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Carlota Rodrigues: Jovem portuguesa brilha no Teatro Bolshoi

Bailarina de 18 anos cumpre sonho de criança numa das principais escolas de ‘ballet’ do mundo.

Cláudia Alegria
15 de março de 2015, 18:00
Sempre que ouvia música, em criança, o seu impulso era dançar, onde quer que estivesse. Perante tamanho entusiasmo, a mãe decidiu inscrevê-la, aos seis anos, nos cursos livres do Conservatório de Lisboa e em aulas de piano, formação musical e coro do Instituto Gregoriano. “Adoro qualquer tipo de dança, porque junta as duas coisas: o movimento e a música, dois lados muito presentes na minha vida”, explica Carlota Rodrigues, que aos 16 anos acabou por receber um ‘passaporte’ para entrar numa das mais famosas e prestigiadas escolas de ballet de todo o mundo: o teatro Bolshoi, na Rússia. “Fiz um curso de três semanas em Nova Iorque com professores da escola de Moscovo e acabei por ser convidada para ir estudar a tempo inteiro para o Bolshoi”, conta a bailarina. O apoio emocional e financeiro dos pais permitiu-lhe aceitar o desafio. “Não é todos os dias que aparece uma oportunidade destas”, sublinha Carlota à CARAS. Durante uma breve passagem por Portugal, a bailarina faz um balanço extremamente positivo da experiência de vida que ganhou nos últimos três anos na Rússia.
– Não deve ter sido fácil, aos 16 anos, sair da sua zona de conforto, ir para um país cuja língua e cultura desconhecia, sujeitando-se à disciplina que uma escola de ballet russa exige...
Carlota Rodrigues – Não foi, mas como vivo para a dança, consegui superar todas as dificuldades. Hoje em dia já falo russo... É uma língua que pode parecer estranha, mas é linda. A disciplina deles tem sido ótima para mim, não só em termos da dança, mas para a minha vida no geral, porque são mesmo muito rigorosos e esperam 150 por cento de nós, todos os dias, independentemente do que possa ter acontecido fora da aula. Senti logo uma diferença enorme na minha dança, evoluí imenso, e vou continuar a trabalhar.
– E quando terminar o curso? A probabilidade de conseguir entrar para o corpo de bailado do Bolshoi deve ser pequena...
É verdade. Mas como vou estar lá quatro anos, quando terminar prefiro procurar outras experiências. Gostava de ir para a Holanda ou Alemanha, porque quero explorar mais o lado contemporâneo da dança.
– Entretanto, conseguiu apoios fundamentais?
Sim, este ano letivo tenho o apoio da Fundação Gulbenkian, sem o qual não seria possível continuar a estudar lá, e da associação Meritis, que apoia jovens na progressão das suas carreiras desportivas.
– Porque o valor das mensalida­des é muito elevado?
Sim, aumenta à medida que vamos avançando. Agora é cerca de 1700 euros por mês, fora tudo o resto: as viagens de avião e a alimen­tação que, supostamente, estaria incluída, mas não tem qualidade... Tenho sempre que reforçar com frutas e saladas. E preciso de comprar os pares de pontas. 
– Tem de mudar de pontas com que frequência?  
No máximo duram um mês e cada par custa pelo menos 40 euros. Idealmente, deveríamos trocar de duas em duas semanas porque, com as horas de dança, começam a ficar moles. Se forem fracas, não têm estabilidade. 
– A carga horária é muito grande?
É... Tenho aulas de segunda a sábado, das nove da manhã às seis da tarde, e quando chego à residência faço os meus treinos sozinha para fortalecer o corpo.
– E tem objetivos a cumprir, nas disciplinas teóricas?
Sim, não transitamos se não alcançarmos determinadas notas. A princípio estava um bocadinho preocupada por interromper os estudos em Portugal, mas quando lá cheguei percebi que estava a aprender uma língua estrangeira, que adoro, e até já estou a explorar a literatura russa: comecei a ler  obras de Lérmontov e de Pushkin, e estou a adorar.
– O que quer transmitir quando dança?
Dançar é o que me faz feliz. Quando vejo um bailado, saio como se conseguisse voar, e é isso que quero transmitir às pessoas, que o inacreditável é possível, basta trabalhar. 
– Mesmo quando as posições são antinaturais. É preciso muito trabalho para fazer parecer que é fácil?
Sim, é esse o objetivo.
– A competitividade é tão gran­de que, há uns anos, o diretor artístico Sergei Filin foi atacado com ácidos por elementos da compa­nhia. Ele continua em funções? 
Sim, continua a ser o diretor artístico. Perdeu grande parte da visão, mas ainda aparece nos espetáculos da escola, quando atuamos no teatro. Tem uma sobrinha a estudar na escola, o que acaba por não ser muito bem visto... Sente-se alguma tensão. Como acontece em todo o lado, também vivemos as políticas.
– E sente-se o clima de intrigas e egos inchados das estrelas da companhia?
Um bocadinho, sim, mas tento não valorizar isso e não me meter... 
– Mas tem de lidar com essas bailarinas...
O que faço é fechar os ouvidos ou os olhos e concentrar-me no meu trabalho. É mais saudável do que ficar preocupada com as outras pessoas.
– Em 2003, a bailarina Anastasia Volochkova foi despedida por ser “demasiado alta e demasiado gorda”. Sente essa pressão, de ter medidas perfeitas?
Sinto. Também nisso tenho de ser muito forte, porque eles conseguem tornar-se um bocadinho excessivos, chega a ser doentio. Conheço casos de colegas que chegam a um ponto em que só pensam naquilo. Eu, se ficar a pensar na aparência, não me vou concentrar na dança. Acho que me mantenho saudável por causa disso. Quando dou por mim a pensar que comi um bocadinho, demais mentalizo-me que, se estou a comer, é porque preciso de energia. Mas sinto essa pressão e todas as professoras chamam a atenção para o nosso corpo, mas acho que tenho conseguido manter a minha linha comendo de forma saudável.  
– Acabou de passar três semanas de férias em Portugal. Deu para matar saudades?
Deu. Às vezes é difícil gerir tudo, até porque tenho de continuar a dançar. Não posso parar. Costuma-se dizer que, quando se pára um dia, o bailarino repara, quando se pára dois dias, o professor repara, e quando se pára três dias, toda a gente à nossa volta repara que parámos. Portanto, tenho que manter-me em movimento. 

Agradecemos a colaboração de: Aldo, P&G, Patrizia Pepe e Teatro Nacional de São Carlos 

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