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Helena Isabel: “É tudo efémero, não vale a pena acharmos que somos os maiores”

A atriz tem conhecido o sucesso, mas nunca deixou que a fama controlasse a sua vida.

Andreia Cardinali
28 de março de 2015, 10:00

Atriz há décadas, Helena Isa­bel, de 63 anos, iniciou a sua carreira numa altura em que a ficção televisiva portuguesa dava os primeiros passos. Entrou na primeira novela portuguesa, Vila Faia, fez vários trabalhos humorísticos com Herman José e nunca mais parou. Hoje participa em Jardins Proibidos e, apesar de nunca ter sofrido com falta de trabalho, diz que gostaria de fazer mais teatro e também de ter a possibilidade de mostrar o seu lado mais cómico.
Foi durante um passeio pelo Chiado que a CARAS conversou com Helena. De parte ficaram as perguntas sobre a forma como mantém a sua beleza e elegância, já que, como lembra, “normalmente é a primeira coisa que me perguntam e eu quero é falar do meu trabalho, que acho que é muito mais importante. Claro que vivo da imagem e tenho de me cuidar, mas o que faço é muito mais importante do que os cuidados de beleza que tenho.”
– Quando a Helena começou a trabalhar os atores cantavam, dançavam, era-lhes exigida mais polivalência. Tem saudades desse tempo?
Helena Isabel – Fazíamos realmente mais coisas. Fazia-se muito teatro de revista e normalmente as atrizes tinham de cantar e dançar um bocadinho. Tenho algumas saudades, mas hoje em dia faço coisas de que gosto tanto que isso fica um bocadinho ultrapassado.
– As pessoas têm ideia de que a Helena canta bem ou só a associam à representação?
Acho que hoje em dia só me assumem como atriz, sobretudo os mais novos, pois já deixei de cantar há muito tempo... Foi uma opção. Não podia continuar a fazer as duas coisas ao mesmo tempo e como acho que represento melhor do que canto, optei pela representação, que sempre foi a minha paixão.
– Apesar de preferir não falar sobre a sua beleza, acredito que hoje em dia isso seja um tema inevitável para si e até um fardo, na medida em que os outros esperam de si uma apresentação irrepreensível...
Sim, traz uma certa responsabilidade. É que também ouvimos as pessoas dizer “está tão bem na televisão e depois ao vivo...” Mas de uma maneira geral são muito simpáticas comigo e naturalmente sinto-me na obrigação de estar mais ou menos sempre bem.
– Tem, então, esse cuidado?
Tenho, mas também acho que é uma questão de feitio meu. Gosto de estar cuidada, não preciso de estar muito maquilhada, nem de ir ao cabeleireiro todos os dias, mas gosto de sentir que estou arranjada.
– Nas ocasiões em que ouve um comentário mais desagradável, fica com o ego ferido?
Fere-me muito mais o ego se disserem mal do meu trabalho, agora do meu aspeto físico... não ligo nenhuma, sinceramente.
– E se criticam negativamente o seu trabalho, como reage?
Habitualmente não acontece, mas tento sempre fazer uma análise objetiva e ver se a crítica tem fundamento ou não. Se chegar à conclusão de que tem, tento emendar ou fazer de outra maneira. Não tenho a mania que faço tudo bem.
– Mas é-lhe fácil desconstruir essa crítica ou tem a ver com a maturidade?
Acho que é um processo de maturidade. Os atores são pessoas inseguras e no meu caso eu era-o muito mais quando comecei. Agora já tenho mais uma noção daquilo que faço melhor ou pior, e quando comecei achava que fazia tudo mal e qualquer crítica arrasava-me [risos].
– E a opinião dos outros ainda conta para alguma coisa?
Aquilo que pensam da minha vida pessoal, particular, do meu aspeto físico, não me vai acrescentar nada e não é isso que me faz mudar coisa nenhuma. Agora, no aspeto profissional tenho isso em conta.
– Hoje em dia faz mais televisão...
Sim, há uns anos fazia tea­tro na maior parte do tempo e hoje estou numa fase em que só faço praticamente televisão. Não é uma opção, foi acontecendo... Gosto muito de televisão, mas também tenho saudades do teatro. 
– Saudades das palmas, da interação com o público?
– Tem a ver com a reação imediata do público. Diz-se que no teatro se faz sempre a mesma coisa, mas nunca é igual, porque o público é sempre diferente. Há uma interação que nos faz representar de maneiras diferentes. Por outro lado, também há mais tempo para preparar as personagens. É um trabalho mais profundo.
– Mas hoje em dia um ator ganha mais a fazer televisão do que teatro.
Exato. Mas também depen­de da estrutura que as pessoas têm, há quem viva com mais ou com menos dinheiro... Tenho colegas que só fazem teatro e lá vão gerindo a coisa. Acho que é uma questão de opção e até de oportunidades.
– Com o seu percurso profissional e a maturidade que tem, há ainda alguns receios?
Há sem­pre. Para já, há o receio de ficar sem trabalho, porque este país não é para velhos. Tenho sido uma privilegiada até aqui, porque nunca me faltou trabalho e, no caso de continuar a ter, espero fazer coisas que me deem prazer.
– E há receios inerentes ao avançar da idade?
Claro que há, mas no meu dia-a-dia não penso nisso, até porque me sinto ótima. Tenho ótima memória, vou ao ginásio... mas quando penso em como será a minha vida daqui a uns anos, claro que fico assustada. A idade assusta-me, mas no sentido da perda de al­gumas facul­dades.
– E a solidão, assusta-a?
Não muito. Para já, gosto muito de estar sozinha. Tenho muitos interesses solitários. Gosto de ler, pintar, ver séries... Tenho muitas atividades solitárias e tenho a sorte de ter alguns amigos. Neste momento, quando estou sozinha é por opção, porque quando quero também saio. Em termos de futuro, a solidão não é das coisas que mais me assusta.
– E o amor, faz parte do futuro?
Não penso muito nisso. Es­tou bem sozinha. Não digo que não nem que sim... Se as coisas surgirem, estou cá, se não, tudo bem na mesma [risos]. Sinto-me muito bem como estou.
– Passados tantos anos e vividas tantas personagens, ainda há alguma coisa que gostasse de fazer?
Em tantas novelas, só fiz uma personagem cómica e gostava de voltar a fazê-lo. Comecei na comédia, fiz muita comédia com o Herman e tenho pena de não explorar mais esse meu lado.
– Qual a maior diferença entre essa época e agora?
– Acho que hoje em dia é mais fácil começar, mas mais complicado as pessoas mante­rem-se, há muita gente que fica pelo caminho. De repente toda a gente decidiu que quer ser ator e acho que não tanto pela representação em si, mas pelo glamour que acham que traz. Acham que é só aparecer em revistas e ir a festas, mas isso é uma ínfima parte, a maioria é trabalho.
– E o que é que existe em si que faz com que se mantenha na ribalta tantos anos?
Não me cabe a mim dizê-lo, mas acho que um dos motivos é o meu profissionalismo. Quando me contratam, as pessoas sabem que podem contar comigo.
– E como conseguiu evitar que a fama lhe subisse à cabeça?
Talvez tivesse tido essa tentação quando comecei a fazer novelas. Na altura de Vila Faia e Origens quase não podíamos sair à rua, as pessoas saltavam-nos em cima para agarrar, mexer, tirar uma madeixa do cabelo, eu sei lá... Nessa altura poderia ter-me deslumbrado, e se calhar até aconteceu, mas rapidamente desci à terra e tomei consciência de que a fama é efémera. As pessoas que se convencem de que vão ser famosas toda a vida deviam ir à Casa do Artista: estão lá tantos atores que tiveram grandes carrei­ras... Pessoas muito importantes e que foram esquecidas pelo público. Isto é muito efémero, não vale a pena acharmos que somos os maiores. Não vale a pena criarmos grandes ilusões.

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