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Luís Cabral: “Um irmão é o melhor presente para se dar a um filho”

O médico ginecologista e obstetra recebeu Rita Ferro na sua casa, na companhia da mulher, filhos e netos.

Rita Ferro
14 de dezembro de 2014, 12:00

Luís Casal Ribeiro Cabral, segundo filho de uma família de 13 irmãos, casado com Maria Madalena de Castro Caldas Cabral, pai de sete e avô de 18, com dois novos netos a caminho, é o convidado de Rita Ferro desta semana. Tem 68 anos e é encantador. Ginecologista e obstetra em exercício, foi parteiro de “meia Lisboa”, tendo feito mais de 12 mil partos. Fez o serviço militar em Cabo Verde, destacado como médico para as ilhas do Fogo e Brava, entre os anos de 1973 e 1975, onde acompanhou o 25 de Abril e o processo de independência do arquipélago. Apesar da vida cheia, arranja tempo para tudo: jogar ténis, andar de bicicleta, ler, presidir à APFN (Associação Portuguesa das Famílias Numerosas) e à Associação Coração Amarelo, onde faz ainda trabalho de voluntariado. Recebeu-nos na sua casa de Caxias, com a mulher e a prole quase completa: 28 pessoas, incluindo noras e genros. Faltou o filho mais velho, Miguel, ordenado sacerdote recentemente. A casa cheia não foi excepção: todos os domingos o encontro se repete, infalivelmente, para alegria de três gerações.
– Estive a observar a sua mulher, sempre tão atenta, orgulhosa e feliz. O termo ‘retaguarda’ ainda faz sentido?
Luís Cabral – Sim, embora no meu caso seja uma presença constante mais ao meu lado que na retaguarda. Tem sido um apoio e um estímulo não só para mim como para toda a família, e seria impossível manter este ambiente familiar sem a sua disponibilidade e abertura. Os nossos almoços de domingo são preparados como se fosse uma festa, e a minha mulher tem sempre a preocupação de fazer com que todos se sintam bem e gostem da comida. O mais ha­bitual é uma feijoada, mas, no verão, são almoços mais leves. É uma mulher, uma mãe e uma avó (e uma sogra) adorada por todos.
– Foi parteiro dos seus filhos e netos?
– Não assisti aos partos dos meus filhos e netos e procuro nem sequer estar por perto, talvez porque tenho mais consciência das coisas inesperadas que podem acontecer. O meu terceiro filho nasceu quando eu já estava em Cabo Verde, na ilha do Fogo, e a família estava comigo, mas como os dois partos anteriores foram difíceis, e eu era o único médico, achei mais prudente que ele fosse nascer a Lisboa. Só o conheci no dia seguinte, e depois só voltei a vê-lo com mais de 1 ano de idade, porque entretanto fui para a ilha Brava que, na altura, não tinha aeródromo. Prefiro não tratar pessoas de família muito chegada porque poderia ocasionar alguma relação futura mais complicada, se alguma coisa corresse mal. Não tanto por não me sentir à vontade, porque quando calçamos as luvas esquecemos tudo o resto.
– Ter ajudado a nascer tanta gente trouxe-lhe, certamente, uma visão única da vida. Quer partilhar?
– Uma visão especial, talvez, mas também uma responsabilidade grande. Saber que ajudei tanta gente a nascer é muito gratificante apesar de durante muitos anos não ter podido dispor do meu tempo. Quantas vezes fui chamado de urgência depois de ter a família toda no carro para dar um passeio, quantas vezes vim do Algarve a correr, quantas partidas de ténis interrompidas, quantos jantares de Natal ou outros tive de interromper por chamadas para a sala de partos. Na altura em que não havia telefones móveis, as enfermeiras sabiam tudo da minha vida porque eu tinha que ir dizendo onde estava.
– Acontece-lhe chegar alguém a seu lado e dizer: “Foi o senhor doutor que me pôs no mundo”?
– Acontece com muita frequência e costumo dizer que estão mais crescidinhos. É sempre agradável o reencontro e vejo nos olhos deles que também sentem uma emoção especial. Também gosto muito de assistir no parto a quem já nasceu comigo. Posso dizer que já tenho dezenas de ‘netos’.
– É presidente da APFN, que tantas famílias tem ajudado. Que tipo de apoios políticos ou sociais falham ainda? Talvez surja algum desta entrevista...
– Quem sabe? As famílias numerosas são uma maravilha, mas na nossa Associação defendemos os interesses de todas as famílias. O que gostaríamos era de ver mais apoios na conciliação do trabalho com a família, já que as mulheres que têm filhos também gostam de exercer a sua profissão e fazer a sua carreira. Deveria haver mais creches, maior possibilidade de trabalho em tempo parcial, e as grávidas ou as mães com filhos pequenos deveriam ser mais apoiadas e nunca discriminadas no seu emprego e até na sociedade. Sociedade que agora se começa a preocupar com a baixa natalidade – a mais baixa da Europa. Talvez agora as famílias numerosas possam ser mais reconhecidas. Nunca pedimos benefícios, apenas que não sejamos prejudicados por ter mais filhos.
– Há uma bravura em famílias como a vossa, mesmo em casos de desafogo financeiro, que muita gente desconsidera...
– Existe uma economia de partilha, aprende-se a dar menos importância às coisas materiais e a dar mais valor à família. Um irmão é o melhor presente que se pode dar a um filho. Nas famílias numerosas, as tristezas dividem-se e as alegrias multiplicam-se. Solidão é uma coisa que tem muito pouca probabilidade de acontecer, seja qual for a idade.
– Sei que é católico, como encara o contraceptivo?
– Aquilo que a Igreja diz é uma referência e as referências são inflexíveis. Não mudam com os tempos nem com a vontade de maiorias ou minorias activas, nem para agradar a algumas pessoas. Aquilo que cada um faz é ditado pelas circunstâncias, pela sua consciência ou até pela obediência à doutrina. Como católico, concordo com o que a Igreja recomenda e quanto à utilização de anticonceptivos não me compete a mim julgar.
– A Associação Coração Amarelo apoia pessoas de idade em situações de solidão compli­cadas, é uma grande obra...
– Dedica-se ao combate à solidão que, infelizmente, é uma chaga na nossa sociedade e prolifera nos meios urbanos onde se perderam as relações de vizinhança e a família muitas vezes não existe ou está dispersa. Apoiamos pessoas que sofrem de solidão e que nos são referenciadas por diversas instituições, maioritariamente pessoas idosas, mas também pessoas mais novas que sofrem de doenças incapacitantes e não têm ninguém que as acompanhe. Fazemos um acompanhamento pelo menos semanal e organizamos eventos como passeios, colónias de férias, festas de Natal e outras. Acompanhamos as pessoas ao médico e procuramos criar um espírito de grupo para que se sintam menos sós.
– Sente uma felicidade extra em ajudar quem precisa?
– Claro que sinto, mas não o faço por essa razão e sim por um imperativo de consciência. É certo que se não o fizesse não me sentiria feliz, mas trata-se de uma consciência social e de ter a noção de que nem todos tiveram a sorte que nós tivemos. Viver em sociedade é isso mesmo, não é ficar indiferente ao que se passa à nossa volta.
– Muita gente em Portugal embarca neste sofisma irritante: se as pessoas não ajudam, são avarentas e egoístas. Se ajudam, brincam à caridade. Como reage?
– Devemos ter caridade e respeitar os outros mesmo quando têm essas opiniões. Quando fazemos as coisas, não estamos muito preocupados com o que os outros dizem ou pensam, apenas nos preocupamos em ajudar os mais necessitados. Não só no apoio individual, mas trabalhando em rede com outras instituições, procurando minorar o sofrimento dessas pessoas. Isto não nos impede, pelo contrário, incentiva-nos a lutar por uma maior justiça social.
– Viu acontecer o 25 de Abril longe de Portugal, ou seja, com distância. Outra óptica privilegiada. Que sente, 40 anos depois?
– Quando regressei de Cabo Verde, um ano após a revolução, achei tudo muito confuso, mas entretanto as coisas foram-se recompondo. Agora acho que vivemos num país moderno, maravilhoso como sempre foi, e não gostaria nada de o trocar por outro. As coisas não estão nem nunca estarão perfeitas, mas o nosso papel nesta vida é tentar melhorar e dar esperança aos mais novos. Como pai de sete filhos e avô de 18 netos sou claramente optimista como qualquer pai ou mãe de famílias numerosas. Se não acreditássemos no nosso país, e no futuro, nunca teríamos coragem para ter os filhos que temos.
Nota: por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico.

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