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Catarina Furtado garante: "Nada na minha vida foi estratégico"

Aos 42 anos, a apresentadora e atriz atravessa uma das suas fases mais felizes e serenas.

Andreia Cardinali
27 de setembro de 2014, 12:00

Sem tempo para férias já que está em gravações do programa Chefs’ Academy, Catarina Furtado, de 41 anos, aproveitou uma pausa nas gravações para rumar a Faro e ficar a conhecer a nova boutique da Nespresso, no Fórum Algarve. A ocasião serviu de pretexto para uma conversa descontraída na zona histórica daquela cidade. Entre o seu trabalho como embaixadora de Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População, a carreira de mais de duas décadas e a paixão que tem pelos filhos, Maria Beatriz e João Maria, e pelo marido, o ator João Reis, nada ficou de fora.
– Como recorda estes 23 anos de carreira? Com muito orgulho?
Catarina Furtado –
Com toda a modéstia, mas com imenso orgulho. A carreira que tenho é sobretudo fruto do meu trabalho, nunca mostrei nem projetei mais do que o meu trabalho e o reconhecimento que existe vem daí, o que me deixa muito orgulhosa. Comecei muito cedo, com 19 anos, sinto que passou muito depressa, não senti o peso do tempo e tenho a consciência muito tranquila. Estou numa fase ótima da minha vida pessoal e profissional e olho para estes 23 anos com um sentido de dever cumprido.
– Tem conseguido manter o interesse na sua carreira sem abrir demasiado as portas da sua vida pessoal... Foi difícil encontrar esse equilíbrio?
Não. Sigo muito a minha intuição e as minhas convicções. Para mim há uma palavra muito importante nas relações entre as pessoas, que é a coerência. Na minha vida nunca nada foi estratégico. Sei o que é violento para mim: as coisas não serem transparentes, fazer algo que não subscrevo e não quero nunca passar uma imagem daquilo que não sou... E isso, felizmente, tenho conseguido. Acho que tudo isto é fruto dos meus ‘nãos’ ao longo da vida, de não ser demasiado ambiciosa... Só ambiciono ser reconhecida pelo meu trabalho e isso eu consegui. Não tenho grandes sonhos...
– E esses ‘nãos’ foram sempre fáceis de dizer?
Não. Alguns foram muito difíceis e trouxeram consequências, mas depois também dão um sabor especial a tudo o que se vai conseguindo devagarinho. 
– Faz 42 anos dia 25. Como serão cele­brados?
Vou fugir [risos]. Estou nas gravações da segunda edição do Chefs’ Academy e por isso não vou ter férias. Mas consegui negociar quatro dias e vou fugir para um refúgio dentro do país, é o meu marido que está a tratar disso. Vamos estar em família e não vou fazer festa.
– Serão momentos totalmente dedicados à família para aproveitar também as férias dos seus filhos?
Completamente. Vamos escrever muitas redações nesses dias, pois a minha filha já está nessa fase. Sem que ela perceba, vai também estudar um bocadinho. Vai fazer um levantamento dos últimos tempos e deixar registado em papel. Para mim essas são as memórias que ficam. Sempre fiz isso em pequenina nas férias grandes... Acima de tudo, valorizamos coisas muito simples.
– Consegue ter uma carreira de sucesso e ser uma mãe e uma mulher muito presentes. Há alturas em que se põe a si própria um pouco de parte?
Acho que sim. Tenho a sorte de ter uma pessoa extraordinária ao meu lado que partilha tudo comigo. De ter encontrado um marido que sabe a sua função, a de partilhar, como a minha é a mesma. Agora, é evidente que a sociedade exige sempre mais às mulheres. É evidente que de vez em quando desligo algumas das minhas vontades, porque há outras prioridades, mas não me queixo.
– Na sua atividade como embaixadora das Nações Unidas lida com situações delicadas, vê crianças e mulheres passarem fome. Chegar a casa e focar-se na sua vida normal é exequível?
Desde que fui a primeira vez nunca mais me foquei só na minha vida, é impossível. Fiquei com os sentidos muito mais apurados. Tenho isto como formação, pois o meu pai, como jornalista do mundo inteiro, sempre trouxe diversas realidades para casa e a mi­nha mãe, como professora do ensino especial, igualmente. Comecei a fazer voluntariado aos nove anos, mas hoje estou muito mais capacitada e preparada para olhar o mundo e perceber as diferenças. Quando chego, a primeira coisa que faço é utilizar a minha indignação para construir algo e fazer aquilo que é o maior privilégio da minha vida, o de falar por quem não tem voz.
– Esse lado humanitário também tem feito parte da educação dos seus filhos?
Claro que sim. Acho que eles também têm de viajar e conhecer o mundo e quando digo viajar não é ir de férias, é ter mesmo noção de como vivem as outras pessoas. Há coisas que só se entendem quando são vividas. 
– Essa é a herança que lhes quer deixar?
Com toda a certeza. Aliás, só quero deixar isso, nada mais. Eles têm de trabalhar, e para mim das coisas mais valiosas que eu posso deixar aos meus filhos é o trabalho hu­manitário que tenho feito, no Corações com Coroa, nos meus documentários e no meu trabalho. Evidentemente, terei de continuar a trabalhar, porque tudo isto é voluntário, mas não há nada que me deixe mais satisfeita.
– Sempre foi uma mulher muito bonita e cuidada, mas os 40 parecem ter-lhe trazido uma maior serenidade. Estou enganada?
É mesmo isso. O que sinto é que estou bem comigo [sorriu]. Estou de facto serena. Acho que a serenidade, sem que esteja passiva, é o que mais se encaixa em mim. Não sinto que tenha obrigação de provar nada, não sinto vontade de conquistar o mundo e acho que isso traz muita tranquilidade. Sinto vontade, isso sim, de conquistar pequenas coisas... O que mais quero é que os meus filhos olhem para mim com orgulho e gostem do que veem. 
– E eles sentem orgulho na mãe?
Acho que sim, e não é por a mãe apare­cer na televisão, o que é maravilhoso. Até porque eles nem me veem na televisão [risos].
– Mas têm noção de quem é a mãe?
Claro que sim, em especial a Beatriz. Mas não ligam nenhuma, para eles é completamente indiferente e para mim é muito bom que assim seja. Era assim que eu via a televisão, desmontada. Para mim a RTP não era aquilo, era somente o trabalho do meu pai. E eles, quando vão comigo, vão assistir ao trabalho da mamã. É uma coisa muito natural e feita com muita leveza.
– E sente que tem feito um bom trabalho?
Acho que sim, daqui a 20 anos volto a responder a essa pergunta [risos]. Por respeito aos meus filhos não gosto muito de falar sobre eles, é uma coisa muito íntima. Eles não são meus, são do mundo. Eu tive-os, a minha vida mudou radicalmente e não há um amor maior, mas a verdade é que eles são seres individuais. Eu estudo os direitos humanos, são a minha grande área e eu tenho para com os meus filhos esse respeito. Por isso nunca falo muito sobre eles, por respeito a eles. Quando estou na rua mostro os meus filhos se me pedirem, tenho fotografias deles no telemóvel, mas não gosto de os expor. Tenho imenso respeito pelo ser humano e evidentemente também o tenho pelos meus filhos. Não quero ser moralista e cada um faz da vida o que quer, mas esta é a minha postura desde sempre.
– Fez nove anos de casada. Há algum segredo para o sucesso do vosso casamento?
As pessoas são todas diferentes e acho que nunca há segredos. Nós somos diferentes quando casamos, depois de casarmos e nove anos a seguir mais diferentes seremos... Eu não sou a mesma pessoa com quem o João se casou, nem ele é a mesma pessoa com quem eu me casei... Aquilo que se mantém é a essência e quando isso acontece é muito mais fácil do que se pensa. Não sou perfeita e o João também não, mas muitas vezes as pessoas ligam o ‘complicómetro’ e passam a vida a olhar para o outro em vez de olharem para si próprias, criticam mais antes de fazerem algumas concessões... E de facto o casamento não é uma batalha, não é para ninguém ganhar e quando o é, acima de tudo têm de ser os filhos a ganhar e também as próprias pessoas. Não devemos viver só para os filhos, temos também de viver para nós próprios. As coisas têm de ser reais e vividas com intensidade. Não posso deixar de dizer à pessoa o quanto ela é necessária para mim porque acho que vou dizer amanhã. Tudo deve ser dito hoje. Devemos perceber o que temos e lutar pelo que queremos.
– Às vezes tem de se lembrar disso?
Acho que nos vamos lembrando. Damos sinais uns aos outros. As pessoas devem sentir se querem ou não e quando se quer, tem de se querer mesmo.
– Começou a entrevista a dizer que vive uma ótima fase pessoal e profissional. Tem a ver com a tal serenidade que os 40 lhe trouxeram?
Não sei, é um estado. Não sinto os 40 e acho inconcebível ter 42 anos [risos]. O que sinto é que do ponto de vista da carreira falta-me uma coisa para me deixar com­pletamente feliz da vida, que seria mais uma série do Príncipes do Nada, e do ponto de vista pessoal tenho tudo. Cada vez tenho mais a noção de que eu sou uma figura pública não só para mostrar os vestidos maravilhosos do Nuno Baltazar, mas sim para deixar qualquer coisa. Quero que de alguma forma alguns comportamentos mudem através de alguns programas que faço... É essa noção muita clara da utilidade da minha carreira que também me traz serenidade.

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