Nas Bancas

Miguel Guedes: “Fazer só uma ou duas coisas nunca me preencheu”

O jurista, vocalista da banda Blind Zero e comentador desportivo nuna tinha feito uma produção fotográfica deste género. Foi 'one shot', como nos disse. 

Inês Neves
31 de janeiro de 2015, 16:00
Uma atividade profissional não basta a Miguel Guedes. “Sou um bocado work­aholic”, justifica. Além de ser formado em Direito, Miguel é músico, compositor e vocalista da banda Blind Zero, é diretor da GDA (Gestão dos Direitos dos Artistas intérpretes e executantes), é cronista e comentador desportivo e jurado do programa Factor X, na SIC. Cioso da sua privacidade, o músico nunca tinha feito grandes produções fotográficas, por isso, este trabalho, feito na sua terra, no Porto, foi especial.
– Disse que nunca soube bem o que queria fazer na vida. É por isso que faz tanta coisa?
Miguel Guedes – Acho que sempre disse isso porque queria fazer muita coisa e gosto de acabar tudo aquilo que me proponho fazer. Fazer uma ou duas coisas nunca me preencheu, por isso fui sempre arranjando várias para fazer. E gosto muito de tudo o que faço, nunca fiz nada por obrigação ou interesse. E agora apareceu o Factor X e sinto-me mui­to envolvido com o programa, nunca pensei fazer uma coisa do género.
– E aceitou porquê?
Para além do formato, o que me levou a aceitar este desafio foram as pessoas que participam nele, conheço uns jurados há mais tempo que outros, mas tenho ótima opinião sobre todos. Somos um grupo de amigos que tem as suas picardias normais na defesa dos seus concorrentes, aliás, acho que somos o grupo de jurados mais felizes em conjunto da história dos últimos programas de música em Portugal. Damo-nos todos muito bem e é uma amizade que fica para sempre, já demos provas disso uns aos outros. O que me levou também a aceitar fazer parte deste programa foi uma boa oportunidade para tornar os Blind Zero mais visíveis num ano em que comemoramos 20 anos de percurso. Estamos a querer comemorar também esse marco com o disco Kill Drama 2 – vamos pegar no último disco Kill Drama e convidar pessoas do nosso percurso e revisitá-lo todo com duetos.
– Mas ponderou bem, sei que recusou outros convites.
O Factor X é a primeira grande dúvida que se instala em mim em termos profissionais. Eu quero fazer, mas será que sou capaz? Nunca fiz entretenimento na vida, faço coisas de debate, de oposição, enfim, mas sou músico, tenho 20 anos de percurso com os Blind Zero, hei de ter alguma coisa para ensinar, ou será que não consigo passar o que sei? 
– Em 20 anos de carreira deve ter algo para ensinar...
Sim, mas nunca fui professor, nunca ensinei nada a ninguém propositadamente. E o mais engraçado desta experiência, além de estar a trabalhar com pessoas de muito talento, é que estou mesmo muito envolvido e aplicado nas minhas ‘miúdas’. E cheguei à conclusão que, de facto, consigo passar alguma coisa destes 20 anos, foi bom perceber que não serviram só para mim. De alguma forma, estão a servir também para elas.
– Os receios acabaram?
Há outros. Por exemplo, perguntava-me se seria capaz de ter uma imagem televisiva neste campo, já que em debates políticos ou desportivos sou muito acirrado. De repente, a opinião das pessoas é muito positiva e isso enche-me de satisfação. Consigo mostrar um lado mais sorridente, mais empático, porque no Factor X não estou contra ninguém nem a debater ideias, estou lá para gostar, eu quero gostar do que me aparece à frente, seja da minha categoria ou das outras. Acho que estou muito eu, num lado mais divertido, mas também assertivo. Estou a viver uma experiência muito feliz.
– Estava à espera deste mediatismo? O programa deu-lhe outra visibilidade...
Sim, é um mediatismo diferente. Tenho a banda há 20 anos, faço um programa de rádio sobre futebol há dez, faço o Trio de Ataque há três ou quatro, e a verdade é que isto me deu outra visibilidade. A televisão é voraz, pode ser algo que te tira a carne em três tempos e te expõe ao osso e, nesse sentido, é um meio, por vezes, perigoso. Eu tenho e sempre tive uma enorme reserva da vida privada, da qual não abdico... E este grau de exposição, como nunca deixei de ser eu, não me faz confusão nenhuma. No futebol há muita heterogeneidade de público, com os Blind Zero também temos muita gente de diversas idades e classes a gostar ou não de nós, mas com o Factor X esse leque abriu-se. É uma experiência muito engraçada, porque hoje em dia, quando me abordam na rua, não sei se me estão a felicitar pelo futebol, pela banda ou pelo programa, tenho sempre de perguntar.
– O programa implica uma ‘correria’ semanal entre Lisboa e Porto, onde vive...
É verdade. No domingo tenho a gala, se­gunda já estou a voltar para o Porto a fazer a síntese da gala pelo caminho, na terça escolho as músicas das duas galas seguintes, na quarta fecho o back in track, os playback e escolho os cortes das músicas com a produção, na sexta volto a Lisboa para os ensaios e ainda regresso ao Porto, onde afino os últimos toques da gala por telefone, guarda-roupa, coreografias, por aí, e domingo regresso. Tem sido assim nos últimos meses. Entretanto, também vou fazendo todas as outras coisas que tenho para fazer.
– É mesmo uma correria...
Depois nota-se, claro, estou quase pele e osso. Em termos mentais e físicos é muito exigente, devido às viagens, ao desgaste, ao dispêndio emocional e ao tempo que implica.
– No meio disso tudo, alguma coisa deve ‘ceder’. Como fica a família? Tem um filho...
A minha família tem reagido muito bem. Numa vida tão exposta como a que tenho, há coisas que guardo para mim, que preciso de guardar para mim, a reserva da minha vida privada e íntima, da qual nunca abri mão. Nunca houve uma reportagem feita em minha casa sobre o que quer que seja, o que fiz para a CARAS nesta produção de fim de ano foi one shot divertidíssimo, pois foi um ano especial para mim e resolvi também fazer uma coisa especial. Deu-me muito gozo, mas foi claramente uma nota diferente de tudo o que já fiz na vida, uma desconstrução da minha realidade. Gosto imenso de fazer one shots, coisas que não voltarei a fazer. Este foi o meu brinde a 2015, tendo em conta que tive um ano tão especial e feliz.
– Mas é incontornável perguntar-lhe como é que arranja tempo para a família no meio de tanto trabalho.
Nesta altura há um enorme sacrifício de quem está mais próximo, da família e dos amigos. Fisicamente estou mais distante, mal me veem, é verdade, mas percebem que são meses de maior exigência. Contudo, estão a gostar do trabalho e vivem também um bocado essa experiência comigo. Sobretudo mentalmente sinto que sou um bocadinho zombie, por vezes. Sou um bocado workaholic e gosto de fazer coisas diversas e este é o preço a pagar, mas não conseguiria pagar este preço para sempre. Estou com muita vontade de ganhar tempo para mim, também preciso.

Comentários

ATENÇÃO: ESTE É UM ESPAÇO PÚBLICO E MODERADO. Não forneça os seus dados pessoais (como telefone ou morada) nem utilize linguagem imprópria.

Nas Bancas

Newsletters

Receba grátis no seu email as notícias, as últimas caras!

Caras Nas Redes

Mais na Caras