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Cristiano Ronaldo com o filho, Cristiano Ronaldo, o neto que Dolores tem ajudado a criar desde o primeiro minuto

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Caras/Getty/D.R.

Dolores Aveiro: Livro desvenda a vida difícil da mãe de Cristiano Ronaldo

Paulo Sousa Costa é o autor do livro que pré-publicamos e que considera uma justa homenagem à mãe de Cristiano Ronaldo.

Redação CARAS
15 de julho de 2014, 15:58

Uma mãe com esta fibra só podia gerar o melhor jogador de futebol do mundo... É com este post-scriptum que Paulo Sousa Costa termina a introdução do livro que escreveu sobre Dolores Aveiro, a mãe de Cristiano Ronaldo. Uma mulher de armas, guerreira, que passou dificuldades, que aos cinco anos perdeu a mãe, ficou igualmente privada do colo do pai, cresceu com as regras severas ditadas por um orfanato, mas nunca desistiu. Venceu um cancro da mama e gerou uma família a quem nunca faltou amor. Foi por tudo isto, por ser uma mulher inspiradora, “como há poucas no mundo”, que o autor escreveu este livro.
Uma mulher de armas
Dolores Aveiro é uma dessas pessoas a quem a pouca sorte, melhor dizendo, a tragédia, bateu à porta e entrou sem pedir licença. Logo aos cinco anos de idade foi‑lhe dito que nunca mais veria a mãe. Desde esse dia experimentou tudo o que uma vida desgraçada tem direito, desde o abandono num orfanato até ao espancamento por parte da madrasta e muita falta de comida na mesa. (...) Maria Dolores nunca se deixou vencer pelo infortúnio, procurou sempre a luz ao fundo do túnel, apesar de ver sempre mais túnel do que luz... Se é verdade que os sonhos lhe foram sendo bruscamente arrancados, também é verdade que nunca perdeu a determinação de lutar. (...) Mesmo sem argumentos nem soluções para que a vida lhe sorrisse, nunca desistiu. Em vez disso, fundou uma família em torno do valor, para si, mais precioso: o amor, o seu grande trunfo, o seu principal escudo face às atrocidades que a vida lhe foi enviando. Na sua mais recente luta, disse ao “ouvido” do cancro que se fosse embora, pois ainda não tinha chegado a sua hora...
O amor e o carinho escasseavam há muito
O chefe da casa, José Viveiro, homem de poucas posses mas muita vitalidade, via assim chegar ao seu pequeno reino uma princesa de olhos esbugalhados, como quem quer apreender o mundo num só dia. A mãe, Matilde, sem esconder o cansaço do parto, estava feliz. Tinha nos braços a sua primeira menina (...) No dia do registo da bebé Maria Dolores dos Santos Viveiro houve outro menino igualmente registado a seu lado, como se se tratasse de um gémeo. O seu irmão José, já com um ano, foi levado pela primeira vez pelos pais ao registo (...) Num ápice chegaram mais três rebentos, ficando assim completa a filiação: três meninas e dois meninos. Laurentina, Florentina e Jorge foram os últimos herdeiros do “trono”. Se sem filhos o casal Viveiro já vivia com dificuldades, com mais cinco crianças para alimentar a situação piorou. Havia pouco para comer e quase nada para vestir e calçar. O futuro era negro. Só um golpe de sorte, um trabalho inesperadamente rentável, poderia tirar esta família da pobreza. Uma casa sem condições e cinco crianças a crescer à velocidade de quem quer ser grande em pouco tempo não auguravam mudanças favoráveis.(...) A somar às parcas condições, o chefe da família, movido pela frustração de pouco ou nada ter para dar aos filhos, começou a desligar‑se, refugiando‑se muitas vezes a muitos quilómetros do Caniçal, ficando longos períodos pelo Funchal, deixando sozinhas a mulher e as cinco crianças. (...) O sustento daquela casa provinha apenas da atividade da mãe, Matilde, que encontrava nos bordados a única forma de alimentar os filhos. (...) Já não era apenas comida e roupa que faltava; o amor e o carinho escasseavam há muito. Um pai desligado da família e uma mãe demasiado ocupada a tentar sustentar‑se e, acima de tudo, aos filhos eram os condimentos suficientes para que o calor de um simples colo não existisse na vida daquelas crianças.
A notícia da morte da mãe
Já com cinco anos, Maria Dolores dos Santos começava a ter consciência de que nem tudo corria bem no seio da sua família. Via os irmãos passar as mesmas dificuldades que ela, via que os meninos da vizinhança traziam sempre os pés calçados. A palavra fome assumiu uma importância diária, uma vez que a comida era algo raro na pequena mesa da casa. (...) Apesar da idade e das circunstâncias difíceis, a pequena Dolores desempenhava já um papel de protetora dos irmãos, como se os quisesse ajudar a encontrar um caminho diferente daquele que a vida lhes apontava. (...) A duas semanas de completar seis anos, recebeu uma notícia que mudou a sua vida para sempre. Estava a brincar na humilde casa da sua avó materna, como fazia sempre que a mãe tinha de trabalhar, quando uma vizinha entrou de cara fechada e disse: “A sua filha, a Matilde... ela... sentiu‑se mal e foi de urgência para o hospital.” (...) Assustada e sem perceber a razão de a sua mãe estar doente, Maria Dolores viu o seu coração encher‑se de saudade, um coração demasiado pequeno para aguentar tanta tristeza. (...) Dois dias de angústia depois, chegou a notícia que ninguém queria ouvir. Matilde, de 37 anos, falecera na cama do hospital, não resistindo ao ataque cardíaco de que fora vítima. A sua mãe morrera. Uma mulher jovem com uma vida que não lhe tinha dado tréguas, deixava cinco filhos órfãos. Cinco crianças que não percebiam para que lugar fora a sua mãe, o sítio a que os adultos chamavam céu. Nem a razão pela qual nunca mais a voltariam a ver.
Abandonada num orfanato
Viúvo e com cinco crianças, José Viveiro viu‑se a braços com o pior dos cenários que alguma vez podia ter imaginado. Não tinha tempo, nem disposição, nem dinheiro para ficar com a tarefa que se lhe apresentava. Cuidar dos filhos nunca fora a sua vocação, muito pelo contrário, e agora não lhe restava outra solução que não fosse abdicar deles. Apenas um ficaria com o pai, o mais velho, José. Os restantes, a conselho do padre da freguesia do Caniçal, iriam viver para o Funchal, num hospício que albergava crianças órfãs, onde podiam ter melhor acompanhamento e uma educação mais adequada. (...) O internamento no hospício não era a única má notícia com que se deparava a pequenita Maria Dolores. As separações não tinham acabado. Por terem idades diferentes, Dolores, de seis anos, e a irmã Laurentina, de quatro anos, iriam para a mesma instituição; os outros dois, Jorge, de nove meses, e Florentina, de três anos, ficariam numa instituição ao lado, que fazia o acolhimento de crianças mais pequenas, em regime de infantário. Num só golpe, a vida roubara a Maria Dolores a mãe, o pai, e o irmão mais velho, sem saber quando os iria reencontrar; e, apesar de aparentemente estarem por perto, dois dos outros irmãos passavam a ter um novo lar, longe dela. (...)
Uma nova vida
Numa mão, Dolores trazia um pequeno saco onde cabia toda a sua roupa; na outra, agarrava a mão pequena e trémula da irmã. Parada à frente da enorme entrada da sua nova morada, ladeada pelo pai e pelo pároco, olhava admirada para tão imponente fachada. (...) De passos receosos mas ao mesmo tempo intrigados, entrou no seu novo mundo sem nunca largar a mão da pequena Laurentina. (...) A casa, outrora pensada para albergar gente com doenças pulmonares, tinha um cariz religioso e servia para hospedar crianças a quem a vida privara da presença dos pais. (...) Maria Dolores deixara o desconforto amigável do seu lar no Caniçal, para o conforto severo de uma casa que não era sua, com gente que não conhecia. Apesar da idade inocente, Dolores sabia que a vida nunca mais ia voltar a ser o que era. Uma nova etapa tinha começado – novas regras, novos costumes – e essa era a parte menos má, novas roupas com direito a sapatos e tudo! E comida na mesa a horas... A adaptação não foi fácil, principalmente devido às saudades que sentia da mãe.
Castigos severos
As irmãs eram implacáveis: quem se comportasse mal tinha à sua espera castigos severos, para que não voltasse a repetir a façanha. (...) Como tantas outras crianças da sua idade e fruto dos seus traumas que acumulava sem destino, Maria Dolores fazia xixi na cama com alguma frequência. Umas vezes por puro descuido, outras como uma clara e inconsciente forma de chamar a atenção para o seu sofrimento. Implacáveis, para que não mais se repetisse tal episódio, as irmãs aplicavam o castigo típico daquele tempo: saia para cima, rabo ao léu e uns valentes açoites com urtigas acabadas de apanhar especialmente para aquele propósito. (...) Maria Dolores transformava‑se numa criança cada vez mais triste e inquieta. Chorava a ausência da mãe e a distância dos irmãos e do pai, apesar de este nunca lhe ter feito um carinho quando partilhavam o mesmo teto. Maria Dolores não tinha qualquer ligação familiar com as irmãs do hospício, mas, tal como as restantes crianças, encontrava nelas algum afeto. (...) As horas, os dias, as semanas passavam e traziam mais sofrimento a uma criança que crescia empurrada para uma vida que não escolhera. (...) Perguntas e mais perguntas assolavam a pequena Dolores: – O que é o céu? Onde está a minha mãe? Porque não posso viver com os meus irmãos e com o meu pai, se eles não estão no céu? Porque tenho de viver aqui, sozinha com a minha irmã? Quando vou voltar para a minha casa?
O Natal de 2005, o mais triste da família
Precisamente por não ter mesas fartas durante todo o ano, era no Natal que a pequena Dolores sentia a diferença entre comer um pão sozinha e ter de o repartir com os irmãos, e comer carne pela primeira vez no ano. Na casa de José Viveiro, por norma, comia‑se sopa e milho cozido uns dias e, para não variar, nos outros dias comiam milho cozido e sopa. Bife era palavra que Dolores sabia soletrar, mas mastigar era coisa que nunca fizera na casa do seu pai. Depois de mulher feita e mãe de filhos, vivendo com as mesmas dificuldades que tivera em criança, Dolores quis manter o espírito natalício, acreditando ser uma tradição mais importante do que apenas a partilha de bens materiais. O Natal é amor, é acreditar que é possível ter uma família feliz, e as reuniões familiares nessa época sempre foram uma tradição que se mantém até hoje no clã Aveiro. O Natal de 2005 foi o mais triste da família, que perdera o patriarca poucos meses antes. (...) Na verdade, a partida de Dinis era ainda mais um motivo para que se reunissem.
A dura batalha contra o cancro da mama
Um estranho caroço sentido numa das mamas deixara‑a preocupada e o resultado da análise não era bom... Dolores estava com um grave problema de saúde, o diagnóstico não deixava dúvidas, tinha cancro da mama. (...)  O medo gelou o clã Aveiro, que tratou de rodear de cuidados a sua matriarca. Num ápice, viveram a possibilidade de ficar sem mãe, sem luz, sem referência. (...) Maria Dolores mal podia acreditar que a maldita doença, tão comum nas mulheres e que ceifava tantas vidas, lhe batera à porta. Era inevitável pensar no pior. Sabia que, por mais forte que fosse, nem tudo dependeria da sua vontade. Teria chegado a sua hora? Seria esse o desejo de Deus, a quem sempre entregou o seu futuro? E os seus filhos, o que seria deles sem a mãe por perto? Numa decisão de quem empurra o destino para fora de cena, jurou a si mesma que não ia desistir e que ia lutar como a guerreira que sempre fora. Não podia ter chegado o seu dia, aquela história não podia acabar assim. (...) Queria viver e para isso ia lutar com todas as forças, como aliás fizera durante toda a vida. (...) Entre lágrimas, sorrisos forçados e abraços apertados, o clã Aveiro esperava o resultado da intervenção cirúrgica. A primeira parte do que parecia um jogo da final da Liga dos Campeões da Vida estava concluída com êxito. (...) No Porto, um batalhão de tratamentos de radioterapia esperava a matriarca da família Aveiro. (...) Foram seis longas semanas passadas no Porto com o coração numa mão e o telefone na outra, tentando descansar os filhos a cada minuto, dizendo‑lhes que a mãe estava bem, que estava, como sempre, a lutar! (...) Maria Dolores conseguiu fintar a palavra que ninguém queria ouvir em mais um episódio da sua atribulada mas vencedora história.
O início da amizade do autor com o clã Aveiro
Em 2010, em novembro, a Carla [Ma­tadinho] tinha um desfile na Madeira. (...) Nessa altura, a vida pregara‑me a pior rasteira que um ser humano pode viver. Cerca de dois meses antes, o meu filho tinha morrido e não me apetecia sequer sair de casa, quanto mais fazer uma viagem. (...) Durante o desfile, reservei‑me numa sala por cima de onde a passarela estava montada. (...) Pouco tempo depois de os convidados subirem, percebo que três mulheres se dirigiam a mim, passo a passo, com ar silencioso e até mesmo apreensivo. (...) Depois das apresentações da praxe, uma vez que não nos conhecíamos pessoalmente, vi que tinha à minha frente a Elma e a Cátia Aveiro, com a prima Márcia. Retribuí o cumprimento, e ali fiquei quase mudo, mesmo que tivesse algo para dizer, não me apetecia. (...) Logo percebi que as manas Aveiro também não tinham ido para conversar comigo, estavam ali apenas para me darem um abraço de carinho, dizendo que me admiravam pela força e que sabiam bem o que era perder um ente querido, pois ainda choravam a morte do pai. (...) Aquele gesto revelava bem a matéria de que eram feitas aquelas mulheres que me tinham ido abraçar. Começava ali uma eterna amizade pelo respeito e carinho dos seres humanos que demonstraram ser. (...) Um mês depois da viagem à Madeira, retribuímos o carinho recebido no Funchal com um jantar em nossa casa, onde estavam a Elma, a Márcia e mais uns amigos. (...) surgiu um inesperado convite da Cátia, ia fazer o tradicional jantar de Natal de família em sua casa, no dia 25 de dezembro, e fazia questão de que fôssemos. Expliquei, agradecendo, que o Natal era claramente a pior altura do ano para mim e que de certeza ia precisar de estar sozinho. Uns dias depois, achámos que o melhor seria aceitar o convite, desde logo por ser uma época tão importante para a família Aveiro, e que se nos estavam a convidar era porque queriam mesmo dar‑nos apoio naquela fase terrível para mim. Achei que não tinha o direito de rejeitar o convite, e fomos. (...) Foi nessa noite que conheci a D. Dolores. Sem dar muita confiança, atirou‑me um abraço apertado de apoio.
Uma prova de humildade
A Carla e eu estávamos convidados para o batizado do Dinis, filho da Cátia e do Zé, e do Cristiano Júnior, filho do Ronaldo. A festa estava marcada para a casa da Cátia, na Moita, onde estaria reunida toda a família. Ao chegarmos, à entrada da casa estava imprensa como eu nunca tinha visto. (...) A avaliar pelo aparato, a festa ia ser de arromba, deviam estar lá personalidades vindas do mundo inteiro, colegas de Ronaldo, treinadores e outras figuras públicas. (...) Quando finalmente acedemos ao interior, tivemos a agradável surpresa de ver apenas familiares, alguns amigos do Funchal e pessoas mais ligadas ao Cristiano Ronaldo do mundo do futebol, como o caso do Jorge Mendes. Num dia tão especial, a família Aveiro, que podia fazer daquela festa um evento com estrelas mundiais, tinha‑se reservado à companhia dos amigos mais chegados e dos familiares de toda a vida. Na mesa da festa, ao contrário do luxo que tantos quiseram adivinhar, os croquetes não eram feitos de ouro e as lagostas não faziam fila para subirem aos pratos. Era uma festa familiar, normal, como tantas outras. Que grande prova de humildade o clã Aveiro acabara de dar. Fiquei a admirá‑los ainda mais.

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