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Ana Marques revela angústias e medos em livro

Gravidez de risco e gémeas prematuras dão mote a livro

Cláudia Alegria
28 de junho de 2014, 10:00

A apresentadora, de 42 anos, passou para o papel as experiências vividas nas cinco semanas que passou internada na maternidade. Uma história que termina com um final feliz: as gémeas Francisca e Laura – fruto da sua relação com o economista Joaquim Barata Correia – têm hoje cinco anos.
"O  que está a acontecer não vem no meu guião. Era a minha gravidez, o momento mágico da minha vida. Devia ser acompanhado por violinos e fanfarra. Um transe de alegria. O ponto alto do romance. Uma histeria coletiva de família e amigos.

Mas houve qualquer coisa. Como nos filmes, como nas séries. Apareceu uma nuvem sobre a minha cabeça. Uma nuvem chamada pré-eclâmpsia. Este palavrão, que não é pa­lavra que se diga à mesa, esta pré-eclâmpsia que me ameaça, é igual a uma sirene de alarme, a um sinal de perigo. Só me apetece gritar. Mas o que é isto? A gravidez só devia ter um sentido, o da felicidade. O filme da minha gravidez é o filme de uma enorme barriga, o filme de duas gémeas que se passeiam lá dentro como quem corre pelo Jardim da Estrela. Esta cama, estas batas brancas, não pertencem à minha película."
Nova morada
Que se dane a paciência, que se dane a imagem pública, que se dane a diplomacia. Eu só cá vim ontem à noite para me dizerem que estava tudo bem e mandarem-me para casa fazer o enxoval, preparar o quarto, concentrar a minha atenção em cueiros e folhinhos, em golas de renda e touquinhas, em babygrows e mantinhas de croché.

Faltam-me fotos da minha barriga, falta-me saber qual o carrinho mais seguro para levar as bebés, que creme cuida melhor da pele dos primeiros dias depois do parto. Falta-me fazer o curso de preparação para o parto. Já comprei as aulas todas e só fui à primeira. Aliás, foi aí mesmo que se deu o alarme. Luzinhas, o problema todo começa nas luzinhas.
Entrar de urgência
Com a mesma felicidade tola e irritante, volto a enterrar a cabeça na minha cama para mais uma etapa de sono. Pequena, diga-se, porque daí a nada acontece mais um episódio. Outra parturiente descontrolada. Mais gritos. E o “cué, cué, cué” no final.

O Joaquim bem quer realçar a parte mais fofinha do momento. Mas na minha cabeça apenas ecoa a dor, o desespero, os gritos. Tenho oficialmente medo do parto. Melhor: já tenho trauma do parto e ainda não passei por ele.
Maçãs riscadinhas
Se é assim que bate um coração de mãe, como bate agora o da minha mãe? Também me estende na cama as suas maravilhosas criações: mantinhas de croché dignas de uma revista de decoração. Cueiros originalmente bordados, lençóis antigos encontrados no baú de família. Peças que ambas sonhámos ter tempo para imaginar e organizar juntas. No guião de uma mãe e filha – uma quase mãe e a outra quase avó – não se ensaia o enxoval dos bebés em cima de uma cama de hospital. Não se disfarça o medo do futuro falando da cor das linhas e do bordado inglês.
Um dia mau ou apenas dúvidas

Enquanto me mantiver neste limbo, neste “tudo na mesma”, nem melhor nem pior, cada dia é celebrado como uma conquista. Ainda que às vezes mais pareça que vitória e derrota vêm juntas, ex-aequo. Por mais que as análises garantam e as ‘ecos’ confirmem que as minhas miúdas não estão a ser afetadas, há momentos em que o descomandado coração martela a consciência a avisar que o mais prudente seria entregá-las ao mundo. Que a Natureza e a medicina fazem o resto. Mas não, não quero. Não deixo. São minhas. Somos um todo.
Fotógrafos à porta
E eu aqui, no quarto 144 de uma maternidade. Nem no Algarve, nem em Formentera, nem em Carcavelos. Mas com fotógrafos de plantão lá fora. Estranho. Para quem foi para a prateleira, logo no início da gestação, sem que nenhuma imprensa, nem os especializados jornalistas de televisão, se tivessem questionado sobre o motivo para colocar em pausa uma profissional que nunca teve um desaire de audiências... mas enfim, isso já são outros quinhentos...
Ficção terapêutica
Aqui, na Maternidade Alfredo da Costa, a vida real confunde-se com os guiões hollywoodescos. Eu tento misturá-la, porque prefiro encher a minha cabeça com estes devaneios benignos a ter de encarar paredes bolorentas e deixar-me abalar pelas incertezas dos minutos seguintes. Vai daí, toca a criar, inventar com o que tenho mais à mão.
O que mais irá acontecer
Seja como for, apesar de muitos golpes, e alguns foram bem duros no início, tenho sentido e alimentado uma fé inabalável. Tenho achado que tudo vai correr bem, que só pode correr bem. Mas hoje parece-me que a montanha se vai desmoronar. As minhas resistências desfazem-se. Estou cansada de me fazer forte. Eu não sou forte. Não me restam forças para ser forte. Não quero, não consigo ser forte. Não é justo que, depois de tudo, me falte a saúde para criar estes bebés. Não é justo que eu ponha duas crianças no mundo e que depois lhes falte.
Feticídio
Infelizmente e da pior maneira, soube que existe e é praticado. É um ato médico. Terrível, inevitável, talvez. Não posso eu, não pode ninguém julgar tal procedimento. Ser mãe é meter o coração na boca de um tigre e passar o resto da vida a segurar-lhe as mandíbulas. É o melhor e o pior da nossa existência. Somos docemente condenadas a operar um milagre. O milagre é essa felicidade de poder criar e ver crescer gente. De moldar seres humanos para serem melhores que nós e, quem sabe, mudarem o mundo. Mas ser mãe é também viver no temor de que o mundo se vire contra os seres a que demos vida, que os ataque, que os maltrate. E é sentir tudo isto, ainda antes de os sentir. Antes de perceber que mais um coração bate dentro de nós. É amar o que ainda é apenas sonho e desejo. E futuro.
As minhas mulheres
Sim, provavelmente esta vai ser a experiência mais transformadora da minha vida. Não por ficar a saber que o preço de uns Louboutins é maior do que o sustento de uma família. São Tomé tinha razão: ver para crer. É preciso sentir, vivenciar. Reduzir a existência ao fator saúde e concluir que nada se faz sem ela. É preciso descobrir que a coragem se vai buscar ao sorriso de uma amiga de poucos dias que se diverte com as nossas piadas e com isso ganhar o dia.
Lar, amargo e doce lar
A minha mãe engrossou a voz. Já não tinha mais argumentos nem mais doçura para me trazer para a realidade. O tom dela pareceu-me um puxão de orelhas merecido. Mas que raio de humor este que faz de mim um bicho? Tenho o privilégio de vir a casa e a sorte de ter à minha volta os que mais amo. Formou-se um cordão humano de amigos e família para não me deixar ir abaixo e estou assim, intratável. Não há hormonas que expliquem o fenómeno.
Descompensar
Acordo com uma fricção gelada no braço. Ainda só abri um olho e vejo, algo desfocado, o mocinho das análises. Então, agora é assim? Já não se pede licença para espetar a agulha? Tal é o hábi­to, não é verdade? Todos os dias a fazer de mim um passador humano... Mas olhe que à vontade não é à vontadinha. (...) E estou oficialmente a descompensar. Não são apenas os rins, a tensão arterial, a proteína, o ácido úrico e mais as milhentas coisas que se desorganizaram dentro de mim que estão a tocar no vermelho. A minha cabeça parece explodir de ansiedade.
O “eu” que se despede
Esta é a última noite que vos tenho aqui. Só para mim. Só minhas. A amar-vos sem vos conhecer. Estas vão ser as últimas festas que farei na minha barriga para chegar ao vosso coração. Vai ser a última vez que o pai conversa convosco através da minha pele.

Sinto a nostalgia da despedida. Há, nesta despedida, um adeus triste, um adeus melancólico, apesar de saber que vem aí uma felicidade maior. Há tanto de mim que se vai esfumar no tempo depois desta noite. Tanto do meu ser que vai morrer, mas há também tanto de mim que nascerá. Certo é que há uma vida que nunca mais voltará a ser a mesma.

(...) Os minutos seguintes vão trazer o veredicto. A realidade amarga ou doce. Apenas dois ou três minutos me separam do desenlace que vai resolver este mistério.

– Ah, esta é parecida com a mãe!

Vi a Francisca nas mãos ágeis de uma enfermeira e a estupefação só me fez dizer, de voz embargada e lágrimas nos olhos:

– É a minha filha! Já sou mãe!

(...) Foram apenas dois minutos o tempo que separou a mana mais velha da mais nova. Não deve haver memória de dois minutos demorarem tanto. Sinto a sua pele na minha e o vigor do seu choro. “Amor” foi a primeira palavra que lhe segredei ao ouvido. Será também essa que direi à Francisca quando a aproximarem de mim. Amor. A palavra que condensa o melhor que esperamos da vida.
Cuidados intensivos
Estou oficialmente nos Cuidados Inten­sivos. E se foi um choque quando há umas semanas soube que estava oficialmente com uma pré-eclâmpsia, o que determinou o meu oficialíssimo internamento, sinto que isto é oficialmente pior. Parece que a dita não quis ir à sua vida, como consta oficialmente dos livros. A pré-eclâmpsia gostou de mim e decidiu acompanhar-me no pós-parto. A falência já não é só nos rins. Passou para o fígado e se o mal quiser evoluir e tornar-se mesmo oficial, pode ser péssimo. Posso entrar oficialmente em coma. E posso até oficialmente morrer.
Dia 2
Duas auxiliares pegam-me nos membros com cuidado. Em movimentos delicados humedecem-me a pele. Estão em silêncio e apenas bichanam uma à outra indicações em meias-palavras. Eu choro. Choro pela decadência. Pela humilhação. Por um corpo ferido. Por um corpo que não comando. Por um corpo que, afinal, não ganhou esta guerra. Rendo-me. Fica tu com o troféu, maldita pré-eclâmpsia. Não me levaste as crianças, leva-me agora a mim.

É triste, duas crianças não terem sequer uma mãe para se lembrarem. Nem o cheiro lhes ficar na memória mais recôndita. Mas para que quererão duas crianças uma mãe tão incapaz? Este desperdício de gente que aqui resta?
Dia 3
Eu esforcei-me. A sério que dei o meu melhor. Assim que fiz deslizar a perna em direção ao chão, senti que me rasgavam por dentro. Fui brava. Mordi o lábio e guardei a lamúria para o que vinha a seguir. Só podia ser pior. Pus os dois pés no chão. A força do corpo ainda a concentrar-se sobre a cama e gotas de suor a escorrerem-me pela cara abaixo. Tentei, mas ficou escuro e o chão desatou a fugir de mim vertiginosamente. Atirei-me de novo para o colchão. Era impossível.
Agora amanha-te!
Era escusado contra-argumentar. Dizer-lhe que estou fragilizada, que tenho uma criança prematura, um vidrinho. Que não me sinto apta a perceber quais as necessidades da minha bebé. Que ainda não tenho leite e nem sei o que vai comer. Nada. Está visto que a senhora enfermeira já colou a mim o estigma da “mãe” que se quer livrar da filha durante a noite para dormir descansadinha. Venha a noite, então! E venha lá do fundo o instinto maternal. Essa força mágica que acorda em nós, mulheres, um saber e uma certeza nunca antes experimentados.
Uma sombra de mim
Não me olho ao espelho há quatro dias. Aliás, ainda não me olhei ao espelho desde que fui mãe. Vejo o meu reflexo nas mulheres que me rodeiam. Parecemos uns zombies que se arrastam em câmara lenta. Preciso ir à casa de banho e não sei se devo levar a miúda comigo. Deixá-la aqui também não é uma ideia que me agrade. Não quero perguntar às auxiliares com receio que me humilhem com outra tese sobre o-que-uma-mãe-normal-deve-fazer-num-caso-destes.
Ordenha mecânica
Há uma espécie de peregrinação e bailado diário rumo àquela parede. Convido a leitora a fazer soar na sua cabeça a música do filme Momentos de Glória. Já está a ouvi-la? Agora, em vez de atletas que correm em câmara lenta na vitoriosa direção da meta, imagine um bando de mulheres, de camisa de dormir amarrotada, cabelos empeçados e olheiras profundas, a dirigir-se em competição desenfreada, mas com grande vagar, arrastando chinelos e agarrando as vísceras doloridas, tentando ganhar centímetros de avanço, para alcançar um estranho e gasto objeto aparafusado à parede. O objetivo é chegar primeiro à única máquina existente na sala.

Quase todas as mulheres desta sala estão na minha condição. Estão longe dos seus bebés e com muita dificuldade em produzir quantidades abundantes e terapêuticas de leite. A bomba de tirar leite é, para quase todas, o último e único recurso.
Intradérmica
A Fátima conhecia-me dos programas da SIC onde tantas vezes a entrevistei. Conhecia-me maquilhada, penteada e bem vestida. Era uma imagem de mim que não batia certo com a máscara escavacada que agora estava a ver. Para me animar, optou por um tema de conversa familiar:

– Está aqui e nem sabe o que se passa na sua televisão! Então não é que o Moniz deixou a TVI... – E zás, foi o penso todo de uma vez mais uns bocadinhos de pele. Coisa pouca. Apenas ficou a sensação de que me tinha arrancado todas as camadas de epiderme que separam o mundo exterior do meu intestino delgado. O que é lá isso comparado com tamanha convulsão na comunicação social portuguesa?
Amor e agonia
É assim que me sinto. Colada a este cárcere desde o início de julho. Confesso que o cenário que mais medo me fazia era o de ter de sair sem as minhas filhas nos braços. Ficarem elas aqui, internadas nos prematuros, e mandarem-me para casa. Vir depois, todos os dias, visitá-las para as abraçar, beijar, falar-lhes e, no fim do dia, voltar para casa, sozinha, sem as crias. Esse era o cenário que me apavorava, ter de repetir essa rotina até que as bebés estivessem amadurecidas para enfrentar o mundo lá fora.
Síndrome de Estocolmo
Olho para trás e despeço-me secretamente de uma vida que ficou guardada atrás da imponente fachada da MAC. Há qualquer coisa que me atrai, que continua a chamar-me para o seu interior. Uma força paradoxal como a síndrome de Estocolmo. O drama que aqui vivi, as asas da morte a roçarem-me a face, o desejo de, como mulher, dar novas vidas à vida, foi um drama inesquecível. Mas, por mais empolgante que o drama pareça, por mais laços que a esse drama me prendam, não há regresso, não há voltar atrás. A força que todos os dias os meus pais aqui me vieram dar, o mar de ternura do homem que está ao meu lado, o meu Joaquim, trazem-me à vida e mostram-me que é preciso começar de novo. A Francisca e a Laura não querem saber de nenhum passado, nada as prende a nostalgias passadistas. Elas são só futuro, o futuro em estado de absoluta pureza, um futuro amplo e radioso como o sol de agosto. A Francisca e a Laura são o futuro de si mesmas. E são o meu futuro.

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