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Carminho: “Sonho imenso e quanto mais sonho, mais se realiza”

Aos 30 anos, a fadista tem os pés assentes na terra, apesar do sucesso.

Inês Neves
21 de fevereiro de 2015, 10:00

Pragmática, racional, mas também muito sonhadora. É esta a Carminho que damos a conhecer nesta entrevis­ta, marcada a propósito do lançamento do seu novo álbum, Canto. Casada desde setembro de 2013 com o músico Diogo Clemente, seu produtor e diretor musical, a fadista garante que consegue olhar para o marido como um artista, independentemente da pessoa que ele é na sua vida pessoal e afirma: “Até hoje tem feito sentido trabalharmos juntos, não quer dizer que tenha de ser sempre assim.”
– Lançou o seu primeiro álbum aos 29 anos. Desde então já foi distinguida duas vezes com o prémio Amália, recebeu uma menção honrosa no International Songwriting Competition 2012, venceu um Globo de Ouro, foi distingui­da com um Prémio Carlos Pare­des... E só tem 30 anos!
Carminho – A partir do momento em que decidi que esta seria a minha vida, depositei toda a minha energia nisto, e por isso aconteceu tanta coisa em tão pouco tempo. A verdade é que me sinto muito orgulhosa, sinto que é fruto de um trabalho de grande exigência, de grande perfeccionismo, mas também de uma grande equipa. É um trabalho de várias pessoas, mas primeiro meu e do meu produtor, Diogo Clemente, que produziu todos os meus discos, que conseguiu materializar e pôr em prática o som onde me revejo, aquilo que sou como artista.
– O Diogo Clemente é também seu marido. É uma parceria que funciona tanto a nível profissional como pessoal...
– Até hoje tem feito sentido trabalharmos juntos, não quer dizer que tenha de ser sempre assim. Temos descoberto coisas novas e, como temos algo novo para oferecer, tem feito sentido continuar. Daqui para a frente não sei o que vai acontecer. A nível pessoal, é a vida normal das pessoas que estão casadas.
– Conseguem ter uma vida normal em casa e deixar o trabalho à porta?
– Nós trabalhamos muito bem juntos, com grande profissio­nalismo. O Diogo, além de ser o produtor e diretor musical dos meus concertos, é meu músico, mas assim como outros o são, isto é uma equipa, por isso, não existe uma grande diferença entre ele e qualquer outro músico. Sabemos separar perfeitamente tudo isso, e ainda bem que assim é, porque só conseguimos chegar a um resultado profissional com a qualidade a que nos propomos se nos soubermos focar.
– Algumas pessoas dizem que não é fácil trabalhar ao lado do cônju­ge, pelo muito tempo que têm de passar juntos e pela diferença de opiniões. O vosso caso é o oposto?
– O trabalho tem sido um ponto de grande convergência, porque o Diogo também é um artista, tem o seu talento e também tem de se rever no trabalho que vai fazendo. E é importante que estejamos em concordância ar­tística, e isso sempre aconteceu, porque soubemos olhar um para o outro como artistas. E eu consigo olhar para ele como um artista independente da pessoa que ele é na minha vida pessoal. Mas sem dúvida nenhuma que é a pessoa que melhor me conhece e consegue perceber, com muito menos trabalho, o que é pretendido, por isso tem feito sentido ele produzir os meus discos. Não quer dizer que isso vá continuar a ser necessariamente assim. É uma vontade nossa, que o meu trabalho e o dele vão potencialmente ao melhor que se possa; quando estagnar, haverá outro caminho.
– Consegue separar mesmo as águas...
– Tem de ser. Tudo isto é um compromisso de liberdades, de deixar o outro ser livre na sua arte, porque somos ambos artistas.
– Casou há mais de um ano. Os filhos fazem parte dos planos?
– Quase todas as mulheres têm, a determinada altura da vida, o sonho de serem mães e eu também tenho esse sonho. Para já, acabei um disco e estou a crescer em termos profissionais.
– Os seus pais não a pressionam para ter filhos?
– Não. Tenho muito boas pessoas à minha volta, que me compreendem e entendem o meu trabalho, o lado bom e o mau dele, como as ausências... Nem toda a gente consegue compreender isso. Há pessoas que não compreendem, por exemplo, porque é que eu, quando venho de uma viagem, não vou a correr ter com elas. Não consigo, às vezes preciso de dormir, preciso de cumprir outros compromissos associados ao meu trabalho.
– Nesse sentido, ajuda estar casada com alguém do meio...
– Se o Diogo não fosse do meu meio, seria muito complicado compreender a minha vida, as exigências da minha profissão. Conheço pessoas da mesma área que partilham comigo como por vezes se torna tão complicado estar sempre a viajar.
– Onde é o seu refúgio? Onde consegue fugir do trabalho, uma vez que é casada com o seu pro­dutor e passa grande parte do seu tempo a viajar?
– A minha mãe, o meu pai, a minha família... Tenho uma família grande, por isso, quando me encontro no meio deles tenho a sorte de ver muita gente, de ouvir as histórias deles, quero saber o que se passa nas vidas deles. O meu refúgio é, sem dúvida, a minha família e os meus amigos. A cidade de Lisboa também, por­que estou tantas vezes longe que estar aqui tornou-se um conforto, sinto-me em casa. E eu sou muito caseira.
– O seu bairro é Campo de Ourique, onde ainda moram os seus pais...
– Sim, e quando lá vou faço a mesma rotina que eles, almoçamos, vamos ao mesmo café... Esses hábitos, que para eles são iguais todos os dias, para mim são reconfortantes. Ainda no outro dia, quando cheguei a casa depois de vários dias de viagem, a minha perguntou-me logo: “Então, vamos descontrair para onde? Para o café do Sr. António, ou vamos ali à loja x?” Isto porque a simples ida à tabacaria comprar uma revista é descontrair, é agradável, é quase empolgante.
– E depois, quando se vê nessa mesma revista que foi comprar, também é empolgante?
– [risos] Isso aí já não é tão empolgante!
– Porquê? Está cansada disso?
– Não, acho um privilégio. Poder ter voz, poder dizer coisas às pessoas, ter essa oportunidade é mesmo um privilégio de poucos. Nunca é demais pensar que isto não cai nem do céu nem é tudo fruto do meu próprio trabalho, agradeço a muita gente e a uma conjuntura que, às vezes, nos surpreende, que é fruto da empatia com pessoas, e isso não podemos prever ou premeditar. Mas podemos sonhar, e eu sonho imenso, e quanto mais sonho, mais se realiza. Acho que as realizações dos sonhos são proporcionais à quantidade de sonhos que vamos tendo. Tenho imensas expectativas no futuro e isso faz de mim uma pessoa mais feliz e agradecida com o que me vai acontecendo, mas pensando sempre que tudo é possível. E procuro nunca me esquecer de onde venho, nem que tudo isto pode um dia desaparecer. Tu até podes criar uma grande obra, mas isso não vai fazer de ti uma grande pessoa. Já o contrário é muito mais provável.

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