Nas Bancas

Vicente Alves do Ó: “Os meus olhos estão sempre a realizar”

Rita Ferro conversou com o cineasta no cenário mágico da Quinta da Regaleira, em Sintra. A passagem do cinema para a escrita, com o livro “Florbela, Apeles e Eu”, sobre Florbela Espanca, foi o pretexto deste encontro.

Rita Ferro
28 de setembro de 2014, 14:00

Começou como argumentista. Depois de várias curtas, assinou a primeira longa-metragem em 2011 com Quinze Pontos na Alma. Em 2012, teve estreia a sua segunda longa-metragem, Florbela. Ainda baseada na vida de Florbela Espanca, realizou uma mini-série de três episódios para a RTP. Na sequência do êxito, publica agora Florbela, Apeles e Eu, um livro em que ficciona, com inquietante verosimilhança, o que falta saber sobre a poetisa alentejana. Senhor de um porte czarino, é excepcionalmente alto, magnético, carismático. Trata-se do cineasta Vicente Alves do Ó, de 42 anos, nascido em Setúbal, com quem passeámos na Quinta da Regaleira, em Sintra.
– Como te cruzaste com Florbela?
– Tinha 14... 15 anos e queria ser poeta. Lia todos os autores que encontrava na Biblioteca Municipal de Sines (onde cresci). Apaixo­nei-me pela Sophia, pelo Pessoa,
pelo Ruy Belo e por Florbela. E ela era o Alentejo inteiro e a sua solidão. Acho que essa ligação de sangue a colocava num sítio muito especial e isso ficou comigo.
– Que namoro foi esse?
– Foi uma espécie de relação intensa e filial, entre dois filhos duma terra, duma condição. Dois alentejanos à procura do mundo como casa.
– Tem-se a ideia de que foi uma mulher terrivelmente infeliz.
– Acho que a tristeza da Flor­bela era apenas uma porta aberta para a verdade. Ela não tinha essa necessidade óbvia de se esconder atrás duma existência superior que habitualmente atribuímos aos poetas. Ela vivia a verdade à flor da pele.
– Na época, foi muito criticada. Quem quis ignorá-la e não conseguiu?
– Foi criticada porque era mulher, porque era provinciana, porque vivia o que dizia e descrevia o que vivia e essa realidade carnal e emocional não era de bom tom em sociedade.
– Que faltou a Florbela?
– Tempo e mundo. Deveria ter sobrevivido às suas dores – que nunca ultrapassou –, deveria ter saído de Portugal para ver o mundo e sentir o mundo.
– Que lhe sobrou?
– Viveu com a intensidade de um cometa e extinguiu-se aos 36 anos. Como tantas outras mulheres. A Marilyn Monroe, a Simone Weil, a Maria Callas, todas mulheres cujo corpo era pequeno para a sua grandeza.
– Eras argumentista, e dos bons. Como foi a transição para realizador?
– Foi o passo que faltava para me aproximar ainda mais do que queria ser. Acho que o cinema é uma espécie de janela onde posso colocar todas as minhas obsessões. Os meus olhos estão sempre a realizar.
– E a passagem a escritor?
– Tenho uma paixão tremenda por contar histórias. Pelo dom da palavra. Pela construção poética do mundo. Mesmo que um dia deixe de realizar, a escrita andará sempre comigo.
– A literatura é mais difícil do que o cinema, em termos de labor?
– A literatura é mais solitária e nesse sentido é mais difícil. O cinema exige gente, muita gente, muitas opiniões e a fragilidade das nossas ideias é maior e mais perigosa.
– Pode dizer-se que este teu novo livro, outra vez baseado em Florbela, completa o filme?
– Vivi quatro anos com ela. Intensamente. E ficou tanta coisa no papel, na cabeça. O cinema não me possibilitava dizer e mostrar tudo. Escrevi o livro porque precisava de dizer mais e mostrar ainda mais. 
– O que dizes a alguém que já saiba tudo sobre ela?
– Não digo nada. Aliás, é curioso que, na altura do filme, tanta gente soubesse tanto sobre ela. Aliás, entre o choque e o espanto, lá fui ouvindo gente e coisas que me deixavam estarrecido. É um dos nossos maiores defeitos. Essa veleidade no julgamento sumário dos outros.
– Que realizador estrangeiro faz o que gostarias de poder fazer? Porquê?
– Hoje em dia, admiro alguns filmes e poucos realizadores. Acho que se perderam essas individualidades extremamente cultas que se interessavam pelo mundo e tinham coisas para dizer. Hoje, o realizador diz que não quer ser visionário de nada. Quer apenas “filmar a realidade”. Como se a realidade fosse um coisa exacta.
– Como vai o cinema português?
– Vive-se numa espécie de gaiola dourada, mas sinto que este sistema é tão frágil que pode acontecer o que aconteceu há dois anos com a extinção dos apoios. É preciso que o cinema seja independente dos governos, das políticas de gosto e dos lobbies. Basta ver a relação das pessoas com a música, a literatura e o cinema. Mais depressa dão 15 ou 20 euros por um espectáculo de teatro, ou música ou compram um livro, que dão 6 euros para ir ver um filme português.
– Dantes, apresentava dificuldades na qualidade final. O som, por exemplo. Que dificuldades subsistem?
– Acho que a mais grave continua a ser a nível do argumento. É curioso. Somos um povo de palavras mas quando chega à tarefa de torná-las vivas e colocá-las na boca de alguém, somos tímidos e desleixados. 
– A angariação de subsídios está pior ou melhor do que já foi?
– Acho que está pior no sentido em que se mantém. E digo pior porque o mundo avança e nós vamos ficando para trás, cheios de medos e preconceitos. Em guerra uns com os outros.
– Que projectos te esperam? Já têm nome?
– Quero realizar um filme sobre o poeta Al Berto. Quero falar neste homem, que num período tão marcante em Portugal (1974 – 1977), ousou sonhar numa peque­na vila alentejana (Sines).
– Que opinião tens de Por­tugal?
– É uma terra abençoada, cheia de vida, de cheiros, de música, de amor. É uma paisagem perfeita e com tanto potencial. Parece mesmo um jardim, como dizia o poeta. 
– E dos portugueses?
– O problema de Portugal são os portugueses e este peso enorme que carregam nos ombros, duma história, dum passado, duma exigência que os frustra todos os dias. Desta constante comparação com o mundo, desta necessidade de validação exterior. Não somos ainda um povo livre e a classe política aproveita-se desta ‘patologia’ e mantém esta gente debaixo dum véu de chumbo, fadista e beato. Um dia que este povo acredite na liberdade, será tão grande como os poemas que escreveu.

Comentários

ATENÇÃO: ESTE É UM ESPAÇO PÚBLICO E MODERADO. Não forneça os seus dados pessoais (como telefone ou morada) nem utilize linguagem imprópria.

Nas Bancas

Newsletters

Receba grátis no seu email as notícias, as últimas caras!

Caras Nas Redes

Mais na Caras