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Margarida Rebelo Pinto: “A vida é sempre mais forte do que o amor”

Separada de Afonso Vilela, a escritora lança o livro ‘Os Milagres Acontecem Devagar’, onde fala de segundas oportunidades.

Andreia Cardinali
20 de dezembro de 2014, 10:00
Autora de alguns dos livros mais lidos em Portugal, Margarida Rebelo Pinto escreveu 20 obras em 15 anos e já vendeu mais de um milhão de exemplares. Aos 49 anos, vive uma fase de mudança: o filho, Lourenço, de 19 anos, foi viver para Londres, e entretanto terminou a relação com Afonso Vilela. Diz que acredita que “os milagres acontecem devagar” e por isso escolheu esse título para o seu mais recente romance, mas garante que em nada esta história retrata o que viveu com o manequim e ator. Fala, sim, sobre a esperança nas segundas oportunidades, sobre reveses e desilusões, mas também sobre o amor e as limitações de cada um numa relação.
– Em que é que este livro diverge dos anteriores? 
Margarida Rebelo Pinto – Este livro tem, à semelhança do Sei Lá e do Não Há Coincidências, diálogos divertidos e situações irónicas, com um tom trocista. E quem gostou do Cartas de Amor e dos meus últimos livros mais introspetivos também vai encontrar isso.   
– E tem um lado autobiográfico? 
Não. Este livro tem a história emprestada de uma grande amiga misturada com as de dois amigos meus. Os meus livros vão sendo cada vez menos autobiográficos. 
– Isso quer dizer que a inspiração surge em qualquer lado? 
Sempre, sou uma “caça-histórias”. Em todos os meus livros parto de um conceito e neste parto da questão de como se vive o amor depois dos 40. Achamos que escolhemos mais, mas nem sempre escolhemos melhor... ou seja, as pessoas trazem um porta-aviões de coisas para as relações: casamentos que correram mal, filhos... Depois, é preciso encaixar a bagagem de cada um para que ambos se entendam. Também é preciso quererem as mesmas coisas e aos 40 as pessoas já têm muitos vícios de individualismo, já não têm muito tempo nem paciência para investir numa relação e o mundo não está para as relações. Ao mínimo problema as pessoas desistem, ou porque estão cansadas, ou porque há muita oferta... Há cada vez mais mulheres sozinhas que avançam sem medos para os homens que estão disponíveis. Cada vez mais os papéis estão invertidos. As coisas estão a mudar muito depressa... Tenho um filho com 19 anos e essa geração lida com o amor de forma muito diferente.  A geração Disney, o “felizes para sempre”, acabou com a minha geração. 
– É aí que os milagres demoram a acontecer? 
Claro, os milagres demoram muito tempo porque as pessoas demoram muito tempo a conhecer-se e a adaptar-se, demoram muito tempo a crescer, a decidir o que é melhor para elas... 
– Essas dificuldades que referiu também as viveu? Ou escrever sobre elas evita que cometa esses mesmos erros? 
É claro que tudo o que me vai acontecendo serve de material de reflexão, até para compreender a condição humana e perceber que de facto os homens são mesmo diferentes das mulheres. Os homens estão muito habituados a ter a sua vida, o seu espaço, o seu tempo, os seus amigos e a esperar que a mulher de quem gostam se encaixe nisso e as mulheres também já não estão para serem encaixadas, pois também já têm os seus tempos e o seu espaço. Ou aquilo são duas peças de um puzzle complexo que ambos querem que encaixe, ou então a vida acaba por fazer com que cada um siga o seu caminho. A vida é sempre mais forte do que o amor, mas quem manda nisto é o tempo. O tempo é que decide se as pessoas ficam juntas ou não. 
– Fica triste por chegar aos 49 anos e ter ‘falhado’ mais uma relação? 
Não, acho que hoje em dia é muito difícil ter uma relação e mantê-la. Às vezes não tem a ver com falta de amor, mas sim com algumas incompatibilidades... As vidas nem sempre se encaixam. Não me entristece porque, para já, fica uma fortíssima amizade, depois, porque sempre me realizei muito como mãe, tia, filha, irmã... Adoro o meu trabalho, sou muito feliz com a minha vida. Além disso, já apanhei uns sustos de saúde que me fazem olhar para a vida com imensa bonomia. Espero sempre o melhor e tenho essa atitude em relação a tudo. E isto é um escudo, porque mesmo quando a vida me desilude, espero sempre o melhor. 
– Referiu anteriormente que as pessoas não têm poder de encaixe. Isso fá-la desacreditar do amor? 
Não. As pessoas amam como podem e não como querem e quando as relações não resultam, ambos ficam com pena. Há um esforço, um investimento e umas vezes as coisas resultam, outras não, mas não há propriamente uma necessidade de atribuir culpas. Não há magoa ou zanga. Tem a ver com estilos de vida. Numa relação pode acontecer tudo, nunca se sabe... Uma pessoa só tem de entrar de coração aberto, dar o melhor e esperar o melhor. E há que pensar que cada relação é única e não se pode transportar falhas ou erros de uma para outra. Assim como quando acaba uma relação amorosa tem de haver um período de luto para depois se entrar numa relação de amizade.  
– Entretanto, o seu filho está a viver em Londres. Como lida com isso? 
É difícil, porque ele viveu sempre comigo. O Skype ajuda muito e ele está perto, é fácil estarmos juntos. Há que perceber que os filhos são para se ir largando, temos de lhes dar ferramentas para que eles sejam  autónomos. Sempre tivemos uma relação espetacular... Ele é um artista, está a estudar música e é lá que está feliz. É como digo neste livro, o amor não é o que sentimos por uma pessoa, mas sim o que somos capazes de fazer por ela. Claro que se eu fosse uma mãe egoísta não teria mandado o Lourenço para Londres.

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