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Marta Aragão Pinto recorda os pais num emotivo relato autobiográfico

Escrito na primeira pessoa, o livro que Marta dedica aos pais, José Aragão Pinto e Joana Sampayo, é publicado a 10 de outubro, pela Esfera dos Livros.

Redação CARAS
19 de outubro de 2014, 10:00

“Será que a felicidade apenas existe nos intervalos da dor? A minha história também se pode contar assim.” Quem o diz é Mar­ta Aragão Pinto no seu primeiro livro, No Céu a Olhar por Mim, onde recorda as mortes da irmã, Rita, aos quatro meses, e as dos pais, Joana Vieira de Sampayo e José Eduardo Roquette de Aragão Pinto, também elas cedo demais. E fala com carinho do irmão, Ricardo, com o qual tem uma forte relação. Partilha também momentos do seu primeiro casamento, com o comissário de bordo Rodrigo Contreiras, e o nascimento das duas filhas desta união, Mónica e Vera, e conta ainda como conheceu Filipe Terruta, seu segundo marido e pai da sua filha mais nova, Joana. Um livro que será lançado a 10 de outubro e que a CARAS apresenta em pré-publicação.
A primeira vez que a morte entrou na minha vida.
Tinha quatro anos e esperava que os meus pais me viessem buscar, como faziam todas as tardes, depois do colégio. (...) Ouvi a voz do meu pai e soube logo que algo de muito grave se passava, porque a minha mãe não tinha vindo logo abraçar-me. Caminhava amparada pelo meu pai e eu senti que a minha barriga começava a doer. Tinha medo, mas não sabia exatamente do quê. Nunca mais me esqueci dos olhos deles, estavam vazios. Eram os meus pais, mas quase não os reconheci. (...) Foi a primeira vez que a morte entrou na minha vida, mas eu não sabia o que era a morte. Estranhei que a minha mana Rita, de quatro meses, não tivesse vindo com os meus pais. (...) No dia seguinte vi os meus pais desfeitos. Choravam abraçados e eu não sabia o que fazer. Ao mesmo tempo, continuava à procura da minha mana. (...) A minha mãe estava à porta, a preparar-se para sair, quando olhou para mim de uma maneira como nunca antes tinha olhado. (...) Disse-me que a minha irmã tinha ido para o Céu. (...) Tinha saudades da Rita, mas acima de tudo sentia falta da alegria dos meus pais.
Perdi uma irmã, uma amiga de sangue.
Quando a Rita nasceu, a minha mãe optou por colocá-la num infantário, em vez de dei­xá-la com os meus avós, como tinha acontecido comigo. A minha mãe pensou que assim não daria trabalho aos meus avós já cansados e que a Rita estaria também bem entregue. Não foi o que aconteceu. Um dia, depois de ter sido alimentada, não a puseram a arrotar como era necessário e a minha irmã acabou por sufocar. (...) Por causa do que aconteceu à minha irmã, nunca consegui deixar as minhas filhas numa creche. (...)
Os meus pais já não vivem juntos.
Quando o meu irmão nasceu, a minha mãe foi sozinha para o hospital. Estava tão serena... Lembro-me de a ver ao longe, a acenar atrás do volante do carro, enquanto se despedia de mim e dos meus avós. (...) Quando o meu irmão Ricardo nasceu, lembro-me de ver nos olhos da minha mãe uma paz que não sentia desde a partida da minha irmã. O meu pai estava em êxtase e eu senti que a nossa família estava completa. (...) O amor entre os nossos pais era uma certeza, era esse tipo de amor que também queria encontrar, agora que entrava na idade adulta. E agora diziam-me que esse amor já não existia? (...) O divórcio dos meus pais foi a primeira vez em que me senti verdadeiramen­te infeliz. Não soube lidar com tantas emoções, a dor da minha mãe, a distância do meu pai, a mudança radical nas nossas vidas. (...) Apesar da separação dos meus pais ter sido amigável e de continuarem a falar, eu não conseguia encontrar paz.
O Ruca era o príncipe que todas as meninas sonham encontrar.
Apaixonei-me pela sua personalidade [Rodrigo Contreiras], que era um misto de ingenuidade e timidez com a segurança de quem sabia o que queria (...) Era descontraído e encarava a vida de uma forma nada complicada, o que me atraía, principalmente pela fase que estava a viver. Para além de todas estas qualidades, era ainda um cavalheiro e tratava-me como uma princesa. E era mesmo muito bonito... (...) Devo-lhe muita da paz que encontrei e de que precisava nesses tempos conturbados pós-divórcio dos meus pais.
Um tumor na cabeça. Não operável.
Tinha acabado de casar e estava grávida de sete meses. Os dias decorriam tranquilos e eu aproveitava finalmente essa paz. (...) Até ao dia em que recebi um telefonema que me fez regressar a um sítio muito escuro onde já tinha estado e não queria regressar. – Os exames indicam um tumor. Mas pode ser operado e tudo vai ser resolvido rapidamente – dizia-me a minha mãe, a fingir despreocupação. (...) Sentia-me angustiada. Acreditava que tudo ia correr bem, mas esses dias de espera pelo resultado dos exames tinham-me deixado nervosa e não estava à espera de ouvir a palavra “tumor”. Nunca estamos, não é? (...) A boa notícia chegou na manhã seguinte. A cirurgia tinha corrido bem. (...) Tinham descoberto um novo tumor à minha mãe, desta vez nos pulmões. Não consegui ficar tranquila. (...) Foi também durante as férias que finalmente revelei o segredo da minha segunda gravidez. A mãe encontrou nessa notícia mais um motivo para continuar a lutar. (...) Durante a gravidez da minha filha Vera, a mãe começou a queixar-se de dores de cabeça frequentes. Sentia a vista cansada e estava preocupada com estes sintomas. (...) Após mais alguns exames a notícia que recebemos foi como o explodir de uma bomba. Um tumor na cabeça. O terceiro tumor. Mais um. Não operável.
Porque é que perdi a minha mãe, o meu pilar?
Não tinha dúvidas de que a minha mãe iria recuperar. As mães não morrem assim... (...) De manhã, o telefone tocou. Era o meu tio Xixo. A partir desse momento o tempo começou a andar mais devagar. Não ouvi as palavras que tanto temia, mas não foram necessárias. (...) Passei pelas minhas filhas sem parar e fui até ao quarto, onde me abracei ao Ruca. Chorámos os dois durante muito tempo e, quando ele saiu, tranquei-me no quarto e fiquei a ouvir o mundo lá fora a continuar sem a minha mãe. Estava desesperada. Uma parte de mim morria também. (...) Esses primeiros trinta dias, passei-os a chorar, abraçada ao Ruca e a tentar ser a melhor mãe possível para as minhas filhas.
O Ruca fazia cada vez menos parte da minha vida e eu da dele.
Quando apoiei o Ruca para investir numa carreira que nos afastaria fisicamente, não o fiz consciente de que ficaríamos igualmente distantes na nossa relação. (...) Houve um momen­to em que me apercebi de que a minha vida se resumia às minhas filhas e a um grupo de amigos com quem passava todo o meu tempo livre. (...) O Ruca fazia cada vez menos parte da minha vida e eu da dele. Habituei-me, sem mágoa, a não contar com o meu marido, e ele habituou-se a chegar a casa e a contar-me histórias das quais eu não fazia parte. (...) Eu e o Ruca apercebemo-nos deste afastamento silencioso que estávamos a viver. Eu tentei negá-lo, fingir que não o via, mas ele estava lá. E o fosso entre nós os dois era já impossível de ignorar.
Rezava por um milagre, sem saber que o meu pai já tinha partido.
– O que aconteceu? – per­guntei, aflita. – Estamos à espera de uma ambulância, porque o teu pai se sentiu mal – respon­deu-me, com uma sombra a escurecer-lhe o olhar. (...) Rezava por um milagre, sem saber que o meu pai já tinha partido. O meu pai morreu, deitado na sua cama, vítima de um ataque cardíaco fulminante. (...) Percebi que não tinha sido possível salvar o meu pai. (...) Alguma coisa estava muito errada na minha vida. O meu pai era imortal. Invencível. O meu pai nunca me abandonaria. (...) O meu irmão não podia ficar sozinho. Como irmã mais velha tinha agora a obrigação de cuidar dele, de tomar o lugar dos meus pais e de o apoiar e orientar. (...) Só nos tínhamos um ao outro.
O Filipe encontrou-me quando eu me sentia perdida.
Foi o Ruca a primeira pessoa a quem contei sobre o namoro com o Filipe. (...) Não foi um início de relação fácil. (...) O Filipe nunca tinha sido casado, não tinha filhos. Como reagiria a uma mudança tão drástica na sua vida? Mas foi precisamente o Filipe que me calou todos os medos. (...) O teste, e uma posterior consulta no médico, confirmaram a boa notícia. Estava grávida. (...) E eu, eu não teria os meus pais no hospital, ansiosos e nervosos por conhecerem o novo membro da família e prontos para o inundarem com todo o amor que sempre tiveram e demonstraram pela Mónica e pela Vera. (...) A Vera e a Mónica, minhas filhas, ficaram eufóricas com a notícia. Falavam com a minha barriga e ajudaram-me a preparar a chegada do bebé... que desejavam que fosse uma menina. E era. Foi nesta altura que aconteceu um momento muito emotivo e que me garantiu que tinha acertado ao deixar o Filipe entrar nas nossas vidas. As minhas filhas perguntaram se, com a chegada da irmã, poderiam também chamar “pai” ao Filipe. Hoje fazem dois presentes no Dia do Pai na escola, e passaram a ter também dois pais nas festas do colégio. Tenho a certeza de que são duplamente abençoadas. (...) Até que o Filipe sugeriu que lhe chamássemos “Joana”, o nome da minha mãe. Tinha sentimentos estranhos em relação a essa opção. (...) Quando a Joana nasceu, sabia que tinha ao meu lado os meus pais e a minha irmã Rita. Sempre os senti muito perto, principalmente nas alturas em que mais precisava da sua proteção.(...) O amor, a paz e a tranquilidade tinham voltado às nossas vidas.
As minhas filhas são abençoadas por terem dois pais que as amam.
Desde que a Joana nasceu que a Mónica e a Vera se assumiram como as suas pequenas mães. (...) Tratam-se com muito carinho e estão sempre preocupadas umas com as outras. (...) O Ruca ‘adotou’ a Joana como se fosse outra filha. Sempre que vem buscar a Vera e a Mónica, leva a mais nova também. Quando há festas de aniversário, elas podem sempre contar com os dois pais, (...) podem contar com o apoio e o amor do Ruca e do Filipe. Por isso, para as minhas filhas, não existem distinções. A Joana, a Vera e a Mónica têm um amor incondicional pelo Filipe e pelo Ruca, sabem que são abençoadas por terem dois pais que as amam e que as tratam sem qualquer tipo de diferenciação. A Mónica e a Vera sempre foram filhas do Filipe e ele até fica ofendido quando alguém tenta impor uma diferença entre elas e a Joana. O Filipe tem três filhas e ponto final. 

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