava mais dois anos, até porque na altura terá 24 anos e terá de começar a trabalhar.
– A Ana também já tem queda para a arte?
Não, a Ana anda é chateada por eu não passar cá mais tempo. Vai fazer 13 anos, entrar numa idade mais complicada e sente a minha falta. Mas não fala na representação, nem quer saber. Só pergunta porque não trabalho mais cá.
– Custa-lhe quando ela se queixa da sua ausência?
Os meus filhos tiveram de perceber desde pequenos que a minha vida é assim. Tenho de trabalhar e trabalhar lá fora. A televisão exige muito de nós. Só aceitei este projeto da série Mix, caso ande para a frente, porque a minha filha está mais crescida. São 22 episódios e terei de estar uma boa temporada em Vancouver. Logo se vê...
– Como é que acompanha a adolescência da Ana?
Está a começar e já estou a ver que não vai ser fácil... Nunca penso muito nas coisas antes de acontecerem. Claro que a mãe dela está mais preocupada, mas todos passámos pela adolescência e estamos aqui [risos].
– Ainda lhe custa quando tem de se despedir dos seus filhos?
Sempre. Agora custa menos porque vejo-os através do Facetime, do Skype, essas coisas. Falo três vezes por dia com o meu filho.
– Isso também o torna um pai mais presente?

Completamente. O problema é lidar com as saudades que se tem do cheiro deles. Eu vejo-os, mas não os cheiro, não lhes toco e isso custa mais. É sempre uma chatice quando vou. Mas a verdade é que também gosto de andar entre cá e lá.
– O Joaquim é assumidamente um homem apaixonado. Tem namorada?
Estou em prospeção de mercado [risos]. Já tenho 58 anos, não posso andar aí assim... Tenho de ter juízo. Agora também se torna mais difícil, gosto muito de estar sozinho. Não saio à noite. Levanto-me muito cedo e sou uma pessoa de hábitos. Isso também não ajuda...

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