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Carlos Martins: “Não é possível viver uma vida e praticar outra música”

Dedicado à música há 40 anos, o saxofonista e compositor tem sido um dos grandes impulsionadores do jazz no nosso país.

Andreia Cardinali
22 de fevereiro de 2015, 19:00

Carlos Martins, de 54 anos, é um dos saxofonistas e compositores mais reconhecidos do nosso país. Começou a tocar aos 14 anos, depois ingressou no Conservatório Nacional, e estudou ainda na Escola de Jazz do Hot Clube de Portugal, onde também foi docente, aos 19 anos. A sua carreira foi-se desenvolvendo na área do jazz e tocou ao lado de inúmeros músicos portugueses e estrangeiros. Está também ligado à composição para o cinema e para o bailado, mantendo uma forte ligação à música erudita.
Homem ligado aos afetos que também o ajudam a compor, Carlos Martins decidiu dedicar o seu sétimo álbum, Absence, a Bernardo Sassetti, que morreu há dois anos e com quem criou o grupo Quarteto.
– Como despertou a sua paixão pela música?
Carlos Martins – A música esteve sempre muito presente na minha vida e acho que é isso que acontece com aqueles que são realmente músicos. Ninguém da minha família tem nada a ver com a música, mas na verdade eu nunca quis ser músico. Como tinha este dom, não lhe dava muita importância e passava o tempo a estudar química, curso que acabei por tirar, mas fui sempre tocando. Aos 14 anos arranjei uma flauta e tocava com um músico num jardim de Grândola. Não me lembro como fui parar a uma banda filarmónica e foi aí que tudo passou a fazer sentido. Aprendi a lição número 100 de solfejo em apenas um mês, o que normalmente demorava seis. Sempre aprendi tudo com muita facilidade e comecei a perceber que afinal tudo isto fazia sentido.
– Houve uma ligação imedia­ta com o saxofone?
Não. Sempre tive muitas alergias e houve até um otorrino que me aconselhou a parar de tocar. Nunca foi fácil, foi sempre um desafio, uma constante conquista e acho que isso também molda a maneira como toco. Ajudou-me a perceber que as coisas mais in­teressantes não são óbvias.
– O Carlos acabou por ser um dos grandes impulsionadores do jazz em Portugal...
Já havia quem tivesse feito algum trabalho antes de mim, já existia o Hot Club... Eu faço é parte de uma geração de músicos com bastante talento. E houve momentos cruciais dentro dessa história que fizeram com que o jazz se tornasse mais reconhecido. – E como olha agora para a música em Portugal?
A música precisa de espaço para se propagar e a verdade é que temos os ouvidos poluídos devido ao excesso de informação. As pessoas ficam sem espaço mental e auditivo para ouvir música. A solução passa por fazer somente aquilo de que gosto e é orgânico. Fazer com que a pessoa que nos ouve sinta a diferença no que fazemos. Para um músico, hoje em dia, é muito difícil viver no meio de tanta informação.
– E isso já o fez pensar em desistir da música?
Já pensei, mas não por essa razão. Já achei que não tinha mais nada para dar, que a minha prática artística não tinha assim tanta importância. Talvez por isso tenha passado estes últimos anos sem gravar. Achei que não tinha nada para dizer e agora acho que tenho. Eu estudo outras coisas, dedico-me a outro tipo de trabalhos, faço festivais de jazz, crio projetos para pessoas internacionais, faço muitas coisas que me fazem não ser só músico. E também sei que um indivíduo que seja só músico ou é incrivelmente talentoso na sua música e a promover-se ou então não tem qualquer possibilidade. O sistema musical está muito mal construído, pois dá muita música que não presta e não se preocupa com uma construção social e humana harmónica.
– Com uma carreira tão preenchida, como conseguiu equilibrá-la com a família? Sei que tem dois filhos, Benjamim, de 16 anos, e Matilde, de 13.
Ser pai é uma coisa altamente inspiradora. Tenho a sorte de ter dois filhos maravilhosos, têm ambos uma perceção artística muito grande. São ambos muito bons alunos e como pessoas são muito queridos. A maior parte da minha criação discográfica coincide com o nascimento do meu primeiro filho. Acho que a relação emocional que tenho com a vida é a mesma com a música. Não é possível viver uma vida e praticar outra música.

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