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Naide Gomes: "Agora vou tentar ser a melhor do mundo, mas como mulher, como mãe”

Grávida de cinco meses, a campeã mundial de pentatlo e de salto em comprimento decidiu colocar um fim à carreira desportiva profissional

Cláudia Alegria
16 de maio de 2015, 14:00
Este verão Naide Gomes irá dar o maior salto da sua vida. No dia em que anunciou, em conferência de imprensa, que iria terminar a sua longa e brilhante carreira desportiva, a atleta olímpica revelou estar à espera de bebé. Agora, às 11 medalhas que ganhou tanto no pentatlo como no salto em comprimento, Naide tenciona acrescentar o título de melhor mãe do mundo, que tentará conquistar com a mesma determinação e empenho que a levaram a subir ao pódio inúmeras vezes. Grávida de 20 semanas, de um menino, a atleta, de 35 anos, falou com a CARAS no Santuário de Cristo Rei, em Almada, onde planeia casar-se daqui a cerca de um ano com o namorado de longa data, o também atleta Pedro Oliveira, que se encontra a trabalhar em Luanda. 
 – As lesões sempre foram o seu calcanhar de Aquiles?
Naide Go­mes – É isso mesmo. Além de ter uma lesão grave no calcanhar de Aquiles, as lesões foram, realmente, o meu calcanhar de Aquiles... No entanto, apesar dos vários tipos de lesões, consegui conquistar muita coisa.
– Como é que gostava de ser recordada?
Além da atleta que fui e do sucesso que alcancei, gostaria de ser recordada como uma atleta muito determinada que nunca baixou os braços. Nunca desisti, dei sempre luta. Uma atleta que fez tudo para alcançar os seus sonhos e que alcançou muitos deles. 
– Ganhou 11 medalhas...
Todas elas importantes. Obviamente que a primeira, para mim, foi muito mais importante porque foi a responsável por ter ganhado todas as outras, ou seja, quando a ganhei percebi que poderia ganhar mais, poderia ser melhor e, a partir daí, a ambição superou tudo. 
– Qual considera ser a sua maior conquista?
As medalhas são, obviamen­te, uma grande conquista, mas ter superado a marca dos sete metros [no salto em comprimento] foi, para mim, o concretizar de um sonho que perseguia há muito tempo. Conseguir alcançar essa marca histórica foi uma enorme alegria.
– Quando e onde foi mais feliz?
A minha vida foi quase toda dedicada ao desporto, mas posso dizer que fui muito feliz em São Tomé e Príncipe. É lá que estão as minhas origens, foi o país onde nasci e onde vivi uma infância fantástica, até aos dez anos. Não tive as con­dições que hoje em dia os miúdos têm, mas fui uma criança ex­tremamente feliz.
– Regressou a São Tomé há pouco tempo, voltou a vivenciar essa feli­cidade? 
Foi muito diferente, porque já não tinha lá os meus amigos nem a minha irmã, com quem partilhava momentos incríveis. Eu e a minha irmã somos muito ligadas, parecemos gémeas. Por isso, faltava ali um pedaço de mim. 
– O facto de a sua irmã ter sido mãe em setembro do ano passado despertou em si a vontade de ter filhos?
Muito. Ainda por cima assisti ao parto, que foi um momento mágico... Quando vi aquele bebé lindo percebi que também queria ter um. Até à data nunca tinha tido vontade. Queira ser mãe, mas não tinha sentido o ‘relógio biológico’. Poder vivenciar os primeiros dias da minha sobrinha mexeu muito comigo. 
– Para quem foi o primeiro telefonema quando descobriu que ia ser mãe?
Foi para o Pedro, que está em Angola, mas só quando fiz um segundo teste é que lhe disse que ia ser pai. Depois, obviamente, contei à minha irmã. Como o Pedro não está cá, é ela quem me tem acompanhado às consultas pré-natal. 
– É ela que a tem apoiado na ausência do Pedro?
Sim, a minha irmã é extre­mamente importante. É a minha melhor amiga, minha confiden­te. O Pedro foi comigo à primeira consulta e vai assistir agora a outra ecografia. Como ele vem quatro vezes por ano a Portugal, dá para ir gerindo tudo.
– Há quanto tempo está em Angola?
Há dois anos, a trabalhar como engenheiro de telecomunicação e informática numa empresa israelita. Era professor de Educação Física, mas entretanto tirou outro curso à noite e tornou-se engenheiro. Tenho um orgulho enorme no meu namorado! [risos]
– Ele também era atleta de alta competição. Deixou de treinar?
Sim, as lesões também lhe estavam a dar problemas. Depois, há uma altura das nossas vidas em que temos que fazer opções. Ele tomou esta decisão e fez muito bem, e eu segui-o.  
– Já houve situações muito complicadas de atletas de alta competição que, quando terminaram as carreiras, tiveram dificuldades de integração. Calculo que a nova geração já esteja mais atenta e preparada para o pós-competição?
Sim, obviamente que me preparei. O meu treinador [ Abreu Matos] sempre me aconselhou a estudar e a terminar o curso enquanto estivesse em alta, porque um dia isto acabava e tinha que ter algo para fazer. Para mim, ele foi como um pai. Aconselhou-me em vários momentos da minha vida e ser licenciada era um sonho, tanto para mim como para a minha mãe. Por isso, demorasse o tempo que demorasse, eu iria acabar o curso. Acabei em boa hora, agora é trabalhar na área que escolhi.
– E já está a trabalhar?
Sim, trabalho em part time no Sporting como fisioterapeuta. Assim que nascer o bebé vou procurar outros cursos, como o de personal trainer. Tenho muitos sonhos e agora que tenho tempo, vou investir em mim e na minha formação.
– Porque a sua vida durante estes anos ficou um bocadinho em stand by?
Ficou, sem dúvida. Não tínhamos tempo para nada. O tempo que tinha era para treinar, estudar ou fazer fisioterapia. Sobrava-me muito pouco tempo. Os fins de semana eram para estar com a família e sair com o namorado. Não foi fácil conciliar tudo. 
– A personalidade que foi moldando na vida desportiva deverá ajudá-la, agora, na sua vida pessoal e profissional...
Eu acho que sim. Sempre disse que não tinha medo de trabalhar onde quer que fosse, nem que fosse a fazer limpezas. Se tenho uma licenciatura, vou à luta. Sou determinada, sempre fui, e não é agora que vou deixar de o ser. Enquanto tiver dois braços, duas pernas e saúde... 
– Qual é o seu maior medo?
Ficar doente, ter uma in­capacidade física que não me deixe fazer aquilo que posso e gosto.  
– Como é que vai colmatar a ausência da adrenalina das competições?
Vai ser complicado. Vou ter de arranjar algumas coisas para fazer, como saltar de paraquedas! Vou procurar outros desportos que me deem adrenalina e que não impliquem competições. Parar é que nunca. Vou buscar adrenalina ao meu bebé, pelo que vejo com a minha sobrinha, vou ter muito que fazer. Obviamente que não é o mesmo que subir ao pódio, ganhar uma medalha ou ser a melhor do mundo, mas vou ser a melhor do mundo noutras coisas como a melhor mulher, a melhor mãe. 
– Parece que não vai esperar muito tempo para dar um irmão a este bebé?
Pois não. Daqui a um ano vamos tentar outra vez, porque tenho que dar um irmão ao meu filho. Um irmão é tudo, é a nossa família, é aquilo que fica. 

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