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José da Câmara: “Nunca obriguei os meus filhos a cantar fado”

O fadista recebeu a CARAS na sua casa com a mulher, Joana, e os três filhos, onde contou como foi o processo de realização do seu novo disco, “Até Sempre, Sr. Fado”.

André Barata
26 de outubro de 2014, 12:00

Quatro anos depois de Câmara: Um Nome, Três Gerações e de Emoções – José da Câmara Canta Roberto Carlos, José da Câmara, de 47 anos, regressa aos palcos com o seu mais recente trabalho, Até Sempre, Sr. Fado. A menos de um mês da apresentação do CD, o fadista recebeu a CARAS em sua casa e posou ao lado da mulher, Joana, de 44 anos, e dos filhos, José do Carmo, de 15 anos, Vasco, de 13, e Maria Domingas, de 12. Com temas originais e fados clássicos, acompanhado por Luís Petisca na guitarra, Armando Figueiredo na viola e Filipe Vaz da Silva na viola-baixo, o fadista, locutor de rádio e homem de família – tal como o pai, Vicente da Câmara – revelou-nos os pormenores relativos à conceção do novo disco, contou-nos como é ser fadista nos dias que correm e falou sobre a sua prioridade: a família.
O que foi feito de maneira diferente neste novo trabalho?
José da Câmara – Foi tudo completamente diferente! Estava para começar com uma editora, que acabou por fechar, e lancei-me para a frente, pela primeira vez na vida, sozinho, só com os meus músicos! Quando nos sentimos sozinhos, temos de dar conta do recado, é giro! Fiz o disco e lembrei-me de um sítio diferente, com história. Falei com o João Ferreira Rosa, uma lenda viva do fado, e gravámos no Palácio de Pintéus, local onde nomes como Amália e Alfredo Marceneiro jantaram e passaram noitadas! Portanto, tem um peso histórico muito grande. É um disco com mais imperfeições, mas com muito mais verdade, porque foi tudo gravado num só take. Estávamos todos na mesma sala, a minha voz entrava nos microfones deles e o som dos instrumentos deles entrava no meu microfone.
Como acha que o fado é visto hoje em dia pelos mais jovens? Sente que está esquecido?
Não, muito pelo contrário. O fado está na moda. Como tudo, tem ciclos e quando está em cima, muita gente quer tocar e cantar fado, depois, quando passa a moda, só cá ficam os que realmente são do fado! Comecei a cantar há 28 anos, já conheci a vida mais facilitada. Tinha grandes editoras, com grandes promotores, depois tiram-nos o tapete e ficamos sem nada! Mas é bom que as pessoas percebam que a vida de artista é isto mesmo... Com 47 anos há uma coisa de que neste momento tenho a certeza absoluta: a sorte vem com muito trabalho. Se trabalharmos, atraímos a sorte, se estivermos sempre na lamúria, nada acontece.
Consegue sustentar a sua família só com a música?
– É difícil. Neste momento está cada vez mais difícil viver só da música. Digo isto porque de 1986 a 2000 vivi só da música e vivia bem. Com a crise, as câmaras municipais, grandes contratantes de artistas, deixaram de o fazer. Temos de procurar novos mercados e é o que tenho feito. Em julho fiz um espetáculo na Tunísia com uma cantora árabe e agora parece que há interesse da parte deles para virem cá gravar um disco e fazer um espetáculo. O importante é não ficar parado à espera que as coisas aconteçam.
– Continua a apostar na restauração?
Nunca mais... Tive três restaurantes, mas não quero saber mais disso. O princípio correu bem, mas depois foi péssimo. É importante uma pessoa ter um trabalho além do fado de modo a sustentar a família. Tenho três filhos e é uma despesa grande, graças a Deus a minha mulher trabalha e neste momento também tenho a locução. Um restaurante é uma prisão... Afastou-me da música durante uns anos e quem não aparece é esquecido. Hoje sinto-me aliviado por ter deixado isso para trás.
Fadista, locutor, marido e pai: como concilia tudo isto?
Arranja-se sempre tempo para tudo com boa vontade. Sou um pai presente. Todos os dias levo os rapazes ao râguebi e acabamos por estar sempre juntos. A hora do jantar é uma hora sagrada. Jantamos à mesa como sempre jantei com os meus pais e os meus irmãos. À mesa não se envelhece e à mesa é que se conversa. Não há televisão, telemóveis, só convívio. Isso é fundamental.
– Os seus filhos estão numa idade em que tradicionalmente se testam os limites dos pais. Como lida com isso?
É verdade... Mas acho que se não dermos muita importância a isso, a fase ‘complicada’ acaba por morrer. Eles sabem que sou muito meigo, muito querido, mas também sou muito bruto! [risos]. Muito bruto não é de bater, isso não vale a pena, porque a falar é que nos entendemos, mas levam uns berros de vez em quando! Têm de perceber que há limites. Estão na idade de errar, obviamente, mas é importante que não se esqueçam que o pai continua a ser o pai.
Que relação é que os seus filhos têm com o fado?
“Casa de ferreiro, espeto de pau”. Têm uma relação com o fado, mas é mesmo como digo. Quando eram mais pequenos, até cantavam alguma coisa, mas hoje em dia já não. O mais velho esteve no Conservatório durante três anos mas acabou por desistir. Sempre lhe disse que só lá iria estar enquanto quisesse e assim foi. Um pai não deve obrigar o seu filho a nada. Se me perguntarem se achava graça que qualquer dia aparecesse um dos meus filhos a cantar fado, claro que achava. Nunca os massacrei nem os obriguei a cantar fado. Pode ser que algum dia um deles queira cantar! Quando comecei, aos 19 anos, conseguia gerir a minha vida sozinho, hoje já não é assim.
Sente-se satisfeito com a família que construiu?
Até gostava de ter tido ainda mais filhos! O meu pai costuma dizer que quando um filho nasce, vem com um pão debaixo do braço. Claro que se agora viesse um filho sem que estivéssemos à espera não haveria problema, mas temos de ter os pés na terra e três filhos já é obra! Mas não quer dizer que a minha filha não me peça uma irmã... [risos]. Se acontecesse, acontecia... Até tenho saudades daquela fase dos bebés.

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