Nas Bancas

Nicolau Breyner: “Sou forte em tudo, mas sou frágil no ego”

Aos 74 anos, e depois de ter tido um cancro há seis, diz que se sente em grande forma. Não teme a morte, mas quer trabalhar até ao fim.

Andreia Cardinali
17 de maio de 2015, 14:00

Dono de um percurso incontornável, com mais de meio século de carreira, Nicolau Breyner, de 74 anos, é bem conhecido dos portugueses. Por isso, não nos alongare­mos em apresentações, antes deixaremos que as suas palavras falem por si e contem como encara a vida e até a morte, numa conversa que teve lugar durante o primeiro aniversário da sua Academia de Atores.
– Estar com os seus alunos e vê-los a querer singrar na representação provoca-lhe alguma nostalgia da juventude?
Nicolau Breyner – Nenhuma! Acho gra­ça ao que eles dizem, pois no fundo são as vivências que todos nós temos: os anseios, as dúvidas, as certezas, e que depois perdemos, claro, mas a vantagem da minha idade é que já não tenho certezas sobre nada. E isso é ótimo! Não sei nada nem tenho a certeza de que existo [risos]! Estar com eles faz-me reviver o tempo em que tinha a idade deles, mas não me traz nostalgias negativas ou pessimistas. Acho espantoso ver estes miúdos cheios de força e de esperança... Eu era assim... Mas era um bocadinho mais doido do que eles [risos].
– Estar com eles parece dar-lhe muita energia...
É fundamental! Tenho uma ótima relação com eles e não sinto a diferença de gerações. Emocionalmente, sinto-me completamente perto deles e acho que eles sentem o mesmo em relação a mim. Mas é claro que há coisas que penso e sinto de maneira diferente...
– Por causa da idade?
Por causa da maturidade e de uma série de coisas. Mas acho que estou melhor assim. É uma questão de gosto [risos].
– É um apaixonado por cinema e teatro, mas faz muita televisão...
Sim, em Portugal a televisão é fundamental para um ator, é o nosso ganha-pão. Quando acabo uma novela, sinto sempre uma sensação de alívio, porque normalmente são dez ou 12 meses de trabalho muito intensos, mas passados dois ou três meses começa o bichinho de querer regressar...
– Diz que não tem certezas. Os 74 anos não deveriam ter-lhe dado algumas?
Os 74 é que fazem com que não tenha a certeza de nada! Eu sei que sei, sem qualquer espécie de vaidade; agora a certeza de que aquilo que faço está certo, a certeza do amanhã, de como as coisas vão correr... isso não tenho.
– E pensa na morte?
Claro, mas cada vez com mais tranquilidade. É uma coisa natural, quando acontecer, acontece. Gostaria que acontecesse sem dor, sem sofrimento, mas de resto acho que é uma coisa perfeitamente natural. Vivi muito, bastantes anos, fiz algumas coisas de que me posso orgulhar... outras nem tanto... outras nada... Tenho duas filhas e três enteados... Acho que a minha missão está cumprida.
– A noção da finitude não aumentou a ansiedade de querer fazer mais?
Não, em mim o querer fazer mais é uma ansiedade constante. Desde que nasci. Não é por ser mais velho que tenho maior ansiedade, sempre tive. É espantoso, porque tenho imensos projetos para daqui a cinco, seis anos, e penso nisto com toda a calma, porque se não acontecerem, paciência... Agora, não me vejo reformado, nem pensar nisso! Acho que isso é a antecâmara da morte e não quero. Acho que enquanto tiver condições físicas e psíquicas para trabalhar, continuo.
– Normalmente, os artistas não se re­formam...
Acho que se tivesse outra profissão qualquer também não me reformaria. Se tiver dificuldades em memorizar ou em locomover-me, terei a consciência de que não posso continuar mais e viverei das minhas recordações. Mas também acho que farei outro tipo de coisas... posso estar sentado a pensar em coisas...
– Tem mais de meio século de carreira. Ainda há muitas coisas por fazer?
Imensas! Há filmes e peças que quero fazer... pessoas que quero conhecer... risos e choros que quero ter...
– E como está a nível de saúde?
Graças a Deus, muito bem.
– Mas continua a ser acompanhado, a fazer exames regulares?
Faço poucos, diga-se que me distraio um pouco com isso. Agora estive um mês sem tomar duas ou três coisas que preciso de tomar... Esqueço-me, mas acho que é porque não me sinto mal. Fiz exames há dias, por outras razões, e está tudo bem. Deus tem sido muito bom para mim.
– Quando uma pessoa passa por um cancro, vive com o permanente receio de uma recidiva?
Todos o temos um pouco, mas na minha idade há uma coisa boa: digamos que o cancro é sempre mais benigno, porque a sua progressão é muito mais lenta. Sinto-me otimamente, não tenho qualquer razão de queixa. Fisicamente, não tenho nada que me chateie, a não ser um menisco todo lixado pelo desporto.
– Sente-se um homem idoso?
Francamente? Não. Não me sinto idoso, nem física nem mentalmente. Sinto-me um homem maduro, perfeitamente capaz de acompanhar as gerações mais novas, tenho uma vida física e intelectualmente ativa e não tenho queixas. Às vezes, penso se não andarei a fazer figuras parvas, porque me ponho ao nível dos meus alunos que têm 20 anos, mas não, eu percebo-os, e eles a mim. Às vezes, eles dizem coisas que me fazem rir por dentro e penso que não vale a pena explicar-lhes... não vão perceber... têm de sentir...
– Arrepende-se de alguma coisa?
Não sou dado a arrependimentos, por­que não valem a pena, as coisas já estão feitas... Vivi intensamente tudo o que era para viver, sem pensar no amanhã. E faria tudo de novo. Foi tão bom o que vivi, tão cheio, tão pleno! Vivi, sofri, amei e amo intensamente, e é tão bom que não trocava por nada.
– Deve ser bom sentir-se tão realizado...
Há quem não atinja isso nunca. Há dias em que estou melhor, outros pior, como toda a gente, agora, se pensar no meu passado, acho que construí coisas.
– Ainda tem receios de alguma coisa?
O único receio que tenho é o de não poder trabalhar. Isso seria complicado.
– Essa necessidade de trabalhar não tem também a ver com o reconhecimento? Os atores têm egos especiais...
A primeira recompensa do ator não é o dinheiro, é o aplauso! Ainda há dias a minha mulher me disse: “Você é uma pessoa que precisa de festas no ego.” E eu respondi: “Claro que preciso, faz parte.”
– Mas entende que pode não ser fácil para os outros lidar com isso?
Sim, percebo e aceito, mas quem se aproxima de um ator tem de saber que faz parte do seu alimento. Tem de beber, comer, estar sexualmente feliz e receber festinhas no ego. É fundamental. Quem não souber isso faz perigar a relação.
– A Mafalda [Bessa] tem sabido fazer isso?
Claro. Os casamentos entre atores falham muitas vezes por causa disso: ambos precisam de festas no ego. Nós somos complicados... tenho a certeza de que não deve ser pera doce ter uma relação com alguém como eu. Agora, ou se gosta, ou não; ou se tem, ou não se tem. Quando uma pessoa nos aceita, tem de perceber que são essas as regras do jogo. Somos seres muito frágeis. Eu, que sou uma pessoa fisicamente forte, e forte em quase tudo, sou muito frágil em termos de ego.
– E como é que um ego assim é confrontado com o envelhecimento?
Para mim não foi muito complicado. Vamo-nos vendo na televisão e nos filmes ao longo dos tempos, é uma coisa gradual. Aquilo que sei é que qualquer ator é muito melhor com 60 anos do que com 20. Não tenham a menor dúvida. Há grandes estrelas que aos 20 anos eram uns canastrões monumentais. Isso é uma coisa que o tempo nos dá. Em questões de talento, o ator fica mais vigoroso com a idade. Sei que sou melhor agora e que se Deus o permitir, daqui a dez anos serei melhor ainda.

Comentários

ATENÇÃO: ESTE É UM ESPAÇO PÚBLICO E MODERADO. Não forneça os seus dados pessoais (como telefone ou morada) nem utilize linguagem imprópria.

Nas Bancas

Newsletters

Receba grátis no seu email as notícias, as últimas caras!

Caras Nas Redes

Mais na Caras