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Pedro Carvalho: “Não tenho problema em dizer que sou o menino da mamã”

A personagem Paulo, um homossexual, que interpreta na novela “O Beijo do Escorpião”, tem trazido grande popularidade a Pedro Carvalho, que trocou o Fundão por Lisboa logo aos 17 anos, em busca do sonho de ser ator. O sacrifício valeu a pena, embora o tenha afastado da família, que muito preza.

Inês Neves
21 de setembro de 2014, 14:00

Numa conversa descontraída, Pedro Carvalho, de 29 anos, relembrou a infância de menino “muito reguila” e contou-nos algumas partidas que fazia com o irmão gémeo, Filipe. Mostrou-nos ainda o seu lado romântico e falou do sonho de ser pai.
– Aos 17 anos veio do Fundão para Lisboa atrás do sonho de ser ator. Já passaram 12 anos, mas ainda é o menino da terra que vai lá aos fins de semana ver a família?
– Sem dúvida, dou muito valor às minhas raízes. Os meus pais, a minha família, são o meu pilar. Não vou muito lá, mas não consigo viver sem eles, peço-lhes opinião para tudo, sempre que vou lá tento encher-me de mimos da minha mãe, sou muito de afetos. Isso é muito importante para manter o meu equilíbrio, mesmo profissionalmente, preciso de estar rodeado desta harmonia familiar. Somos todos muito ligados e unidos.
– É menino da mamã, portanto...
– Não tenho problema nenhum em dizer que sou o menino da mamã e da avó. A minha avó materna tem 88 anos e foi a nossa segunda mãe. Eu e o meu irmão temos 29 anos, a minha irmã, 30... coitada da minha mãe, fomos todos de seguida e ainda por cima eu e o meu irmão gémeo sempre fomos uns terrores, muito reguilas. Então a minha avó e os avós paternos ajudaram a criar-nos. A minha avó passou muito connosco.
– Mas eram assim tão reguilas?
– Éramos reguilas à séria. Tivemos uma série de baby-sitters que não nos aguentavam e iam embora. Fazíamos-lhes muitas partidas, cortávamos o cabelo às bonecas da nossa irmã, pintávamos com mercúrio. Mas isso é só a ponta do iceberg. Curtimos muito a nossa infância e é essa mesma infância que eu gostava de dar um dia aos meus filhos, muito vivida ao ar livre. Tenho muitas boas histórias para contar. Vivíamos num terceiro andar e às vezes íamos fazer xixi pela varanda. Por baixo da nossa casa havia um restaurante onde se faziam casamentos e um dia o meu irmão repetiu a graça precisamente na careca do pai da noiva. O senhor foi lá a casa e a minha mãe pediu-lhe imensas desculpas. Devíamos ter uns 5 ou 6 anos. Anos mais tarde, devíamos ter uns 14, re­cebemos visitas lá em casa. Os meus pais chamaram-nos e perguntaram-nos: “Vocês lembram-se deste senhor?” Era o mesmo. Tinham ficado amigos desde então.
– Coitados dos vossos pais...
– Mas valeu a pena, vivemos uma in­fância muito feliz. Éramos muitas vezes castigados, mas nós adorávamos, porque se a minha mãe nos fechava na sala, nós fugíamos pela janela, se era no quarto, ficávamos lá com os brinquedos todos. E se era só um que ficava de castigo, íamos trocando. Éramos mesmo iguais. Hoje vejo fotos de quando tínhamos 12 anos e não nos distingo.
– Há uns tempos saíram umas notícias que diziam que tinha uma má relação com o seu irmão...
– Houve coisas noticiadas que não correspondiam à verdade. Problemas na família toda a gente tem e a imprensa mais sensacionalista aproveitou isso para fazer uma hecatombe de algo que não era nada. Tenho uma relação ótima com o meu irmão, temos é personalidades diferentes, mas respeitamos isso. Por feitio, ele é mais desligado, mais focado nas suas coisas. Mas continuamos a estar juntos, temos uma ligação especial por sermos gémeos, sempre tivemos e em pequenos ainda mais. Até tínhamos um dialeto que só nós é que compreendíamos.
– Há pouco falou em filhos. Quer ser pai?
– Um dos meus sonhos é ser pai e sinto que tenho essa vocação. Fui educado na base da honestidade, do amor sincero e incondicional, da lealdade, solidariedade e são esses os valores que quero passar para o meu filho e transmito também à minha sobrinha, por quem sou completamente vidrado. Além do meu trabalho, a minha prioridade é criar a minha família. E nos dias que correm não é muito fácil encontrar alguém com os mesmos valores que eu. Ainda não apareceu essa pessoa, mas há de aparecer. Já não acredito nos contos da Disney, mas acredito numa relação espelhada naquela que os meus pais têm: com altos e baixos, mas sempre juntos para o que der e vier e felizes. Eu mereço isso, mereço encontrar uma pessoa assim tão especial, por isso acredito que vá acontecer [risos].
– Falando um pouco de trabalho, na novela O Beijo do Escorpião, o Pedro dá vida a Paulo, um homossexual. Uma personagem que tem dado muito que falar...
– Entendo porquê, já que nunca se tinha visto cenas de cama, tão intensas, entre dois homens nas novelas portuguesas. É novidade para as pessoas. Mas percebeu-se que afinal de contas Portugal não é assim tão tacanho, as pessoas querem ver a verdade. Ver um casal homossexual que está uma novela inteira a tocar-se no ombro, o que é isso? Tem de haver contacto físico, intimidade, como um casal normal. E tenho recebido muito boas críticas das pessoas, dizem-me muitas vezes: “Finalmente vemos uma coisa que não é só ficção.” Tenho outras pessoas que já me disseram que o meu personagem ou certas cenas as ajudaram a resolver algumas questões. Sejam pais, adolescentes, hetero ou homossexuais. Nós, como atores, não temos só a missão de entreter as pessoas, mas também de as educar e passar alguma mensagem. E esta mensagem está a ser passada.
– Se fosse consigo, acha que teria problemas em assumir a sua homossexualidade?
– Tanto como uma pessoa assume uma relação com alguém. Há quem queira assumir isso ao público e quem não queira. Cada pessoa é livre de fazer o que quiser. Eu estudei para ser ator e não famoso, já bastam as notícias que saem da minha família, da zanga com o meu irmão, da doença do meu pai... Eu gosto de falar da minha profissão. No dia em que tiver uma relação séria, não digo que não a assuma, mas não gosto de falar da minha vida privada. Gosto de guardar algumas coisas só para mim, tal como guardo os meus amigos e a minha família.

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