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Agora o sorriso traquinas de Robin Williams já é eterno

Nascido em berço de ouro, Robin teve uma infância solitária e só quando entrou para um grupo de teatro escolar começou a vencer a timidez e a revelar a sua veia cómica, que os colegas adoravam.

Ana Paula Homem
30 de agosto de 2014, 15:00

O suicídio de Robin Williams, na madrugada do passado dia 11, chocou o mundo inteiro. O que poderia ter levado o sorridente ator, que, tal como o seu Peter Pan, parecia nunca ter abandonado em definitivo a infância – que teimava em lhe aflorar frequentemente o olhar traquinas, mas sempre ingénuo –, a desesperar ao ponto de pôr fim à vida aos 63 anos, enforcando-se com um cinto? Afinal, Williams era bem sucedido, ultrafamoso e sem aparentes problemas fosse de que índole fosse... Mas estava mergulhado num dos episódios de depressão recorrentes na sua vida, em alternância com períodos de extrema felicidade e energia criativa, ambos manifestações da sua condição de doente bipolar (transtorno conhecido durante anos pela designação de doença maníaco-depressiva).
A doença – associada a longos anos de abuso de álcool e drogas (num ciclo de desintoxicações e recaídas), ao distanciamento da designer Susan Schneider (sua terceira mulher e com quem estava casado desde 2011), aos estragos que as pensões de alimentos às anteriores mulheres provocaram nas suas finanças, a uma estagnação na carreira e ao recente e devastador diagnóstico de Parkinson – ditou, sem dúvida, o fim de um dos mais aclamados e amados comediantes (em 2004, numa lista dos 100 maiores humoristas de stand-up comedy de todos os tempos, Williams ficaria em 13.º lugar). No entanto, foi por um papel dramático, o do psiquiatra de Matt Damon em O Bom Rebelde, que, em 1997, o ator recebeu o seu único Óscar, como ator secundário.
Quem era, então, Robin McLaurin Williams, nascido em Chicago, no seio de uma família abastada, a 21 de julho de 1951? Era o comediante que facilmente provocava gargalhadas (recorde-se o arrebatador radialista de Bom Dia Vietname, o delicado empresário gay de Casa de Doidas ou a sensata Mrs. Doubtfire de Papá para Sempre), ou era o ator dramático que emocionou plateias com o apaixonado e apaixonante professor John Keating de O Clube dos Poetas Mortos, ou o pueril sem-abrigo de O Rei Pescador?
Robin Williams era tudo isto. Sensível, provocador, irreverente, irrequieto, destemido, terno, alucinado, sereno, carismático... E podia mudar de registo com uma facilidade tão vertiginosa que deixava o espectador sem fôlego. Grande parte das vezes, de improviso, pois desde cedo na sua carreira os realizadores perceberam que este ator que frequentou a prestigiada Juilliard School, mas treinou o talento (e venceu a timidez que o afetava desde a infância, emoldurada por uma mansão, mas muito solitária) nos palcos da stand-up, era mestre a esquecer o argumento e a deixar sair o que lhe ia na alma. E que o fazia tão bem como se estivesse a deixar sair o que ia na alma da personagem.
Nisso, provavelmente, a doença também teve a sua quota-parte de responsabilidade. Por um lado, porque é quase um dado adquirido que a bipolaridade está frequentemente associada à genialidade. Por outro, porque alguém que enfrenta o sofrimento de um doente bipolar aprende a viver numa montanha-russa de emoções, gerindo dentro de si o verso e o reverso, o positivo e o negativo, o claro e o escuro, o sério e o brincalhão, o adulto e a criança. Robin Williams teve o mérito de pôr esse sofrimento ao serviço de filmes que perdurarão muito depois da sua morte. Eternizando o seu olhar de menino traquinas.

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