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Ex-deputada Marta Rebelo luta contra depressão crónica

A consultora de comunicação e ex-deputada é uma mulher depressiva e assume que, em 2009, tentou suicidar-se. Agora quer dar a cara por esta doença para ajudar a acabar com a vergonha e o preconceito. 

Marta Mesquita
30 de maio de 2015, 16:00

Marta Rebelo, de 37 anos, sabe há 11 que tem uma depressão. A sua vida parecia perfeita: recém-casada, tinha uma carreira académica de sucesso na área do Direito e tinha sido eleita deputada, mas sentia-se profundamente triste e não sabia porquê. Os ataques de pânico levaram-na a um psiquiatra e foi aí que recebeu o diagnóstico: depressão. Desde então toma antidepressivos e hoje, passados mais de dez anos, a ex-deputada e atual consultora de comunicação aprendeu a conviver com esta doença que lhe ia roubando a vida, já que em 2009 tentou suicidar-se.
“Dando o peito às balas”, como definiu esta sua atitude de assumir que é uma mulher depressiva, Marta conversou com a CARAS dias antes de apresentar o seu magazine blogue, Fabulista, onde, entre outros temas, falará de depressão. Foi esta a sua forma de cumprir aquele que considera ser o seu dever: “Mudar uns centímetros de mundo.”
– Como é que a depressão entrou na sua vida?
Marta Rebelo – É provável que sofra de depressão desde sempre. Aliás, uma ampla maioria das depressões é crónica, porque acabamos por ter crises depressivas com alguma periodicidade. Percebi que se passava alguma coisa comigo quando comecei a ter ataques de ansiedade com alguma frequência, o que se tornou assustador. Aliás, cheguei a ter um ataque de pânico na Assembleia momentos antes de falar no plenário. E foi aí, aos 26 anos, que consultei um psiquiatra. Não havia nenhuma razão profunda ou superficial para me sentir mal com a vida. E é isso que torna esta doença tão ruim! Tudo pode ser resumido ao facto de o nosso cérebro não produzir as drogas suficientes para distribuir pelo nosso corpo, a serotonina é uma delas.
– E aceitou bem o rótulo de “pessoa depressiva”?
– Em todo este processo só quis uma coisa: ficar melhor. Nisto tudo há muitas sombras… Nem sempre estamos disfuncionais. Eu conseguia trabalhar em muitas destas fases… Mas era difícil, custava horrores sair da cama.
– E nesses perío­dos mais depressivos consegue “funcionar”?
– Já não consigo responder a isso, porque já não passo por um período tão negro há muito tempo. Uma pessoa aprende a gerir as emoções. E hoje é muito difícil deixar-me enredar numa crise tão grave. Estou a ser muito bem acompanhada e fiz psicoterapia durante vários anos, o que me ajudou bastante.
– Mas como era a Marta nos seus piores momentos?

– No meu pior momento senti-me dentro de um túnel e não havia luz nenhuma. Era muito difícil funcionar, não conseguia ir trabalhar e não era por capricho! Aquilo que mais queria era parar de sentir e de pensar.
– O que é que a depressão lhe roubou?
– Nunca fiz essa análise. Desde 2009 que penso se devo assumir a doença. Sempre achei que seria importante dizer: “Olhem para mim, a minha vida parece ser fantástica e tenho uma depressão.” Em 2009, quando era deputada, tentei suicidar-me. Nessa altura queria parar de pensar, estar num sítio em que a dor e a angústia desaparecessem. Quem decide matar-se não o faz tendo como objetivo derradeiro morrer. O que quer é parar de sentir aquele vazio, aquela angústia e aquela dor!
– Consegue perceber agora porque quis suicidar-se?
– Consigo, até porque tive de voltar a esse lugar da minha vida para fazer as pazes comigo própria. Não foi um ato muito refletido… Foi na sequência de um fim de semana muito difícil do ponto de vista pessoal. Deve ter sido o meu pior momento. Estava mesmo no meio de uma crise depressiva. Nem pensei que não ia acordar mais! Só queria que, naquele momento, deixasse de doer. Achei que era a única solução.
– Há muitos estereótipos associados à depressão, alguns deles pouco simpáticos. Há quem diga que os depressivos são “malucos” ou “mimados”. Teve de lidar com esses preconceitos?
– Nunca me senti julgada, mas é verdade que há muitos preconceitos. Somos os maluquinhos, as meninas mimadas ou caprichosas, somos incompetentes e, por isso, até é melhor nem
trabalharem connosco. Não sofri esse tipo de estigma porque só estou a admitir agora!
– Atualmente, o que significa para si viver com uma depressão crónica?
– Viver já não significa o vazio. Aprendi a saber gerir-me. Quando me sinto mais inquieta com algo, atuo logo. Tomo um antidepressivo diário e tenho ansiolíticos para tomar em caso de SOS. A minha técnica é a prevenção. Para mim, ter hoje uma depressão é viver com uma contrariedade. O difícil foi fazer o caminho para chegar aqui. Não minimizo o que é na verdade: uma doença que já me fez sofrer desalmadamente, mas já fiz um caminho, estive no fundo e voltei.
– Acredita que a depressão se cura?
– Não acredito que a depressão se possa curar. Acho que vou tomar antidepressivos para sempre. Preciso desses químicos para o bem-estar. E não me incomoda nada. O que me incomodava eram os momentos em que sofria horrores. Há dez anos, quando ia à farmácia comprar os antidepressivos, olhavam para mim com piedade. Agora já não.
– A Marta tinha uma imagem de menina muito certinha e há um par de anos mudou completamente o seu visual e a sua vida, trocando o fato pelos cortes de cabelo arrojados e o Direito pela consultoria de comunicação. O que significou todas essas mudanças?
– Não sinto que tenha mudado. Era tonta e tinha um plano para a minha vida, como muitas pessoas aos vinte e poucos anos! E achei que aquele plano é que servia para mim. O problema é que o plano não tinha nada a ver comigo. Fui ganhando a consciência de que não estava a ser fiel a mim própria. Não me sentia realizada com aquele plano. E aprendi a relativizar, que é muito difícil. A depressão ensinou-me a confrontar-me comigo própria e a relativizar tudo.
– O que a levou a dar a cara por esta doença?
– Todo o preconceito precisa de uma cara que se chegue à frente. Na sequência da minha tentativa de suicídio, em 2009, quis logo assumir, até porque era deputada e teria muito impacto. Falei com o meu psicoterapeuta e ele disse-me para nem pensar nisso, porque seria um grande estigma que se ia colar à minha pele. E desde aí que vivo com esta dúvida. Mas hoje a depressão continua a ser um tabu! Se me tentasse matar hoje, a atitude das pessoas à minha volta, dos médicos e da minha família, seria a mesma: esconderem-me do resto do mundo. Não por vergonha, mas para me protegerem, queriam poupar-me. Eu fui ao fundo e voltei. Se eu consegui, os outros também conseguem. Não sou especial.

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