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Jorge Reis-Sá: “Privei por momentos com a história”

Rita Ferro conversa com o escritor e editor na sequência da publicação do livro “Francisco, de Roma a Jerusalém”.

Rita Ferro
1 de março de 2015, 14:00

Jorge Reis-Sá nasceu em Vila Nova de Famalicão e licenciou-se em Biologia. Tem 37 anos. Casado com uma colega de curso, Ana, têm um filho, Guilherme. É escritor, editor e consultor editorial. Colabora frequentemente com a imprensa, tendo sido cronista das revistas Sábado e LER. Co-organizou com Rui Lage a antologia Poemas Portugueses, uma panorâmica de oito séculos de poesia portuguesa. Em Outubro, lançou um livro em co-autoria com Henrique Cymerman sobre uma experiência que marcaria para sempre a sua vida: Francisco, de Roma a Jerusalém – em viagem pela paz, lado a lado com o Papa – logo integrado no Clube do Livro SIC. Conversámos com ele nos salões do Grémio Literário, onde falou sobre livros, amor e religião. É um jovem sábio, que desafia o futuro com uma filosofia muito sua.
– Como vai a edição em Portugal?
– Costuma dizer-se “vai bem e recomenda-se”. Mas não. Vai como vai o mundo. Não sou um cínico, mas tenho consciência da realidade e tento ser feliz com ela. Mandam os números e uma lógica capitalista. Podemos ir remando contra essa maré, mas a vida também nos obriga a adaptarmo-nos a ela, senão afundamo-nos.
– Quantos livros se editam por mês, actualmente?
– Não sei. Julgo que muitos, demais para o mercado que temos.
– Que concluis daí?
– Que a lógica editorial é a da fuga para a frente. Já não há fun­do, só novidades. Dantes os livros diziam-se iogurtes nas livrarias. Agora acho que são carne fresca. Apodrecem tão depressa que logo são atirados aos cães no armazém.
– Tiveste as Quasi Edições durante dez anos, uma editora de referência a que um dia puseste fim...
“Erros meus, má fortuna, amor ardente.” Talvez em partes iguais. Mas os erros meus são os que mais doem, claro.
– Deixaram-te feridas?
“A ferida por baixo da cicatriz – quem cura?”, escreveu o Vasco Gato. A cicatriz sarou, mas a ferida está sempre aberta, por baixo. Era um projecto de vida, sei-o agora. Cheio de contra­dições, como é a vida também. Mas o fecho da editora trouxe-me Lisboa. Trouxe-me três
anos como editor na Babel, onde aprendi muito. E trouxe-me este sol e esta luz, esta cidade que sei minha também. Tenho uma parte do coração em Famalicão e outra no Mar da Palha, no “Rio Triste” do Fernando Namora. É sempre preciso falhar para aprendermos a falhar melhor. Beckett: “Tentar outra vez, falhar outra vez, falhar melhor.”
– Que fazes pelos teus autores, agora como consultor editorial?
– Trato cada autor como um parceiro único, como se fosse uma instituição em si mesmo. Lendo-o literal e metaforicamente. Trato-o como uma vinha, dizia o Hermínio Monteiro dos livros. Um autor também precisa deste cuidado com as mãos. E depois, o livro. Esse objecto maravilhoso.
– És sobretudo poeta. Como vives a contradição entre esta vida bruta e o exercício nobre da poesia?
– Talvez seja sobretudo poeta porque sempre olhei para as coisas pequenas como se fossem grandes. E depois as trate como se não existissem outras em volta. “O acto de pôr a roupa a secar”, disseram sobre o meu primeiro romance, o “Todos os Dias”. Há coisa mais linda do que pôr a roupa a secar? Não cedo, portanto. A vida é-nos bruta se não a soubermos fazer amável. E eu tenho este fascínio enorme de amar a vida.
– Sabe-se que tens uma vida pessoal feliz, o que é raro entre poetas. Que fazes para que a insatisfação própria do artista não desequilibre a tua vida pessoal?
– Não sei se concordo com essa raridade. Sei apenas uma coisa, que as duas T-shirts iguais que a Ana ofereceu a mim e ao Guilherme têm o Darth Vader dizendo: “Always look on the bright side of life”, como can­tavam os Python. Em tudo ver o sol, mesmo na beleza da escuridão.
– Queres deixar-nos um dos teus versos?
“Vou para casa esquecer que parti.” Está no Instituto de Antropologia, onde reuni tudo.
– A ideia de escrever um livro sobre o Papa Francisco partiu de um furo comercial ou de algo mais profundo?
– Serendipidade. Uma ideia comercial, como editor. Uma necessidade vital, como escritor. E deu-se.
– Viveste, juntamente com Henrique Cymerman, uma intimidade com o Papa que nunca previste...
– Privei por momentos com a História. E a História soube, nesses momentos, que eu existia. Mais: que existia o meu filho Gui. Não há nada que me encha mais o coração que uma resposta do Papa. Quando disse ao Guilherme que ia a Roma, disse-lhe também que ia pedir ao Papa que rezasse por ele. Respondeu: “Diz ao Papa que eu também vou rezar por ele.” O Papa iluminou os olhos ao ouvir esta história, disse: “Que belo!”
– Que mais te impressionou na figura?
– O seu carisma, inexistente. Tem o paradoxal dom de ter um carisma tão forte por ser um de nós, se vestido de preto o padre Horácio lá da terra.
“O Papa escolheu a Terra Santa como primeira visita pastoral”, dizes no livro. Dantes, a designação “Terra Santa” referia-se sempre à Palestina. E agora?
– A Terra Santa é uma área abran­gente, que junta a Jordâ­nia, Israel, Pa­lestina, etc. O Papa escolheu a Terra Santa porque santa é a terra, não a divisão que os homens lhe impuseram.
– Que impressão trouxeste do conflito?
– Que se resolveria se sentassem à mesa duas pessoas de bom senso sem necessidade de se mostrarem fortes para o seu povo. Mas nem a segunda hipótese é possível, nem a primeira existe muito; quer lá, quer no resto do mundo. Tenho um amigo que disse que Deus, quando distribuiu os atributos, aquele que talvez tenha distribuído menos irmãmente foi o bom senso...
– Que fez o Papa ali que nin­guém tivesse feito ainda?
– Abraçou-se ao Muro das Lamentações juntamente com um muçulmano e um judeu. Essa imagem nunca desaparecerá como abraço entre irmãos.
– Henrique Cymerman foi o primeiro jornalista a entrevistar o Papa para a TV, dentro de Santa Marta. Como conseguiram entrar?
– Sim, recebeu-o no seu pequeno apartamento, frugal. Não sinto – e sei que o Henrique também o não sente – que tenha conseguido entrar. Sinto que um amigo nos convidou a sua casa, apenas.
– Contaste-me que o Papa escreveu ao teu filho...
– Quando editei para um jornal um conjunto de livros do Papa, mandei-os para o Vaticano, continuando uma curta troca de correspondência que vinha de trás. E nessa altura o Gui colocou lá uns marcadores que desenhara (afinal, já é altura de os cofres do Vaticano terem desenhos que acompanhem bem os de Da Vinci...). O Papa respondeu com uma carta para ele, dando conta de como se reviu nos desenhos, de como se lembrou de si mesmo pequeno. E oferecendo-lhe conselhos (“sê humilde e generoso”) e um crucifixo que guardámos todos junto ao coração.
– Ser humilde e generoso é o mais difícil de tudo...
– Tens toda a razão. São duas das características menos naturais do Homem. Os genes estão feitos para sermos caçadores, para nos mostrarmos fortes e nada humildes. Estão feitos para sermos dados apenas com quem compartilha connosco o mesmo conjunto, os pais, os irmãos, os tios. Mas a razão existe para ultrapassar a natureza. Darwin explicou bem a ganância é natural. Cabe-nos a nós ultrapassá-la.
– E o amor, Jorge?
– O mandamento principal já nos foi entregue há 2.000 anos: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.” Porque Deus está em cada gota de chuva que nos beija a cara. Exista Ele ou não, eu sei que a gota de chuva existe e é d’Ele. É um equilíbrio instável, porque somos tão falíveis. Mas tentemos. Percebendo a bênção que é estarmos aqui e podermos amar. O Herberto Helder escreveu uns versos que citei numa das cartas que enviei ao Papa: “E por dentro do amor, até somente ser possível amar tudo, e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.”

 

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