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Ruy de Carvalho: “Sou solitário quando me apetece, custa-me ver a solidão imposta”

O encontro com três gerações da família de Ruy de Carvalho, em Cascais, no local onde o pai do ator serviu o último rei de Portugal, D. Carlos I.

Adelaide de Sousa
19 de abril de 2015, 14:00

Os Retratos Contados foram ter com a família de Ruy de Carvalho à Pousada da Cidadela de Cascais, um local cheio de simbolismo para os seus antepassados: foi aqui que o pai do ator serviu o último rei de Portugal, D. Carlos I. A conversa teve como pano de fundo o retrato desse mesmo rei, e aqui encontrámos três gerações de uma família que em si contém tanto de Portugal – a criatividade, o carácter, a simpatia e a simplicidade que nunca esperamos ver em verdadeiros ícones da nossa cultura.
– Ruy, quem eram os seus avós maternos e paternos?
Ruy de Carvalho – O meu avô paterno dirigia as Finanças em Vila Real, Trás-os-Montes. A rua do teatro tem o meu nome, o que me honra muito. Do lado materno, tenho a minha avó Cristina, que foi casada com o meu avô Rebelo, dono duma propriedade em Angola que é agora o Bom Jesus do Kwanza.
– E a sua mãe, fale-nos dela...
– A minha mãe era pianista, foi aluna de um grande mestre chamado Vianna da Motta. Quando o meu avô foi para África, quis levar a filha, mas ela disse que sem a mãe não ia! O meu avô ficou lá sozinho e a minha avó foi mais tarde, e estão os dois lá sepultados.
– A sua mãe teve-o mais tarde, não foi?
– Tinha 43 anos quando me teve. Ambos os meus pais eram viúvos e voltaram a casar, e tinham filhos do casamento anterior. O meu pai era oficial do exército, pertencia à Guarda Real de D. Carlos. Fez serviço aqui mesmo, na Cidadela de Cascais, e já com a República esteve preso 37 vezes, porque era monárquico.
– E que recordações é que tanto o João como a Paula têm destes avós?
João de Carvalho – As minhas duas avós eram artistas. Uma era uma pianista extraordinária, a outra desenhava a carvão e ainda tenho coisas feitas por ela. O pai do meu pai, de quem eu herdei o nome, era um homenzarrão muito grande, tinha um metro e noventa e picos. Lembro-me de passear com ele, é uma imagem que guardo sempre – a do grande avô.
Paula de Carvalho – O meu avô morreu tinha eu três anos. A última memória que tenho do meu avô é no hospital da Estrela: lembro-me de andar a correr pelos corredores e depois de ele ter desaparecido, e não percebi porquê. Tenho uma grande saudade desse avô. As avós conheci muito bem, sei que sou parecida com a mãe do meu pai, que tinha sangue escocês.
– E o Henrique, o que sabe dos seus bisavós?
Henrique – Na verdade não tenho recordações deles, porque era muito pequenino. Só do meu avô Armando, que era oficial da Marinha, e da minha avó Rute, claro. Era temperamental, quando se zangava... atirava o baralho de cartas, era o que tinha à mão. Mas nunca acertava em nós! E ainda tenho a minha avó paterna, Marina.
João – Nós casámo-nos todos com pessoas assim, a minha também tinha as orelhas arrebitadas!
– Ruy, que valores acha que passaram para os netos?
Ruy – Honestidade, uma forma de estar na vida com carácter. Era uma família muito feudalista, mas unida. Havia republicanos e monárquicos, mas todos se respeitavam.
– Paula, disse-nos que agora era a agregadora da família.
Paula – Sim, por causa do espetáculo que temos em digressão [Trovas & Canções]. Fazemos homenagem à língua e à cultura portuguesas, e juntamos três gerações de atores. E há mais atores na família, de ambos os lados.
Paula – A minha cunhada partiu em abril e eu assumi a gerência da empresa que temos. Houve uma união que permitiu algum conforto ao meu irmão na altura da viuvez. Agora sou a produtora e sócia-gerente da empresa.
– Qual é a vossa estratégia quando algo assim atinge uma família tão em cheio no coração?
Ruy – É estarmos presentes quando a afli­ção existe, não deixarmos os outros com a sua própria dor, sentindo também a nossa dor.
– Henrique, o teu avô para nós é o Ruy de Carvalho,  mas para ti é só avô. Lembras-te da primeira vez que viste o teu avô na televisão a representar?
Henrique – Creio que foi no Todo o Tempo do Mundo. Nos anos 90 não me lembro de o ver na televisão, ele fazia muito teatro nessa altura.
– E o que é que sentes a representar ao lado de pessoas como ele e a Eunice Muñoz?
– São pessoas muito humanas, nada vedetas. É isso que procuro quando trabalho. Ao longo da vida de um ator há uma desconstrução daquilo que tu és, levo sempre qualquer coisa comigo para casa da personagem que estou a viver, como uma pessoa que lê milhares de livros e acredita em todas as histórias. Assim pode ser o ator. É possível que te tornes uma pessoa diferente de quem foste.
 – Ruy, um dos objetivos deste projeto é falar da solidão dos mais velhos, do isolamento. Sabendo que é uma pessoa muito ativa, continuar a trabalhar também é um antídoto para a solidão? A cadelinha Naná faz-lhe muita falta...
Ruy – Eu sou solitário quando me apetece, a solidão imposta é que me custa muito ver nos outros. A minha cadelinha foi-se embora, faz-me muita falta tocar-lhe, mas ela está presente. Nasceu ao pé de mim, viveu 16 anos comigo e foi ficar na terra onde nasceu. Está presente no meu coração.
– E o que diz da situação dos mais velhos em Portugal?
– Em 1999 presidi ao conselho nacional para a política da terceira idade e andei pelo país a dizer aos idosos que a velhice não tem de ser humilhante. O meu pai dizia: “poucos são os que vivem muito e muitos são os que vivem pouco”. A vida é uma coisa bela que nos foi dada e pode durar muito ou pouco. Só a morte é certa.

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