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Lauren Bacall, uma atriz de culto

A diva de Hollywood morreu no passado dia 12 de agosto, aos 89 anos. 

Redação CARAS
6 de setembro de 2014, 18:00

A mulher que dava luta
Foi Diana Vreeland, considerada a mais ge­nial editora de moda de todos os tempos, a grande responsável pelo fenómeno Lauren Bacall. Foi pelo menos ela quem escolheu Betty Joan Perske, jovem de 19 anos que começara a trabalhar como modelo três anos antes, para figurar na foto de capa da edição de março de 1944 da revista feminina Harper’s Bazaar. Transformada em objeto de culto, essa capa, em que a futura diva de Hollywood aparece junto à porta de um banco de recolha de sangue da Cruz Vermelha – estava-se em plena II Guerra Mundial – impressionou Nancy “Slim” Hawks, a mulher do realizador e produtor Howard Hawks. Ela própria considerada uma das mulheres mais elegantes do seu país, graças ao seu estilo afrancesado, “Slim” chamou a atenção do marido para “a graça felina, o cabelo louro escuro e os olhos azuis esverdeados” de Betty.
Hawks, um assumido apreciador de mulheres bonitas, não hesitou em chamar a modelo para um casting. E descobriu que além de belíssima e escultural – 1,74 de altura, 86-60-86 de peito-cintura-anca –, Betty era também uma rapariga com cérebro e com um sonho: ser bailarina. Por isso, ao mesmo tempo que ganhava a vida posando para editoriais de moda e trabalhando como arrumadora num cinema (os pais tinham-se divorciado quando ela tinha cinco anos e o ordenado de secretária da mãe era escasso), estudava na conceituada American Academy of Dramatic Arts. Ou seja, saiu-se tão bem no casting que Hawks depressa a imaginou em “duelo” com um dos seus atores prediletos: Humphrey Bogart.
Bogart, considerado ainda hoje o ator mais másculo de todos os tempos, tinha demorado a conseguir um lugar ao sol, mas aos 44 anos já tinha consolidado o seu estatuto de estrela do film noir graças, sobretudo, a Relíquia Macabra e Casablanca. Quando Hawks lhe apresentou Bacall, que ainda nem da adolescência saíra, não ficou muito entusiasmado. Bastou, no entanto, meia dúzia de conversas e alguns ensaios para perceber o impacto da voz e do olhar da candidata a sua parceira e que a ideia de Hawks tinha sido luminosa. Tão luminosa como impactante era o nome Lauren Bacall, que o realizador arranjou para substituir o de origem judaica da jovem do Bronx.
Bacall era sensual de um modo até então pouco comum em Hollywood – ao contrário da sexualidade gritante e exibicionista de uma Marilyn Monroe, por exemplo, a sua era ambígua, misteriosa, aparentemente inacessível. Talvez por ter crescido apenas com a mãe e por ter começado a trabalhar cedo, era o género de mulher segura de si, insubmissa e rebelde ao ponto de passar por maria-rapaz. Era a mulher que dava luta a um homem, que o provocava para depois lhe dar para trás, que jogava com ele um jogo de gato e rato em que o intelecto podia ser uma cartada com tanto valor como a atração física. Bogart encantou-se com tudo isso e entre os dois estabeleceu-se uma fortíssima corrente elétrica – visível a olho nu no primeiro filme em que contracenaram, Ter e Não Ter –, que transpôs para realidade a relação vivida na tela. O ‘duro’ pôs fim ao seu terceiro (e infeliz) casamento e menos de um ano depois a dupla Bacall-Bogart era oficializada perante a lei. Transformados num dos mais icónicos casais de Hollywood, estiveram juntos até à morte de Bogart, em janeiro de 1957. O mito que formaram juntos, porém, sobreviveu à morte dele. E à dela, no passado dia 12 de agosto, a um mês de fazer 90 anos.
O efeito Bogart
Aos 20 anos Lauren Bacall tinha o mundo a seus pés. E tudo para aprender. Vinte e cinco anos mais velho, Humphrey Bogart foi o primeiro a ter consciência disso e a perceber que se não deixasse a sua jovem mulher saciar a sede de conhecimento, se lhe puxasse demasiado as rédeas, elas depressa rebentariam. A enorme diferença de idades, que para ele começou por ser um problema (comentou com um amigo que ao fim de cinco anos ela iria trocá-lo por um homem mais novo, ao que o amigo lhe respondeu: “Mas é melhor cinco anos que nenhum!”), para ela não foi sequer assunto. Estava apaixonada e fascinada pelo homem “notável, inteligente, culto, interessante e interessado” que ele era, e isso é que era importante. Em 1994, por ocasião do lançamento de Now, autobiografia com que assinalou os seus 50 anos de carreira, Bacall deu uma entrevista a Charlie Rose, autor de um talk-show homónimo na cadeia pública de televisão americana PBS, na qual assumiu: “Eu estava de cabeça perdida por ele, o que é que a idade podia interessar?”
Bogart teve de vencer também o medo de ver Lauren seguir o mesmo caminho que as suas anteriores mulheres. As três eram atrizes e todas tinham posto as carreiras à frente do marido, alegava. Ela, a tal miúda rebelde, garantiu-lhe que isso nunca aconteceria. E aparentemente cumpriu a promessa, porque o casamento, do qual nasceram dois filhos, Stephen, em 1949, e Leslie, em 1952, durou onze anos e meio e só terminou porque ele não resistiu a um cancro de garganta. Em 1978, também numa entrevista televisiva, a atriz assumiu que a relação foi muito gratificante a todos os níveis: “Diria que tivemos uma lua-de-mel muito mais longa que a da maioria dos casais.”
O casamento teve ainda para Bacall outra mais-valia: novos amigos. Humphrey Bogart era o grande mentor dos Rat Pack, grupo que se dedicava a saborear “la dolce vita” e que entre meados dos anos 50 e 60 integrou artistas célebres como Frank Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis Jr., Shirley MacLaine ou Judy Garland. Graças à sua inteligência, vivacidade, sentido de humor e, dizia-se, excelentes dons para a má-língua, a
recém-casada rapidamente foi aceite nos animados (e bem regados) convívios do grupo. Após a morte de Bogart (há quem garanta que ainda durante a doença dele), Bacall apaixonar-se-ia por Sinatra, que ainda em 57 a pediu em casamento. Para, logo em seguida, furioso por ela ter tornado o noivado público, cortar relações sem sequer lhe dar uma explicação pelo telefone. Um fim abruto que a magoou profundamente, assumiria muitos anos mais tarde, revelando que ela e o cantor nunca mais se falaram. Em 1961, casou-se com outro ator, Jason Robards, do qual teve um filho, o também ator Sam Robards. A união terminou em 1969, alegadamente devido ao facto de Robards abusar do álcool. Lauren não voltaria a casar-se.
Em termos de carreira, o efeito Bogart também se fez sentir: os quatro filmes em que contracenaram – Ter e Não Ter (44), À Beira do Abismo (46), O Prisioneiro do Passado (47) e Paixões em Fúria (48) – seriam também dos mais reconhecidos. Ainda assim, a sua filmografia ainda tem mais alguns títulos dignos de algum destaque, como Escrito no Vento, Modelo de Mulher, O Atirador, Crime no Expresso do Oriente ou O Espelho Tem Duas Faces, que em 1996 lhe valeu uma nomeação para o Óscar, que não ganhou.
Recordar Lauren Bacall obriga, também, a uma referência ao seu estilo, à sua elegância. E nisso, a amizade de Diana Vreeland (que seria conselheira de estilo de Jacqueline Kennedy) e de “Slim” Hawks teria de novo influência. O corpo da atriz, já se sabe, era perfeito. Os manequins de celuloide que as lojas exibem nas montras também, mas não podemos chamar-lhes paradigmas de elegância. Porque lhes falta a vida, a alma, a personalidade, o estilo, a desenvoltura. A classe. Bacall tinha-os todos. E como tinha bom gosto natural e era inteligente, depressa aprendeu a vestir-se com o mesmo estilo descontraidamente chique que Diana e Slim tinham desenvolvido no contacto com elegantes europeias como Coco Chanel ou Wallis Simpson. De tal forma que Yves Saint Laurent a elegeu para musa de uma das suas coleções e o realizador Robert Altman a foi buscar para o filme Prêt-à-Porter, em 1994, e pô-la no papel de antiga diretora da Vogue.

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