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António Zambujo: “Tudo o que precisamos na vida é de amor”

O músico já iniciou a digressão do álbum “Rua da Emenda”.

Vanessa Bento
22 de março de 2015, 14:00

A verdade que imprime à sua música é a mesma com que se move na vida. Talvez seja esse o segredo do sucesso de António Zambujo, o cantor português que tem conquistado públicos além-fronteiras. Embora já tenha iniciado a digressão do seu mais recente trabalho, Rua da Emenda, Zambujo encontrou tempo para falar com a CARAS, numa produção ousada, inspirada no charme de James Bond. “Não gosto de sessões fotográficas, mas gostei muito desta, embora não me identifi­que nada com esta imagem mais sensual”, atirou, com um sorriso, o mesmo que manteve ao longo da entrevista.   
– O que resta do menino que tocava clarinete em Beja e ouvia o cante alentejano?
António Zambujo – Ah, quan­do deixar de haver qualquer coisa desse miúdo é porque algo está muito mal. Não pode deixar de haver, é proibido. A irreverência, a irresponsabilidade, no bom sentido, ou seja, não me levar muito a sério... Cada pessoa tem a sua identidade e é ela que temos de defender perante o público. E o público, em última análise, acaba por perceber isso. Nunca vai deixar de existir o clarinetista em mim.
– Tem boas recordações dessa época?
– Tenho, todas ligadas à minha avó. Foi por causa dela, embora a minha avó não tivesse essa noção, que a música começou a ganhar importância na minha vida. É como se tivesse duas infâncias: a do miúdo normal, que corria, andava de bicicleta e jogava à bola, e a outra, em que andava obcecado atrás da minha avó para ela me ensinar as letras das músicas tradicionais.
– Ainda costuma ir a Beja?
– Pouco, muito pouco. A minha avó hoje em dia está num lar e já não está nas suas plenas capacidades intelectuais. Eu acho que já não é a mesma pessoa, já não é a minha avó que lá está... Os meus amigos também vêm muito a Lisboa, onde vivo há 14 anos, portanto, acabei por me habituar a isto e Lisboa passou a ser a minha realidade.
– Gosta de voltar aos lugares onde já foi feliz?
– Gosto de ir a todo o lado, e acho que podemos voltar aos sítios onde fomos felizes. O passado é inútil como um trapo, não vivo nada agarrado ao passado. É uma aprendizagem, mas o futuro está em branco e isso é que é giro.
– Canta que vive “da vida que passa”. É assim que vive?
– É mesmo isso! Vivo da vida que passa. As coisas ficam e tudo nos molda. Nós somos o que somos hoje pelo nosso percurso. Mas é muito mais importante o que estamos a viver no agora.
– É sobre essa vida que vai passando que gosta de cantar?
– Exatamente. É mesmo isso que me dá gozo. Houve alguém que me disse sobre um poeta com quem trabalho muito: “O João Monge, quando escreve, parece que está a escrever à janela.” Ou seja, escreve sobre o quotidiano. E eu gosto que os textos que canto sejam o retrato de quem está à janela a ver qualquer coisa. Gosto de cantar poemas que me digam algo, que me façam sentir qualquer coisa.
– Essa verdade que passa na música que canta tem cativado pessoas em vários países...
– Sim, temos feito muitos concertos em diferentes países. Com o novo disco também prevemos uma série de digressões por todo o lado. Falta-me a Austrália e a Nova Zelândia, acho que vamos conseguir este ano. O resto está mais ou menos garantido.
– A família não se queixa das viagens?
– Queixa-se um bocadinho. Tenho dois filhos que vejo pouco, tenho os meus pais, que já se acostumaram. Mas os filhos é que se queixam mais e eu também sinto muita falta de estar com eles.
– Consegue ser um pai presente?
– Tento ser o mais possível. Como eles não vivem comigo, quando estou cá tento ter alguma regra, dias específicos para estar com eles, combinar atividades em conjunto. Tem que haver flexibilidade por parte das mães. Elas são fantásticas, entendem a minha vida e aceitam-na.
– Acredito que isso ajude muito.
– Ajuda, claro. Se tivesse tido uma mulher chata, não sei o que seria da minha vida. Espero estar livre desse pesadelo. [risos]
– Os seus filhos estão em fa­ses completamente diferentes, o Diogo tem 16 anos e o João, quatro. Qual é que se ressente mais das suas ausências?
– Acho que o mais velho. Quando estou com o mais novo, estou para tomar conta dele, ainda é pequeno. E com o mais velho já estamos realmente juntos: conversamos, faz-me imensas perguntas, adora música, é um músico extraordinário. Não é grande fã do pai, mas isso é normal. 
– Li algures que tem passado a vida à procura do verdadeiro amor. Já o encontrou?
– Não é bem uma procura, é mais esperar que aconteça algo extraordinário que me surpreenda. Ainda não encontrei isso, mas a música é, para mim, um verdadeiro amor. A mulher, ainda não aconteceu, mas conto encontrar um dia destes. Essas coisas acontecem quando menos esperamos.
– É dado a amores duradouros ou é mais de paixões fugazes?
– Há de tudo, depende da cir­cunstância, do momento. Vivo, sobretudo, o momento. 
– Canta muitos amores e desamores. Alguns são autobiográficos?
– São. Há coisas com as quais me identifico bastante, há coisas que gostaria de ter, há outras que nos fazem sonhar. Por exemplo, há uma música que canto que se chama Algo Estranho Acontece, que é a história de um casal que se conhece desde a infância até à velhice e a conclusão é que apetecia viver tudo novamente. Quando canto essa música, olho nos olhos das pessoas e sinto que é isso que elas querem para a vida delas. E eu não sou exceção. Tudo o que precisamos na vida é de amor.
– Já não falta muito para poder olhar novamente nos olhos dos portugueses, agora nos Coliseus. Está nervoso?
– Se vou entrar em palco para fazer o que mais gosto, porque é que hei de estar nervoso? Além disso, gosto de transformar qualquer sala na minha sala de estar. Sinto que as pessoas me foram visitar, estão na minha sala e estamos ali à conversa, a cantar e a partilhar coisas.

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