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Alexandre Borges: “Um ator tem sempre que explorar o lado da sedução”

Aos 48 anos, o ator continua a ser um dos galãs do Brasil, mas isso não lhe subiu à cabeça. A postura de Alexandre é, em todas as situações, acessível e muito terra-a-terra.

Ana Paula Homem
27 de julho de 2014, 14:00

Apaixonado pela poesia de Fernando Pessoa, que descobriu quando viveu em Portugal um ano e meio, no final dos anos 80, Alexandre Borges aceitou sem hesitar a proposta do pianista português João Vasco para fazerem Poema Bar, recital em que o conhecido ator brasileiro declama textos do heterónimo Álvaro de Campos e de Vinicius de Moraes. Estreado em Lisboa em 2011, o espetáculo, que já esteve no Brasil e na Alemanha, trouxe de novo Alexandre ao nosso país recentemente, para apresentações no Porto e em Lisboa.
Numa conversa com a CARAS tão descontraída como os seus ténis All-Star, Alexandre Borges revelou que, mais do que um galã, é um homem sensível e atento aos outros, que vibra quando fala da sua profissão e da família que criou com a atriz Júlia Lemmertz, com quem está casado há 21 anos e de quem tem um filho de 14, Miguel.
– O Alexandre forma com a Júlia um dos casais mais duradouros do mundo artístico brasileiro, um meio onde há muitas solicitações... Diz sempre que não há um segredo, mas tem que haver!
Alexandre Borges – É claro que não fui insensível à beleza e à elegância dela [risos], mas, acima de tudo, a Júlia é uma grande companheira de jornada. Admiramo-nos mutuamente, conquistámos muitas coisas juntos, temos ideias parecidas, as mesmas prioridades, o mesmo jeito de lidar com a vida, o mesmo amor pela profissão. Eu já admirava a Júlia como atriz antes de a conhecer, depois trabalhámos juntos e ficámos amigos muito antes de nos envolvermos. Nos primeiros sete anos foi aquela coisa da descoberta, a minha enteada [a atriz Luiza Lemmertz, de 26 anos] crescendo, nós fazendo peças, viajando... Depois foi a gravidez, ela sendo mãe do meu filho, o bebé nascendo, eu me tornando pai, a delícia de o vermos crescer... E daqui a pouco ele está com dez anos, e já viaja connosco, mostramos-lhe coisas, e agora ele já está com 14... E assim passaram 21 anos sem percebermos. Com brigas, acertos, coisas boas, coisas ruins, crises, mas sempre a puxarmos a relação para a frente.
– E é também um pai extremoso: depois de o seu filho nascer esteve nove anos sem subir a um palco, para passar mais tempo com ele.
– O amor por um filho é inimaginável! A paternidade foi a melhor coisa que me aconteceu na vida. Eu gostava de crianças, mas na hora em que vi o meu filho nascer... Não conseguia mesmo estar longe dele, não queria, as novelas já me afastavam tempo suficiente.
– E é um pai exigente ou tolerante?
– Tento não proibir muito e sim explicar-lhe que ele é que sofrerá as consequências das suas escolhas, as boas e as más. Gosto dessa coisa libertária de o deixar voar com esses termos de responsabilidade. E tem resultado bem.
– Curiosamente, também levou nove anos entre a sua estreia no teatro e a primeira novela que fez. Diz que foi por ter percebido que não se pode ter o sucesso, a fama, sem ter alguma coisa para dar...
Sim, e acho que foi uma sorte. É super válido ter ambição, sonhar alto, mas quando somos novos às vezes achamos que a fama é o mais importante. Só que quando me vi a fazer um teatro adulto, com peças mais profundas, e também a crescer como homem, percebi que ainda não estava preparado para oferecer alguma coisa, que precisava de um tempo de maturação. E pelo meio isso ajudou-me a perceber que o mais importante era essa caminhada. Isso é que é bonito na vida de um ator.
– Ter mais para dar será, então, uma vantagem da idade?
– Sim. A experiência deu-me mais “cara de pau” para encarar as personagens, para não ter medo de errar, de saltar sem rede.
– Recentemente vimo-lo em duas nove­las, Ti Ti Ti e Avenida Brasil, em que tinha personagens excessivas, cómicas, e parecia divertir-se mesmo a fazê-las.
– Muito! Gosto do lado popular das novelas, que chegam a uma camada social para a qual a televisão talvez seja o único meio de entretenimento, de evasão. Porque há muita gente que não pode pagar um bilhete de teatro e toda uma geração que ainda não tem acesso a computadores, à Internet... E a maioria tem acesso à televisão.
– Defende, aliás, que a função do artista é ajudar o ser humano a sair das suas rotinas mais cruéis, dar-lhe momentos de fantasia. Isso é quase serviço público!
– Para mim é muito importante – e dá-me muito prazer – saber que posso proporcionar momentos de alegria a um varredor de ruas, um arrumador de automóveis, uma dona de casa, um empregado de mesa, uma pessoa doente ou sozinha...
– E nunca parece fazer sacrifício quando lhe pedem um autógrafo ou para tirar uma fotografia consigo...
– Isso é o retorno do meu trabalho! Às vezes pode ser cansativo, mas todas as pessoas têm que fazer alguns sacrifícios nas suas profissões... E a verdade é que quanto mais amor damos, mais amor recebemos.
– Diz que as emoções são a sua prioridade. E que o ator tem a responsabilidade de iluminar os recantos mais escuros do porão. Isso não o torna mais vulnerável ao sofrimento?
– Claro que tenho momentos down, inevitavelmente, a vida traz-nos perdas, prega-nos rasteiras, mas também tive a sorte, desde muito jovem, de ter vivido coisas tão boas! Ter ido para S. Paulo aos 20 anos, sem dinheiro, a comer uma sanduíche e uma sopinha, e conseguir concretizar o sonho de ser ator, e logo a seguir ter a oportunidade de vir fazer uma peça a Portugal! Depois foi o cinema, a televisão... E tenho uma família maravilhosa, o apoio dos fãs... Isso enche-me de energia, dá-me muita força.
– Tem estatuto de galã, mas isso não parece torná-lo vaidoso.
– Um ator tem sempre que explorar esse lado da libido, da sedução, do desejo, está implícito no nosso trabalho, e eu sempre tentei explorar nas minhas personagens as questões do homem contemporâneo, que bicho é ele hoje, como age, o que deseja, quais são as suas fraquezas, inseguranças, e também o que são as mulheres, o que é o casamento, o que são as traições. Acho que é por isso que o público me vê como um galã. E eu aceito isso, porque a relação artista/público sempre será de querer tocar, de querer dar beijinho, mas não significa que passe disso.

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