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Manuel Arouca: “Morreu o sonho de um mundo melhor”

O autor e argumentista foi fotografado em casa com a mulher, Cristina, e os filhos, Carmo, Diana e Domingos.

Rita Ferro
9 de novembro de 2014, 16:00

Manuel Arouca, 59 anos, escritor e autor de argumentos para televisão, publica, 40 anos depois, a sequela d’Os Filhos da Costa do Sol,  estrondoso êxito de vendas nos anos 80, mantendo o nome e acrescentando o subtítulo A nova geração. Ambos os livros, marcadamente separados no tempo, abordam as adolescências de um grupo de rapazes e raparigas de determinado meio social, retratadas primeiro nos anos 70 e depois nos dias de hoje. Na reportagem, o autor aparece com a mulher, Cristina Figueiredo Arouca, e os filhos, Carmo, de 14 anos,  Diana, de 21, e Domingos, de 20, este último colaborador do pai neste novo tí­tulo. Receberam-nos com grande alegria e naturalidade na sua casa do Estoril, onde o escritor bebeu um chá com Rita Ferro e falou do seu regresso ao romance.
– Quando, há 40 anos, escreveste Os Filhos da Costa do Sol, havia visão crítica ou apenas um retrato sem ironia nem julgamento?
– Havia uma visão muito crítica, um retrato não com julgamento, mas para muitos considerado impiedoso; reconheço que não havia ironia, porque penso que por natureza não sou muito irónico. Mas há um aspecto que não posso esconder, havia uma necessidade em mim de provocar e o livro, para muita gente, foi muito provocador. A minha mãe, no seu meio social, sofreu por isso. Mas nunca deixou de me defender. Grande mãe.
– Querias denunciar alguma coisa ou, pelo contrário, acarinhar uma época?
– Queria contar a história da minha geração com todos os seus sentimentos e contradições, com noção de que era uma época muito especial, como a História veio provar. A pergunta é muito interessante, porque há por um lado o desejo, mais do que de denúncia, de crítica social, e por outro há um carinho muito grande por tudo o que envolveu a nossa geração dos anos 70. E escrever com paixão e sentido crítico traz bons frutos.
– Sabe-se de que meio social se tratava; o que o distingue das outras tribos?
– O dinheiro, a aparência, a hipocrisia, a marginalização so­cial, muita falsidade, o medo de se ser ridículo... esta é uma tribo que por detrás de um sorriso, de um gesto fino, de uma educa­ção extrema, pode ter um pensamento tipo “não interessas a ninguém, não me faças perder mais tempo”, há muito vezes um cinismo refinado, o cinismo caviar.
– A revolução, entre outras coisas, fez-se para exterminar aquele padrão de vida despreocupado, fácil e snobe. Conseguiu?
– À época conseguiu, e de que maneira... Mas tudo voltou, com uma nova classe emergente e em muitos aspectos bem pior, com menos princípios e valores. Mesmo assim, nos tempos da ditadura, isto era realmente uma coutada de muito poucos, mas reconheço que havia mais discrição, menos exibicionismo.
– Que resistiu aos anos nas casas e nas famílias da chamada ‘classe alta’?
– Aquelas famílias onde, sem pudor, incluo a minha – com pouco dinheiro, mas com o chama­do berço – que foram sempre coerentes. Não perderam o carác­ter, porque havia bons valores que resistiram; mas a maior parte foram e são maus exemplos. E nós estamos a assistir a isso ao vivo. Estes novos filhos da Costa do Sol como que prenunciavam isso.
– Era uma adolescência tão perigosa como a pintaram, ou era inocente e igno­rante como qualquer outra?
– Era muito inocente, irreverente, mas sobretudo muito sonhadora, e isso é lindo. Mas atenção, houve aqueles que passaram o cabo das tormentas, onde incluo a maior parte dos meus amigos, mas houve os que se afundaram, neste percurso houve muita tragédia.
– O livro obteve um êxito brutal. Porquê?
– Primeiro, e digo-o se calhar pela minha veia de novelista, porque tinha uma grande história de amor; depois, porque trouxe novidade: uma nova linguagem, uma escrita com oralidade, sem preconceitos, uma nova forma de abordar o sexo, e uma sociedade que as pessoas tinham muita curio­sidade de conhecer. Também, e sei que isso faz pele de galinha a muitos leitores, porque é uma história de amigos, e a amizade é o sentimento que mais perdura.
– Neste novo livro, escrito 40 anos depois, passado nos mesmos lugares, que mudanças encontraste nos adultos?
– O traço mais forte que encontro na minha geração – e é terrível dizê-lo – é uma grande nostalgia daqueles tempos. A gente encontra-se e é inevitável falar daqueles tempos como se fosse a cena da nossa vida... Pessoalmente vivo hoje com o mesmo empenho e espírito sonhador que vivia à época.
– E nos mais novos?
– Incrível, também adoram essa nossa juventude dos anos 70, curtem as músicas daqueles tempos, é uma época de referência, mas são muito menos sonhadores. Certo que acreditam em gente melhor, mas não num mundo melhor. Morreu o sonho de um mundo melhor.
– Ainda neste grupo específico: há mais ou menos droga?
– Há outro tipo de droga, nós foi mais para nos libertarmos, para nos ajudar a encontrar o tal mundo romântico, esta nova geração é pelo prazer do dia-a-dia, é angustiante. São os químicos, que também invadem as chamadas drogas leves, que se estão a tornar um pesadelo pelas consequências psicóticas.
– Dantes, talvez porque o sexo não era tão acessível, os miúdos vi­viam obcecados com as estrangeiras. E agora?
– A oferta é imensa, e de portuguesas. Nós pecávamos por escassez, estes por excesso... Mas isso também resulta no fenómeno curioso, nós saíamos à noite como verdadeiros predadores, íamos à caça. Eles parece-me que não têm essa ansiedade, é um tipo de caça diferente.
– Achas então que a tua geração era mais romântica?
– Em termos políticos, sim, era mais romântica; no que respeita às relações, sinto que esta é uma geração mais romântica.
– Podes descrever este novo livro em poucas linhas?
– É a procura do amor por um homem da minha geração. E também do amor pai-filho, porque o protagonista, nos anos 50 e 60, não recebeu afecto do pai. E depois é a tal crítica social, o paralelismo entre os anos 70 e agora, ambas as épocas se confrontam com crises, com as respectivas destruições de impérios financeiros, é muito curioso isso, mesmo que os motivos sejam diferentes... Por fim, é o dar vida a amigos que já perdi e que seriam brilhantes, mas se calhar incompreendidos.
– Evoluíste como escritor, necessariamente; que tem este livro que o outro não tinha, em termos de forma, estilo ou conteúdo?
– Tem mais maturidade, mais técnica. Há cerca de 25 anos que vivo da escrita, também reconheço uma influência da minha profissão de guionista, e por vezes tem um lado mais piegas, não me perguntes porquê, mas é verdade.
– Que inesperada conclusão te trouxe o livro, depois de o terminares?
– Que o amor da nossa vida pode aparecer quando menos esperamos.
– Tens confiança nesta nova geração?
– Tenho a máxima. Conheço-a através dos meus filhos... É uma geração que tem o seu lado fútil, mas começa a perceber que nada cai do céu, que o lado material da vida não é tudo; por um lado, vivem o drama da falta de trabalho, por outro, sentem-se menos escravos das aparências. Mas sobretudo confio nesta geração porque confio nos meus filhos.
Nota: por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico.

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