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Especial Manoel Oliveira: Luz, câmara, (pouca) ação

Em mais de 80 anos de carreira, Oliveira fez dezenas de filmes inconfundíveis.

CARAS
18 de abril de 2015, 19:00

Mestre Oliveira não fazia um cinema comercial. Na verdade, o mais famoso realizador português no mundo até talvez nem devesse ser tratado por realizador e sim por encenador de filmes. Porque a forma como passava ao ecrã as histórias que nos quis contar bebia, inegavelmente, na fonte da arte maior de representar que é o teatro. Autor de uma obra única, pessoalíssima, em que imperam os registos interiores e intimistas e dominam os planos fixos, Manoel de Oliveira era um amante da palavra, da mensagem, do texto (acumulou sempre a realização com o argumento, inspirando-se ou adaptando vultos da literatura como Camilo Castelo Branco, José Régio, Agustina
Bessa-Luís
, Paul Claudel ou Samuel Beckett), que nos seus filmes surgem, invariavelmente, enfatizados, teatrais, não raras vezes em longos monólogos com contornos declamativos. O amor pelo texto e a paixão pela teatralidade, porém, afastaram-no do grande público e valeram-lhe um estatuto de elitista que não correspondia, de todo, à pessoa que era: acessível, afável, comunicativo e despretensioso.
A relação do realizador portuense com o cinema foi, no mínimo, curiosa. Começou bem cedo, quando, depois de frequentar um curso de ator na escola que o realizador italiano Rino Lupo fundara no Porto, fez uma pequena aparição num filme deste, Fátima Milagrosa, e, graças à sua beleza e porte atlético, de imediato ganhou estatuto de galã.  Três anos depois estreou-se como realizador com o famoso documentário Douro, Faina Fluvial, um hino mudo, e a preto e branco, aos que labutavam no rio que banha o seu amado Porto, bem recebido pela crítica estrangeira, mas apupado pela nacional. Em 33 voltou a trabalhar como ator, em A Canção de Lisboa, de Cottinelli Telmo, mas  já nessa altura não se identificava com o cinema comercial e só em 42 fez a sua primeira longa-metragem de ficção, Aniki Bóbó, uma obra poética de cariz neorrealista cujo fracasso o levou a dedicar-se durante alguns anos aos negócios da família. No início dos anos 60 é preso pela PIDE, na sequência do documentário O Acto da Primavera, e faz nova pausa na realização, que só retomará na década de 70, quando começa a trabalhar com o produtor Paulo Branco. E é precisamente a partir de então que a sua carreira  ganha fôlego e lhe dá prestígio internacional.
Como se precisasse de recuperar os anos perdidos, Manoel de Oliveira torna-se imparável – nos anos 90 roda um filme por ano –, e ainda não terminou um quando começa a pensar no próximo. E espanta o mundo quando, aos 100 anos, continua em plena atividade. De tal forma que o dia do seu centenário foi passado a filmar. Aliás, o mesmo aconteceu nos anos seguintes. Em dezembro de 2014, assinalou o seu 106.º aniversário com a estreia, em Serralves, da sua última película: O Velho do Restelo. Tão hiperativo que deixava de rastos atores quatro vezes mais novos, ainda planeava fazer muitos mais.

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