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Pedro Bessa: “Saudade é a palavra que melhor descreve o que eu sinto"

O primeiro marido de Judite Sousa recorda o filho como “um hino à alegria, à boa disposição, à vida

Joana Brandão
8 de agosto de 2014, 16:03

"O mais difícil é a saudade”, diz Pedro Bessa, um mês depois da morte trágica do filho,  André Bessa, de 29 anos, nascido do seu primeiro casamento, com a jornalista Judite Sousa. Com um sorriso corajoso, este pai em luto falou à CARAS do orgulho que sentia no adulto íntegro e inteligente em que André se tornou. E contou-nos como a sua família tem sobrevivido a esta perda. Nomeadamente, a sua mãe, Manuela, de 81 anos, e a sua filha, Maria, de 14 anos, nascida do seu atual casamento, com Maria João, seu grande apoio neste momento tão difícil.

Recorde-se que André Bessa morreu no passado dia 29 de junho, vítima de afogamento, na sequência de uma queda que o deixou inconsciente, na piscina de uma quinta em Picheleiros, Azeitão, na madrugada de dia 28. E quis o destino que Pedro Bessa, quadro superior do Centro de Produção do Norte da RTP, estivesse em Lisboa na altura do acidente para – assim o vê hoje –, se poder despedir do filho. “Jantámos juntos na quinta-feira [dia 26 de junho], tive esse prazer”, conta, pausadamente. “Estava no quarto do hotel quando a Judite me ligou, na madrugada de dia 28, a dizer que o André tinha sofrido um acidente. Liguei aos colegas da RTP que estavam comigo e eles levaram-me ao Hospital São Bernardo, em Setúbal. Foram eles que estiveram comigo até a minha mulher chegar a Lisboa”, recorda, sem se esquecer de realçar, com gratidão, a amizade de José Alberto Carvalho.
Tem-se escrito muito sobre o André, mas como é que o pai o recorda?
Pedro Bessa – O André era um verdadeiro hino à alegria, à boa disposição, à vida. Nunca o vi zangado. Nunca discutimos. As nossas ‘discussões’ eram conversas acaloradas sobre assuntos políticos ou sociais. Quando ‘discutíamos’ atualidade, por exemplo, ele tinha uma forma de ver as coisas por vezes diferente da minha. Talvez porque estivesse no início da vida e fosse mais esperançoso. Eu, na minha idade, já não acredito da mesma forma inocente nas coisas. No entanto, todas as opiniões dele eram profundamente fundamentadas, fosse qual fosse o tema. Esta é uma imagem que me deixa muita saudade. As pessoas falam da dor, mas as coisas não doem. Não é esse o termo para isto. Acho que saudade é a palavra que melhor descreve o que eu sinto. A saudade, a confusão, a falta... parece que se perdeu o destino, o futuro. Ainda ontem dei por mim a pegar no telefone e a ligar-lhe... foi uma reação instintiva.
Como era a vossa relação, uma vez que o André vivia em Lisboa?
– Como é sabido, o André viveu no Porto até aos sete anos. Eu e a Judite divorciámo-nos quando ele ainda estava na primeira classe e só quando terminou o ano letivo é que se mudou para junto da mãe, em Lisboa. Apesar disso, ele manteve sempre uma relação extremamente próxima comigo e com a minha mãe. Ainda em pequenino, vinha de avião para o Porto de 15 em 15 dias, passar o fim de semana. Quando cresceu, começou a ter o seu grupo de amigos e, naturalmente, não vinha tantas vezes. No entanto, o contacto era constante. Ele e a minha mãe, a avó Manuela, tinham uma relação muito próxima. Já em adulto, o André vinha muito ao Porto e embora tivesse – e ainda tem – um quarto em minha casa, preferia ficar em casa da avó. Aliás, foi lá que eu conheci a namorada dele [Margarida Lopes]. A minha mãe marcou um jantar sem me dizer que ele estava lá e quando cheguei, com a minha mulher e filha, tive essa surpresa. Uma das coisas que a minha mãe e ele mais gostavam de partilhar era receitas. O André era um excelente cozinheiro e estava sempre a ligar à avó para perguntar como se fazia este ou aquele prato. Aliás, no Natal – ele passou todos os Natais comigo, menos este último, que passou com a mãe – ele vinha sempre mais cedo para o Porto, para ir com a avó fazer as compras e, juntos, preparavam o almoço e o jantar. Mas sobre a minha relação com ele, recentemente houve uma situação que exemplifica como era: quando ele acabou o curso de Direito, na Universidade Clássica de Lisboa, fez duas pós-graduações e respetivos estágios, mas resolveu inscrever-se num mestrado em Finanças porque não queria seguir Direito, e a verdade é que acabou por ser analista financeiro. Ligou-me e disse: “Arranja lá a melhor maneira de contares à minha mãe que vou fazer o mestrado.
Ele e a mãe tinham uma ligação muito forte...
– Era uma verdadeira relação de mãe e filho, eram muito chegados. O adulto que o André se tornou devia-se à mãe. Tenho de reconhecer que a mãe fez um ‘trabalho’ excelente, eu não faria melhor. Era engraçado, porque apesar de ele já ter um apartamento, continuava a dormir em casa da mãe. Ela dedicou-lhe a vida toda...
Como têm gerido esta perda, os dois?
– Sempre tive uma relação ótima com a minha ex-mulher, mas acho que é natural ser assim. A certa altura da nossa vida, cada um seguiu o seu caminho, mas isso não implica que esse caminho nos tenha separado. A boa relação que temos vai continuar, aliás tem continuado. Falamos sempre, ainda mais num momento como este. Está a ser extremamente complicado, muito difícil para nós.
Questiona-se sobre o que aconteceu na madrugada de 28 de junho? Foi instaurado um inquérito, mas o resultado foi inconclusivo...
– Não sei detalhes, o pouco que sei foi-me contado pela Judite, mas não quero falar sobre isso. Muito honestamente, não estou interessado em saber grandes detalhes. Infelizmente, o que quer que venha a saber-se não o vai trazer de volta. Foi um acidente inacreditável. Na véspera tinha estado a jantar com ele e tentei combinar jantar também na sexta, mas ele disse-me que tinha uma festa com os amigos. E aconteceu...
Conseguiu proteger a sua mãe e a sua filha de tudo o que se disse e escreveu no último mês sobre o André e o acidente?
– Acho que sim. Naqueles dias, desde o acidente até ao funeral, o facto de eu não ser conhecido publicamente, e o facto de tudo se ter passado em Lisboa, protegeu-nos de certa maneira, porque os colegas da comunicação social não me conheciam. Eventualmente, se tivesse acontecido no Porto a coisa teria sido diferente.
Já nos falou da relação do André com a avó Manuela. E com a irmã?
– Não podia ser mais próxima, apesar da dis­tância física. Por exemplo, no Facebook – entretanto encerrado –, a única pessoa da família que a Maria aceitou foi o irmão. Falavam constantemente ao telefone, ele tinha muito o hábito de lhe ligar para corrigir alguns posts menos bem escritos.
Diz que com esta entrevista espera encerrar mediaticamente o assunto da morte do André...
– Temos de seguir em frente. Quanto mais depressa se encerrar este capítulo na imprensa, melhor para nós. É difícil falar neste assunto, porque é recordar. Diariamente, há momentos complicados, mas, por outro lado, falar do André, como estamos aqui a fazer, ajuda-me a expurgar esta sensação pesada.

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