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Mercedes Balsemão: “É preciso ter esperança no ser humano”

Presidente e cofundadora da SIC Esperança. Mercedes Balsemão diz que os portugueses são generosos e respondem bem a campanhas de ajuda, mas defende que deve existir um maior espírito de solidariedade enquanto dever cívico e não apenas em atos pontuais. 

Cláudia Alegria
25 de janeiro de 2015, 14:00
Fala sobre causas sociais com a segurança de quem lida diariamente com instituições que lutam para oferecer melhor qualidade de vida a cidadãos a quem a vida não tem sorrido. Na qualidade de presidente da SIC Esperança, Mercedes Balsemão tem conseguido testemunhar momentos de alegria através dos vários projetos apoiados por aquela Instituição Particular de Solidarie­dade Social (IPSS), que em outubro último comemorou 11 anos de existência.
Ao longo do último ano, e como forma de celebrar uma década de existência, a SIC Esperança desenvolveu a campanha “10 anos 10 ideias” com o objetivo de incutir mudanças simples e positivas no dia-a-dia dos portugueses em áreas como o ambiente e a tecnologia. Casada com Francisco Pinto Balsemão, mãe de dois filhos e avó de quatro netos, Mercedes Bal­semão é licenciada em Ciências Sociais pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, foi presidente da associação Novo Futuro, é vice-presidente da Delegação da Costa do Estoril da Cruz Vermelha e recebeu a CARAS para nos falar do seu trabalho “ totalmente voluntário”, como frisa, à frente da SIC Esperança.
– Passaram 11 anos desde a criação da SIC Esperança. Se inicialmente tiveram alguma dificuldade em encontrar parceiros que apoiassem os vossos projetos, agora são as empresas que vos contactam a perguntar como é que se podem associar...
Mercedes Balsemão – Sim. É sinal que as empresas se preocupam com a responsabilidade social. No caso da SIC Esperança, trata-se de uma IPSS com características muito específicas que não existe em nenhum outro grupo de media português. A nossa ideia foi utilizar os meios de comunicação – televisão, revistas, jornais e conteúdos – para apoiar causas sociais e angariar fundos. Há dez anos, a solidariedade ainda era olhada com certo paternalismo e também alguma desconfiança, as pessoas nunca sabiam para onde ia o dinheiro que davam. Para nós, é essencial que todo o processo – desde a doação até à atribuição das verbas – seja feito com total transparência. É essa a razão pela qual, como já deve ter notado, falamos em projetos e não em instituições. Poderíamos limitar-nos a dar as verbas a instituições, a IPSS que certamente fariam bom uso delas. Mas nós defendemos que há que prestar contas dos euros que nos foram entregues. É uma questão de accountability, de que tanto se fala, mas nem sempre se pratica. Por isso, é essencial certificarmo-nos de que os projetos estão a ser levados a cabo de acor­do com o planeado. Acompanhamos a sua implementação e esta forma de atuar tem também o efeito de credibilizar a solidariedade e responsabilizar as instituições.
– Já apoiaram mais de 550 campanhas de cariz humanitário, desenvolveram parcerias com 128 empresas, beneficiaram cerca de 40 mil pessoas e continuam sem ter mãos a medir...
Exatamente. Somos uma equipa pequena e são projetos cada vez mais ambiciosos que fazem, de facto, a diferença na qualidade de vida das pessoas a quem se destinam, que é uma das nossas preocupações. Neste momento, graças ao Movimento Mais para Todos, vamos dispor de verbas importantes que nos permitirão apoiar dezenas de projetos, o que é ótimo, pois essa é a nossa missão.
– A nível pessoal, também deve ser muito compensador perceber que está a contribuir para melhorar a qualidade de vida de outras pessoas?
É compensador, sim. É tornar menos dura a vida daqueles que já têm muito pouco. Infelizmente não se pode acorrer a todas as solicitações e também acontece termos de optar por um projeto em detrimento de outro, o que não é fácil.
– Porque tem de rejeitar projetos igualmente válidos e merecedores? 
Sim. Muitas vezes penso nisso, na responsabilidade que temos entre mãos de, através de um determinado projeto, poder mudar destinos, quebrar ciclos de pobreza, proporcionar oportunidades...
– Sente que mudou enquanto pessoa por estar envolvida nestas causas?
Todos nós mudamos, nunca ninguém permanece igual.
– Certamente que não, mas por estar envolvida nestas causas em particular...
Acho que, se calhar, estou mais atenta ou mais sensível. Olho para as coisas sob um prisma um pouco diferente, isso sim, embora esteja envolvida em causas sociais e faça trabalho de voluntariado na área social desde os tempos de liceu.
– Acha que os portugueses são solidários?
Os portugueses são generosos. Ser solidário é uma atitude, é, no fundo, assumir que vivemos numa sociedade em que todos temos deveres uns para com os outros, e esse tipo de solidariedade não existe muito. Mas, por outro lado, respondem com entusiasmo a campanha específicas. No Natal, por exemplo, as pessoas são mais solidárias ou  quando há tragédias, há uma boa resposta aos apelos de ajuda. Os portugueses são generosos, compadecem-se com as desgraças dos outros, mas em atos pontuais. A solidariedade é a tal atitude de civismo que ainda não faz parte do nosso ADN. Os portugueses acham sempre que têm mais direitos do que deveres e obrigações. 
– Há que educar as novas gerações?
Sim, e eu acho que isso vai mudar. Já está a mudar. O objetivo é que a solidariedade se torne cultura.
– Conseguiu transmitir essa vontade de ajudar os outros aos seus filhos?
Eles sempre fizeram trabalho voluntário. Desde dar comida aos sem-abrigo ou a doentes com sida, houve sempre essa cultura, essa vontade, e nunca foram forçados a fazê-lo.
– É preciso ter esperança em quê?
É preciso ter esperança no ser humano e nas suas potencialidades, que nem sempre são aproveitadas da melhor maneira.
Agradecemos a colaboração de: Museu Condes de Castro Guimarães

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