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Teresa Schönborn: “Esta casa é uma comunhão de afectos”

A escritora Rita Ferro conversou com Teresa Schönborn na Herdade de Muge (ou Casa Cadaval), no concelho de Santarém, uma propriedade com cinco mil hectares de vinhas e campos cultivados, manadas de cavalos puro-sangue lusitano, centenas de cabeças de gado e uma produção de vinho própria.

Rita Ferro
3 de agosto de 2014, 12:00

Teresa Schönborn não tem tem­po nem vocação para vaidades: “Entrevistar-me a mim? Como representante é uma coisa, mas como pessoa?” É modéstia, porque a sua vida, o seu bom gosto e a sua desafectação podem realmente inspirar. Herdeira de um ducado lendário, vive entre Sintra e Muge, concelho de Santarém, aqui numa herdade lindíssima com manadas de puro-sangue lusitano, centenas de cabeças de gado e 5 mil hectares de vinhas e campos cultivados, com uma zona dedicada à exploração agrícola e uma produção de vinho própria que tem atraído centenas de estrangeiros e nacionais. Filha de Graziela Álvares Pereira de Melo, por sua vez filha de Olga de Cadaval, e do conde alemão Karl Graf von Schönborn-Wiesentheid, fala fluentemente o português da mãe, sem acento, o alemão da terra onde nasceu e cresceu, e o italiano de ambas as avós, mas a língua que melhor pratica é sem dúvida a da absoluta naturalidade e cortesia. É uma mulher alta – mais alta do que a entrevistadora, para variar – e tão alta como a consideração que nos mereceu por partilhar connosco o seu nem sempre fácil mundo encantado.
– O que é uma Casa como a que dirige? Por que regras se rege e que estatutos tem?
Teresa Schönborn – Uma casa como a nossa é uma comunhão de afectos que se tem mantido estável durante muitas gerações. Entendo ser esta a melhor forma de honrar a memória dos meus antepassados, pois também eles se esforçaram por manter unida a Casa que neste momento represento. Por isso, mais do que de regras, gosto de falar da noção de serviço para fazer o bem – em relação a todos os que fazem parte da minha família, entre os quais incluo todos aqueles que, pelo seu trabalho, se envolveram connosco, auxiliando-me numa gestão moderna do património.
– Representar uma casa com tantas tradições não deve ser fácil. Como reagiu ao princípio?
– Para mim, confesso, foi tudo sempre muito natural. A minha avó e os meus pais educaram-me
nos ideais de serviço aos outros, que os vários ramos da minha família sempre cultivaram. Em Sintra, mas sobretudo no Ribatejo, dei-me conta que os mesmos valores de devoção e de dedicação aos outros eram também uma característica das outras grandes casas das quais me sinto próxima.
 – De todas as responsabili­dades que assumiu, qual a que a desgasta mais?
– Na gestão racional e moderna do património da Casa, conto com colaboradores e profissionais extremamente dotados. A sua motivação e envolvimento nos principais projectos que desenvolvemos têm de ser compatíveis com os esforços de desenvolvimento regional, em curso tanto no Ribatejo como em Sintra. Uma das minhas preocupações – mas não posso dizer necessariamente que me desgasta – é precisamente a de estabelecer pontes entre a Casa Cadaval e os seus parceiros. Pois sei que a união faz a força...
– E de qual gosta mais?
– Encaro, em pé de igualdade, as minhas responsabilidades de gestão e culturais.
– E que responsabilidades são essas?
– Em Muge, tenho a responsabilidade de uma importante biblioteca e arquivo que reúne documentação desde o século XV. Entre os meus projectos de investimento, os que mais me ocupam são: a parte agro-florestal, a produção vinícola, a minha coudelaria de puro-sangue lusitanos e o turismo. Em Sintra, o Centro Olga Cadaval, que leva o nome da minha avó, desempenha hoje um papel muito importante na promoção da música clássica. Mas talvez possa dizer que nada disto teria sentido se, espiritualmente falando, não sentisse que participo numa comunidade de afectos, regida por valores de entreajuda e de solidariedade para com os outros.
– Sabemos que a família desde sempre organizou festivais de música na Alemanha, numa casa de família que todos os anos se abre para receber os músicos e o público. Onde é? Ainda o faz?
– O meu pai criou uma associação chamada Collegium Musicum em 1958 no Castello de Pommersfelden, na Baviera, para juntar jovens músicos dos variadíssimos conservatórios do mundo inteiro e oferecer-lhes a experiência de formar uma orquestra e apresentarem-se depois de poucos dias em público com um programa clássico completo. Hoje em dia é o meu irmão Paulo o anfitrião.
– Como foi a sua educação musical?
– Piano, mas percebi que não ia longe.
– Promove saraus de música?
– Depois dos concertos convido amigos e temos sempre umas noites divertidas e interessantes com os músicos.
– Há poucos Cadavais a viver em Portugal...
– Infelizmente, não há muitos Cadavais.
– Alguém na família a ajuda?
– Conto com o apoio do meu irmão Filipe, que vive com a sua família ao meu lado, em Sintra, da minha ir­mã Maria, que vive entre Sintra e a Alemanha, bem como dos meus sobrinhos Olga e Toni. Este último a estudar em Espanha, mas que se escapa sempre que pode para Muge, onde não larga a sua samarra e se sente bem graças ao facto de ter criado raízes com um grupo de amigos local.
– Fale-nos da sua experiência como produtora de vinho...
– Trata-se de desenvolver uma verdadeira arte, feita de experiência acumulada, dos melhores enólogos e comerciais, envolvidos sobretudo na exportação, e de critérios exigentes de gestão das melhores castas. A aposta está ganha. Os nossos vinhos do Ribatejo são hoje uma das principais referências nacionais com uma inegável projecção internacional. Com a vantagem de cobrirem uma vasta gama de níveis e de preços com uma qualidade superior. O nosso Padre Pedro já foi considerado nos Estados Unidos o melhor vinho do mundo, em termos da relação preço/qualidade. E o nosso Marquesa impôs-se como um vinho de excelência. O reconhecimento por este trabalho vitivinícola enche-nos de orgulho! Tenho duas acolhedoras lojas de venda directa ao público, uma na Quinta da Piedade, em Sintra, outra em Muge, à beira da estrada para Almeirim.
– Qual a sua relação com os cavalos?
– Paixão e vício.
– E que sai desta exploração agrícola?
– Muitos produtos como milho, arroz, hortícolas. As pessoas que nos visitam podem ver de onde saem estes produtos nos vastos campos agrícolas. Também temos um enorme montado de sobro de onde é extraída cortiça de elevada qualidade, uma manada mertolenga sempre cheia de pequenos vitelos, a eguada lusitana, que anda em liberdade com os seus poldros, as vinhas que ganham e perdem cor com o decorrer das estações, o encanto do lago, que é propício a actividades de lazer. Não nos podemos esquecer das provas de vinho e da possibilidade de ver uma demonstração equestre, bem como poder montar um puro-sangue lusitano e degustar uma refeição confeccionada pela cozinheira da casa. Costumo dizer que visitar a Casa Cadaval é descobrir um espaço onde se vive uma experiência inesquecível a 60 quilómetros de Lisboa. Tudo informação que temos no nosso site.
– Que mais gosta de Portugal?
– É um país lindo com uma gastronomia e um clima óptimos.
– E dos portugueses?
– Quando não são pessimistas e saudosistas, são divertidíssimos e amigos leais.
Nota: por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico.

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