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Sophia Loren: ‘La bella’ italiana nasceu há 80 anos

 “O ‘sex-appeal’ é 50 por cento do que nós temos com 50 por cento do que as pessoas acham que nós temos.”

Redação CARAS
4 de outubro de 2014, 18:00

O VULCÃO ROMANO QUE SEDUZIU O MUNDO
Filha de Romilda Villani, uma bonita aspirante a atriz que aos 20 anos caiu na conversa de Riccardo Scicolone, que a fez acreditar que era agente de atores, abando­nando-a quando descobriu que ela estava
grávida, Sophia Villani Scicolone nasceu em Roma a 20 de setembro de 1934. Apesar de o pai a ter perfilhado, na Nápoles católica e conservadora onde cresceu colou-se-lhe o estigma de ser filha de mãe solteira. Um mal menor quando comparado com o flagelo da II Guerra Mundial, que a fez conhecer os bombardeamentos, os imundos abrigos antiaéreos e a fome cruel. Tanta que adquiriu a magreza esquálida e adoentada das crianças malnutridas, sendo considerada feiosa e tratada por “palito”. E assim continuou até à puberdade.
Foi talvez no escuro do cinema onde no pós-guerra se começou a refugiar, passando horas a deleitar-se com os desempenhos dos seus atores preferidos, entre eles Cary Grant e Tyrone Power (chegava a assistir a quatro filmes seguidos e terá visto Sangue e Arena doze vezes), que a metamorfose se deu. Tinha Sophia 15 anos quando a mãe olhou para ela com atenção e percebeu que o palito magricelas tinha ganho magníficas curvas e que o rosto magro adquirira ângulos primorosamente esculpidos. Morena e trigueira, o que fazia sobressair o tom castanho-esverdeado dos seus olhos rasgados, era a beldade latina no seu esplendor máximo. Romilda viu isso e inscreveu-a no Miss Itália de 1950. O vestido de noite com que teve de desfilar foi feito pela avó com os cortinados da sala, o que não a impediu de conseguir o terceiro lugar e o título de Miss Elleganza.
Membro do júri do dito concurso, Carlo Ponti (produtor de mais de 140 filmes, entre eles Doutor Jivago) não precisou de olhar duas vezes para “la bella” Scicolone para ficar devastado pelo vulcão – de sensualidade, mas também de energia e personalidade – que pressentiu escondido sob a pele da adolescente. E nada o deteve: nem os 22 anos de diferença de idades, nem o fosso de níveis sociais, nem o facto de ser casado e pai de dois filhos. Apostou tudo, primeiro profissionalmente, depois a nível pessoal, em Sophia, que rebatizou com o americanizado apelido artístico de Loren. O primeiro teste de câmara, porém, foi um desastre: o cameraman achou que a jovem tinha o nariz demasiado grande e o queixo demasiado pequeno, que era demasiado alta e tinha curvas em excesso. Ponti não desmoralizou e foi arranjando figurações para a sua protegida, ao mesmo tempo que a mandou estudar representação.
Depois de em 1951 conseguir um pequeno papel no épico da MGM Quo Vadis, a atriz ainda teve de esperar três anos para ver a “porta grande” começar a abrir-se. O que aconteceu pela mão de Vittorio De Sica, em O Ouro de Nápoles, protagonizado pela veterana Silvana Mangano. O menear de ancas de Sophia Loren ao caminhar pelas ruas de Nápoles, pobremente vestida e quase alheia ao impacto da sua sexualidade selvagem, tornar-se-ia antológico. Tal como o momento em que emerge das águas do mar Egeu com a roupa colada ao corpo, em A Lenda da Estátua Nua. Ou quando dança o mambo perante um embasbacado Clark Gable em Começou em Nápoles. Ou ainda quando finge ler sentada em frente a um Marlon Brando não menos estonteado em A Condessa de Hong Kong.
Quando, em 1957, Ponti decidiu que era chegado o momento de internacionalizar a mulher que amava, levando-a para Hollywood, Loren já tinha no seu país o mesmo estatuto de Gina Lollobrigida, que fora a incontestada sex-symbol de Itália. Com os primeiros filmes americanos, a sua legião de fãs masculinos espalhou-se pelo mundo. Defensora de que a sensualidade não se constrói – nasce com a pessoa e morre com ela –, envelheceu sem perder a aura. De tal forma que aos 71 anos posou para o famoso calendário da Pirelli.
TALENTO RECONHECIDO
O Ouro de Nápoles seria a primeira de muitas colaborações de Sophia Loren com Vittorio De Sica, um dos realizadores que melhor soube como chegar à essência da atriz e retirar dela o máximo (na verdade, seria nos filmes italianos que o talento desta latina de sangue quente mais brilharia). De Sica deu-lhe, aliás, o Óscar de Melhor Atriz quando, com apenas 26 anos, a pôs no papel de uma mãe-coragem em Duas Mulheres. A probabilidade de o ganhar – nunca antes a Academia de Hollywood premiara uma atriz num filme estrangeiro – era tão remota que Loren nem foi aos Estados Unidos para a cerimónia.
Seguiram-se mais de cem filmes (entre eles A Condessa de Hong Kong, O Homem de La Mancha, Prêt-à-Porter ou Nove), ao longo de uma carreira multipremiada (além do já referido Óscar e de outro de carreira, recebeu, entre outros, um Golden Globe, um BAFTA, um Grammy, uma Palma em Cannes) em que foi dirigida por alguns dos mais consagrados realizadores italianos (Francesco Rossi, Dino Risi, Ettore Scola), mas também americanos (Stanley Kramer, Sidney Lumet, George Cukor, Michael Curtis, Charlie Chaplin). E o seu nome apareceu ao lado dos de galãs como Cary Grant (que se apaixonou por ela durante a rodagem de Orgulho e Paixão, o primeiro filme que a italiana fez em Hollywood, em 57, e a pediu em casamento, para se ver preterido a favor de Carlo Ponti), Clark Gable, Charlton Heston, James Mason, Omar Sharif ou Paul Newman.
Seria, porém, ao lado do seu compatriota e amigo Marcello Mastroianni que mais vezes trabalharia, nomeadamente em Casamento à Italiana, que lhe daria nova nomeação para o Óscar em 1964. Trinta anos depois, Robert Altman juntou-os pela última vez em Prêt-à-Porter. Mastroianni morreu em 1997.
A LUTA PELA FAMÍLIA
Que Carlo Ponti tenha perdido a cabeça pela ninfeta que Sophia Loren era aos 15 anos não foi espanto para ninguém. Que esta tenha retribuído o amor do seu pigma­lião, permanecendo com ele 57 anos, isso, sim, surpreendeu toda a gente. Certo é que quando Ponti morreu, em 2007, aos 94 anos, Sophia garantiu que não voltaria a casar-se, dizendo: “É impossível voltar a amar tanto.”
O facto de ter crescido sem pai influenciou certamente a forma como a atriz se pôs nas mãos do produtor. Para a menina pobre que conheceu bem cedo as agruras da vida, a proteção de um homem maduro terá sido tão aconchegante como um ninho. Desconhece-se quando é que a relação se tornou mais íntima, mas em 1957, ano em que se mudaram para os EUA, já viviam juntos. Nessa altura, Ponti conseguiu que o seu divórcio fosse decretado no México, país em que realizou, por procuração, o seu casamento com Loren. Acontece que em Itália o divórcio não era permitido e, menos de um mês depois, eram acusados de bigamia. Em 1962 anulariam o casamento, mas Sofia queria ter uma família e não queria ser mãe solteira. Foi necessário tanto eles como a primeira mulher do produtor, Giuliana, mudarem-se para a Suíça, onde obtiveram a nacionalidade, para o divórcio ser efetivado. E só em 1966 Sophia se tornou, definitivamente, a Sr.ª Ponti.
Por essa altura já tinha sofrido três abortos e para conseguir levar a bom termo a sua quarta gravidez passou nove meses de cama. Quando Carlo Ponti Jr. nasceu, em dezembro de 1968, a alegria da atriz foi tanta que posou deitada com o bebé para 450 repórteres de imagem de vários países. Quatro anos depois chegaria Edoardo. Dedicadíssima, Sophia passou a espaçar cada vez mais os seus filmes. Afinal, defende, “uma mãe tem que pensar duas vezes. Uma por ela, outra pelos filhos”.

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